Questão de Medicina — Clínica Médica Humana — FGV 2023
Medicina›Clínica Médica Humana
Código
fg064377
Banca
FGV
Órgão
FHEMIG
Ano
2023
Nível
Superior
Cargo
Médico - Coloproctologia
Uma mulher, 63 anos, é encaminhada para avaliação de um coloproctologista. Ela apresenta história de fissura anal crônica posterior há um ano, apresentando exames realizados anteriormente, sem doenças inflamatórias, infecções sexualmente transmissíveis e biópsia negativa para neoplasias. Nega traumatismos locais prévios. Fez diversos tratamentos conservadores sem sucesso.Ao exame proctológico nota-se hipotonia esfincteriana moderada de repouso e contração. Não identificado outras lesões até 10cm da borda anal, exceto a fissura anal posterior crônica clássica, com exposição dos esfíncteres na sua base.Optando-se pela cirurgia, assinale a opção que indica a técnica mais adequada para esse caso.
AFissurectomia.
BFissurotomia.
CEsfincterotomia interna lateral.
DEsfincteroplastia.
EAvanço cutâneo.
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GabaritoE — Avanço cutâneo.
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Fissura anal crônica: tratamento cirúrgico
Gabarito: letra E. A técnica mais adequada para esta paciente é o avanço cutâneo (anoplastia de avanço), pois ela apresenta fissura anal crônica com hipotonia esfincteriana — e não hipertonia, que é o cenário clássico da fissura. A esfincterotomia interna lateral, tratamento padrão para fissura crônica com hipertonia, está contraindicada aqui, pois agravaria a incontinência já existente. O avanço cutâneo promove a cicatrização sem reduzir ainda mais a pressão do esfíncter.
A fissura anal é uma úlcera linear no canal anal, quase sempre na linha média posterior, que causa dor intensa durante e após a evacuação, sangramento escasso e espasmo do esfíncter anal interno. Ela é classificada como aguda quando os sintomas duram de 4 a 8 semanas e crônica quando persistem além desse período. Na fissura crônica, o exame costuma revelar o plicoma sentinela, a papila hipertrófica, bordas endurecidas e a visualização do esfíncter interno no fundo da úlcera — exatamente o que o enunciado descreve ao mencionar a "exposição dos esfíncteres na sua base".
O tratamento inicial é sempre clínico: dieta rica em fibras, aumento da ingestão de líquidos, banhos de assento e, em casos de hipertonia marcada, o uso de pomadas relaxantes do esfíncter (a chamada esfincterotomia química). Quando o tratamento conservador falha, parte-se para a cirurgia. A escolha da técnica, porém, depende crucialmente do tônus esfincteriano — e é aqui que mora a pegadinha desta questão.
A esfincterotomia interna lateral é o procedimento de escolha para a fissura crônica clássica, porque a fissura é mantida pela hipertonia do esfíncter interno, que gera isquemia local e impede a cicatrização. Ao cortar uma porção do esfíncter, reduz-se a pressão de repouso, melhora a perfusão sanguínea e a fissura cicatriza. O problema é que essa técnica sacrifica parte da continência. Por isso, quando o paciente já apresenta hipotonia esfincteriana — como esta paciente, que tem "hipotonia esfincteriana moderada de repouso e contração" —, a esfincterotomia está contraindicada: ela transformaria uma hipotonia moderada em incontinência franca.
Nesse cenário, a alternativa é uma técnica que não dependa da redução da pressão esfincteriana para cicatrizar a fissura. O avanço cutâneo (ou anoplastia de avanço) consiste em mobilizar um retalho de pele e mucosa adjacente para cobrir a fissura, promovendo a cicatrização por tecido novo, sem tocar no esfíncter. É a técnica mais adequada quando há hipotonia, fissura recidivada ou após esfincterotomia prévia. As demais opções — fissurectomia, fissurotomia e esfincteroplastia — não se aplicam a este caso: as duas primeiras não tratam a causa (e a fissurotomia é um termo pouco usado, geralmente confundido com a esfincterotomia), e a esfincteroplastia é uma cirurgia de reparo do esfíncter para incontinência, não para fissura.
Guarde a fronteira que decide esta questão: fissura crônica com hipertonia → esfincterotomia interna lateral; fissura crônica com hipotonia ou incontinência → avanço cutâneo. É exatamente nessa distinção que as alternativas se dividem.
