Pular para o conteúdo principal

Questão de Medicina — Clínica Médica Humana — FGV 2023

MedicinaClínica Médica Humana
Código
fg064355
Banca
FGV
Órgão
FHEMIG
Ano
2023
Nível
Superior
Cargo
Médico - Clínica Médica
Paciente masculino, 64 anos, internado com diagnóstico de infarto agudo do miocárdio, com boa resposta à trombólise, evoluiu um dia após o início dos sintomas de infarto com dor torácica, ventilatório-dependente, agravada por inspiração profunda e aliviada quando o paciente flete o tórax anteriormente, além de febre baixa.Ao exame paciente com fácies de dor, hemodinamicamente estável, sem esforço respiratório. Presença de atrito cardíaco no exame cardiovascular e sem alterações no exame pulmonar.Assinale a opção que indica o diagnóstico mais provável para esse quadro clínico.
  1. APneumonia.
  2. BMiocardite.
  3. CPericardite.
  4. DEndocardite.
  5. EDissecção da aorta torácica.
Revelar gabarito e comentário

GabaritoC — Pericardite.

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

Pericardite pós-infarto agudo do miocárdio

Gabarito: letra C. O quadro clínico descrito — dor torácica ventilatório-dependente, aliviada pela flexão anterior do tórax, febre baixa e atrito cardíaco — é a tríade clássica da pericardite aguda, que neste paciente surge como complicação precoce (1º dia) do infarto agudo do miocárdio (IAM). O diagnóstico diferencial com as demais alternativas se resolve pela semiologia: a dor pleurítica com atrito pericárdico aponta diretamente para o pericárdio, não para o miocárdio, o endocárdio, o parênquima pulmonar ou a aorta.

A pericardite é a inflamação do pericárdio, a membrana que envolve o coração. No contexto do IAM, ela pode ocorrer de duas formas: precoce (pericardite epistenocárdica, nas primeiras 24-72 horas, por inflamação direta da área infartada adjacente ao pericárdio) e tardia (síndrome de Dressler, semanas após, de provável mecanismo autoimune). O caso apresentado é a forma precoce, que aparece justamente no primeiro dia após o infarto.

A dor da pericardite tem características muito específicas que a distinguem da dor isquêmica: é ventilatório-dependente (piora com a inspiração profunda), postural (melhora quando o paciente se senta e inclina o tronco para a frente, pois afasta o pericárdio inflamado do coração) e frequentemente acompanhada de febre baixa. O achado físico mais importante é o atrito pericárdico, um ruído áspero, de alta frequência, ouvido na ausculta cardíaca, produzido pelo atrito entre as camadas visceral e parietal do pericárdio inflamado. A presença desse atrito é praticamente patognomônica de pericardite.

O raciocínio diagnóstico da dor torácica deve sempre começar pela exclusão das causas de maior risco à vida: síndrome coronariana aguda, embolia pulmonar, dissecção de aorta, pneumotórax e ruptura esofágica. No entanto, quando a dor tem caráter pleurítico e é acompanhada de atrito pericárdico, o diagnóstico de pericardite se impõe. A tabela abaixo resume as características diferenciais das principais causas de dor torácica:

Critério

Pericardite

IAM

Dissecção de aorta

Embolia pulmonar

Caráter da dor

Pleurítica, em facada

Opressiva, constritiva

Dilacerante, excruciante

Pleurítica (se infarto pulmonar)

Fatores que pioram

Inspiração profunda, decúbito dorsal

Esforço, estresse

—

Inspiração profunda

Fatores que aliviam

Sentar e inclinar-se para frente

Repouso, nitrato

—

—

Sinais associados

Atrito pericárdico, febre

Dispneia, sudorese, B3/B4

Sopro de IAo, assimetria de pulsos

Dispneia, taquipneia, taquicardia

A pegadinha desta questão está em reconhecer que a dor torácica pós-IAM não é, necessariamente, uma extensão da isquemia. O candidato pode ser tentado a pensar em uma nova síndrome coronariana aguda, mas as características da dor (pleurítica, postural) e o atrito pericárdico direcionam inequivocamente para a pericardite. É fundamental lembrar que a pericardite é uma complicação conhecida do IAM, e o atrito pericárdico é o sinal que a distingue das demais complicações.

