Questão de Medicina — Genética Médica — FGV 2023
- Código
- fg064436
- Banca
- FGV
- Órgão
- FHEMIG
- Ano
- 2023
- Nível
- Superior
- Cargo
- Médico - Genética Médica
- ADistrofia de Duchenne.
- BSCID.
- CAcondroplasia.
- DAnemia de Fanconi.
- EFibrose Cística.
GabaritoC — Acondroplasia.
Gabarito: letra C. A acondroplasia é a doença mais adequada para uma única terapia CRISPR efetiva em mais de 90% dos pacientes porque, em cerca de 99% dos casos, é causada por uma única mutação de ponto (G380R) no gene FGFR3, o que permite que um único guia de RNA (sgRNA) corrija a mutação na maioria dos afetados. As demais doenças apresentam heterogeneidade genética (múltiplas mutações em diferentes genes ou grandes deleções), o que inviabiliza uma única terapia para a maioria dos pacientes.
A terapia gênica com CRISPR-Cas9 é uma técnica de edição genômica que permite cortar o DNA em um local específico e modificar a sequência. Para que uma única terapia seja efetiva em mais de 90% dos pacientes, a doença precisa ser geneticamente homogênea: ou seja, a grande maioria dos casos deve ser causada pela mesma mutação no mesmo gene. Isso é o que chamamos de mutação fundadora ou mutação recorrente dominante. Quando a doença é causada por centenas de mutações diferentes espalhadas por um gene grande (como na fibrose cística, com mais de 2.000 mutações no gene CFTR), ou por deleções grandes e variáveis (como na distrofia de Duchenne, com deleções que variam de paciente para paciente), uma única estratégia de CRISPR não consegue corrigir a maioria dos casos.
A acondroplasia é a forma mais comum de nanismo, com incidência de cerca de 1 em 15.000 a 40.000 nascimentos. Em aproximadamente 99% dos casos, a doença é causada por uma mutação de ponto específica no gene FGFR3 (receptor 3 do fator de crescimento de fibroblastos), que resulta na substituição de uma glicina por arginina na posição 380 da proteína (G380R). Essa mutação causa uma ativação constitutiva do receptor, levando à inibição da ossificação endocondral. Como a mutação é praticamente a mesma em todos os pacientes, um único sgRNA desenhado para essa região pode corrigir a mutação na maioria dos casos, seja por reparo por recombinação homóloga (HDR) ou por edição de base (base editing).
Vamos comparar as doenças das alternativas para entender por que as outras não se encaixam:
Doença | Gene | Heterogeneidade genética | Viabilidade de uma única terapia CRISPR >90% |
|---|---|---|---|
Acondroplasia | FGFR3 | Muito baixa (mutação G380R em ~99%) | Alta |
Distrofia de Duchenne | DMD | Alta (deleções grandes e variáveis, ~60-70% dos casos) | Baixa |
SCID | Vários genes (IL2RG, ADA, etc.) | Alta (diferentes genes e mutações) | Baixa |
Anemia de Fanconi | Vários genes (pelo menos 22 genes FANC) | Muito alta (mutações em diferentes genes do complexo FA) | Baixa |
Fibrose Cística | CFTR | Muito alta (mais de 2.000 mutações diferentes) | Baixa |
A pegadinha desta questão está em associar "doença genética" com "doença monogênica" e achar que toda doença monogênica é geneticamente homogênea. A fibrose cística, por exemplo, é monogênica (gene CFTR), mas tem enorme heterogeneidade alélica. A distrofia de Duchenne também é monogênica (gene DMD), mas as deleções variam em tamanho e localização. A acondroplasia é o caso raro em que uma doença monogênica é também geneticamente homogênea, o que a torna o alvo ideal para uma única terapia CRISPR.
Guarde este critério: para uma única terapia CRISPR ser efetiva em mais de 90% dos pacientes, a doença precisa ser geneticamente homogênea (mesma mutação na maioria dos casos), não apenas monogênica. É exatamente essa distinção que separa a alternativa correta das demais.
A distrofia de Duchenne é causada por mutações no gene DMD, o maior gene humano, com cerca de 79 éxons. Em aproximadamente 60-70% dos casos, a doença é causada por deleções de um ou mais éxons, mas essas deleções variam muito em tamanho e localização entre os pacientes. Uma única terapia CRISPR (por exemplo, usando a técnica de exon skipping ou deleção de éxons específicos) só funcionaria para um subgrupo de pacientes com deleções que compartilham a mesma região. Além disso, a distrofina é uma proteína gigante, e a edição precisa restaurar o quadro de leitura, o que é complexo e varia conforme a deleção. Portanto, não é viável uma única terapia para mais de 90% dos pacientes.
A SCID (imunodeficiência combinada grave) é um grupo de doenças geneticamente heterogêneas. As formas mais comuns são ligadas ao X (mutação no gene IL2RG) e a forma por deficiência de adenosina deaminase (mutação no gene ADA), mas existem outras formas autossômicas recessivas causadas por mutações em genes como JAK3, RAG1, RAG2, DCLRE1C (Artemis), entre outros. Cada uma dessas formas exige uma estratégia de edição diferente. Embora a terapia gênica ex vivo com vetores virais já tenha sido usada com sucesso para algumas formas de SCID, uma única terapia CRISPR não cobriria mais de 90% dos pacientes, pois as mutações estão em genes diferentes.
A acondroplasia é causada em cerca de 99% dos casos por uma única mutação de ponto (G380R) no gene FGFR3. Essa homogeneidade genética torna possível desenhar um único sgRNA que reconhece a sequência mutada e corrige a mutação na maioria dos pacientes. Além disso, a doença é autossômica dominante, o que significa que a correção de apenas um alelo mutado pode ser suficiente para restaurar o fenótipo normal. Essa é a característica que a torna a doença mais adequada para uma única terapia CRISPR efetiva em mais de 90% dos pacientes.
A anemia de Fanconi é uma doença de instabilidade cromossômica causada por mutações em pelo menos 22 genes diferentes do complexo FA/BRCA (como FANCA, FANCC, FANCG, FANCD2, BRCA2, entre outros). As mutações variam muito entre os pacientes, e mesmo dentro do mesmo gene há muitas mutações diferentes. Uma única terapia CRISPR não poderia corrigir todas as possíveis mutações em todos esses genes. Além disso, a doença afeta múltiplos sistemas (medula óssea, malformações congênitas, predisposição a câncer), o que torna a terapia gênica mais complexa.
A fibrose cística é causada por mutações no gene CFTR, mas existem mais de 2.000 mutações diferentes descritas. A mutação mais comum, F508del, está presente em cerca de 70% dos alelos em populações caucasianas, mas isso significa que uma terapia específica para F508del não cobriria mais de 90% dos pacientes, pois muitos são heterozigotos compostos com outras mutações. Além disso, a doença afeta múltiplos órgãos (pulmões, pâncreas, fígado, intestinos), e a entrega do CRISPR às células-alvo (células epiteliais das vias aéreas) é um desafio técnico adicional. Portanto, não é viável uma única terapia para mais de 90% dos pacientes.
Gabarito: letra C
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