Técnica Cirúrgica
Indicação Principal
Mecanismo de Ação
Efeito sobre o Esfíncter
Aplicabilidade no Caso
Fissurectomia (A)
Fissura crônica
Excisão da fissura e bordas fibróticas
Não aborda o tônus
❌ Não é a primeira escolha; alta recidiva
Fissurotomia (B)
Termo pouco padronizado
Incisão da fissura (confundida com esfincterotomia)
Pode envolver corte do esfíncter
❌ Não é técnica consagrada; risco de piorar continência
Esfincterotomia interna lateral (C)
Fissura crônica com hipertonia
Secção parcial do esfíncter interno
Reduz a pressão de repouso
❌ Contraindicada — agravaria a hipotonia existente
Esfincteroplastia (D)
Incontinência fecal por lesão esfincteriana
Reparo/reconstrução do esfíncter
Aumenta a pressão (reparo)
❌ Não trata a fissura; indicada para incontinência
Avanço cutâneo (E)
Fissura crônica com hipotonia ou incontinência
Retalho de pele/mucosa cobre a fissura
Preserva o tônus (não corta)
✅ Gabarito — cicatriza sem reduzir pressão
Fissura anal crônica
1Com hipertonia
Esfincterotomia interna lateral
2Com hipotonia
Avanço cutâneo
Esfincterotomia contraindicada
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Alternativa A — ❌ Incorreta
A fissurectomia consiste na excisão da fissura e de suas bordas fibróticas, deixando a ferida aberta para cicatrização por segunda intenção. Embora seja uma opção cirúrgica para fissura crônica, ela não aborda a causa subjacente (o espasmo ou a hipotonia esfincteriana) e, isoladamente, tem maior taxa de recidiva. Além disso, no contexto de hipotonia, não é a técnica de primeira escolha — o avanço cutâneo é superior por promover fechamento primário da ferida.
Alternativa B — ❌ Incorreta
A fissurotomia é um termo pouco padronizado e frequentemente usado como sinônimo de esfincterotomia ou de incisão da fissura. Não é uma técnica consagrada isoladamente para o tratamento da fissura crônica, e certamente não é a mais adequada para um caso de hipotonia esfincteriana, pois não oferece vantagem sobre o avanço cutâneo e pode até piorar a continência se envolver corte do esfíncter.
Alternativa C — ❌ Incorreta
A esfincterotomia interna lateral é o tratamento padrão para a fissura crônica com hipertonia, pois reduz a pressão de repouso do esfíncter e permite a cicatrização. Porém, está contraindicada nesta paciente, que já apresenta hipotonia esfincteriana moderada. Realizá-la agravaria a incontinência — um erro grave. A banca troca o cenário clássico (hipertonia) pelo cenário de hipotonia para induzir o candidato a marcar a técnica mais comum.
Alternativa D — ❌ Incorreta
A esfincteroplastia é uma cirurgia de reparo do esfíncter anal, indicada para o tratamento da incontinência fecal por lesão ou defeito esfincteriano (como laceração obstétrica). Não é indicada para fissura anal. Embora a paciente tenha hipotonia, a fissura é o problema a ser tratado, e a esfincteroplastia não promove a cicatrização da úlcera — ela apenas reconstruiria o esfíncter, sem resolver a fissura.
Alternativa E — ✅ Correta ⟵ GABARITO
O avanço cutâneo (anoplastia de avanço) é a técnica mais adequada para fissura anal crônica em pacientes com hipotonia esfincteriana. O procedimento mobiliza um retalho de pele e mucosa para cobrir a fissura, promovendo cicatrização primária sem reduzir a pressão do esfíncter — preservando a continência. É a escolha correta quando a esfincterotomia está contraindicada, como neste caso de hipotonia moderada de repouso e contração.
NÃO CAIA NESSA!
A banca descreve uma fissura crônica clássica (posterior, com exposição dos esfíncteres) para fazer o candidato associar automaticamente à esfincterotomia interna lateral — o tratamento mais comum. Mas o detalhe decisivo é a hipotonia esfincteriana: com esfíncter já hipotônico, cortá-lo causaria incontinência. A fissura clássica com hipertonia pede esfincterotomia; com hipotonia, pede avanço cutâneo. Fique atento ao tônus esfincteriano descrito no exame — é ele que define a técnica.
Gabarito: letra E — avanço cutâneo, pois a paciente tem hipotonia esfincteriana, contraindicação à esfincterotomia.