1Forma precoce (epistenocárdica)
1º ao 3º dia
Inflamação direta da área infartada
2Forma tardia (Dressler)
Semanas após
Mecanismo autoimune
3Diagnóstico
Dor ventilatório-dependente
Alívio ao sentar/inclinar
Atrito pericárdico
Febre baixa
Pericardite pós-IAM
LEVELsoulevel.com.br
Pericardite pós-IAM: Forma precoce (epistenocárdica) (1º ao 3º dia, Inflamação direta da área infartada); Forma tardia (Dressler) (Semanas após, Mecanismo autoimune); Diagnóstico (Dor ventilatório-dependente, Alívio ao sentar/inclinar, Atrito pericárdico, Febre baixa)

Alternativa A — ❌ Incorreta

A pneumonia, especialmente com pleurisia, pode causar dor torácica ventilatório-dependente e febre, mas o exame físico mostraria alterações pulmonares (estertores, broncofonia, macicez à percussão) e não haveria atrito cardíaco. O enunciado afirma explicitamente "sem alterações no exame pulmonar", o que afasta o comprometimento do parênquima pulmonar. Além disso, o contexto de IAM recente com atrito pericárdico é muito mais sugestivo de pericardite.

Alternativa B — ❌ Incorreta

A miocardite é uma inflamação do miocárdio que pode cursar com dor torácica, mas geralmente se apresenta com insuficiência cardíaca (dispneia, edema, B3), arritmias e elevação de marcadores de necrose miocárdica. A dor da miocardite costuma ser mais difusa e não tem o caráter pleurítico nem o alívio postural típicos da pericardite. O atrito pericárdico não é um achado da miocardite isolada, mas sim da pericardite. Além disso, o paciente está hemodinamicamente estável, sem sinais de disfunção ventricular.

Alternativa C — ✅ Correta ⟵ GABARITO

A pericardite aguda é o diagnóstico mais provável. A dor torácica ventilatório-dependente (piora com inspiração profunda) e aliviada pela flexão anterior do tórax é a descrição clássica da dor pericárdica. O atrito cardíaco é o sinal físico patognomônico da pericardite. A febre baixa é um sintoma sistêmico comum. No contexto de IAM recente, a pericardite epistenocárdica é uma complicação precoce bem descrita, ocorrendo nas primeiras 24-72 horas. A ausência de alterações pulmonares e a estabilidade hemodinâmica reforçam o diagnóstico.

Alternativa D — ❌ Incorreta

A endocardite infecciosa é uma infecção do endocárdio e das valvas cardíacas. O quadro típico inclui febre, sopro cardíaco (frequentemente novo ou alterado) e fenômenos embólicos (lesões de Janeway, nódulos de Osler, manchas de Roth). O paciente não apresenta sopro, e o atrito pericárdico não é um achado de endocardite. Além disso, o contexto de IAM recente e a dor pleurítica com alívio postural não se encaixam na endocardite.

Alternativa E — ❌ Incorreta

A dissecção aguda da aorta torácica se apresenta com dor torácica de início súbito, excruciante e dilacerante, frequentemente migratória, e pode cursar com assimetria de pulsos ou pressão arterial, sopro de insuficiência aórtica e déficits neurológicos. A dor da dissecção não é ventilatório-dependente nem aliviada por mudanças posturais, e o atrito pericárdico não é um achado típico (embora possa ocorrer se houver extravasamento para o pericárdio). O paciente está hemodinamicamente estável, sem os sinais de gravidade da dissecção.

Gabarito: letra C — o diagnóstico mais provável é pericardite aguda, complicação precoce do infarto agudo do miocárdio, confirmada pela tríade de dor pleurítica postural, febre e atrito pericárdico.

Link permanente: /questoes/fg064355