Questão de Medicina — Ginecologia e Obstetrícia — FGV 2023
Medicina›Ginecologia e Obstetrícia
Código
fg064442
Banca
FGV
Órgão
FHEMIG
Ano
2023
Nível
Superior
Cargo
Médico - Ginecologia e Obstetrícia
Uma gestante com 22 semanas, realiza exames de rotina e se surpreende com níveis muito elevados de triglicerídeos. Ela havia feito os mesmos exames antes da gestação e estavam dentro dos limites normais. Ela entra em contato imediatamente com o seu obstetra em busca de orientações.Assinale a opção que apresenta a orientação mais adequada para essa situação.
AIniciar dieta com restrição lipídica imediatamente e repetir o exame após quatro semanas.
BSolicitar avaliação cardiológica com urgência devido ao alto risco de doença coronariana.
CIniciar sinvastatina e monitorar os níveis de triglicerídeos até o final da gestação.
DSeguir acompanhamento em conjunto com nutrologista e avaliar início de metformina.
EExplicar que esses achados são esperados nessa fase da gestação, não necessitando de tratamento.
Revelar gabarito e comentário▾
GabaritoE — Explicar que esses achados são esperados nessa fase da gestação, não necessitando de tratamento.
Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.
Dislipidemia na gestação: hipertrigliceridemia fisiológica
Gabarito: letra E. Na gestação, especialmente a partir do segundo trimestre, é esperado um aumento fisiológico dos triglicerídeos, que pode chegar a 2 a 4 vezes os valores pré-gestacionais, devido às alterações hormonais e metabólicas próprias do período. A conduta mais adequada é tranquilizar a paciente, explicando que esses achados são esperados e que, na ausência de valores extremamente elevados ou de sintomas, não há necessidade de tratamento específico. Essa orientação está alinhada com as diretrizes de acompanhamento pré-natal, que preconizam a avaliação e o manejo individualizado, priorizando medidas não farmacológicas e evitando intervenções desnecessárias.
A hipertrigliceridemia na gestação é um fenômeno comum e, na maioria dos casos, benigno. Durante a gravidez, o organismo passa por uma série de adaptações para garantir o aporte energético adequado ao feto. Uma dessas adaptações é o aumento da produção de lipoproteínas ricas em triglicerídeos, estimulada por hormônios como o estrogênio e o lactogênio placentário, além da redução da atividade da lipase lipoproteica. Esse conjunto de alterações leva a um aumento progressivo dos triglicerídeos ao longo da gestação, com pico no terceiro trimestre. É importante destacar que esse aumento é fisiológico e não representa, por si só, um risco imediato para a mãe ou para o bebê.
A conduta diante de uma gestante com triglicerídeos elevados deve ser individualizada, levando em consideração os níveis alcançados e a presença de fatores de risco. Na maioria dos casos, como o descrito no enunciado, em que a paciente está assintomática e os níveis, embora elevados, não atingem valores extremos, a orientação é de acompanhamento e reavaliação, sem necessidade de intervenção farmacológica. A restrição lipídica rigorosa não é recomendada, pois pode comprometer o ganho de peso adequado e o desenvolvimento fetal. Da mesma forma, o uso de medicamentos como estatinas e fibratos é contraindicado na gestação, devido ao potencial teratogênico e à falta de segurança comprovada. A metformina, embora seja utilizada em algumas condições como o diabetes gestacional, não é indicada para o tratamento de dislipidemia.
É fundamental que o obstetra saiba diferenciar a hipertrigliceridemia fisiológica da gestação de condições patológicas, como a hipertrigliceridemia familiar grave, que pode levar a complicações como a pancreatite aguda. Nesses casos extremos, em que os triglicerídeos ultrapassam valores muito elevados (geralmente acima de 1000 mg/dL), pode ser necessário considerar medidas mais agressivas, como a plasmaférese, sempre em ambiente hospitalar e com acompanhamento multidisciplinar. No entanto, para a grande maioria das gestantes, a conduta expectante é a mais adequada.
A banca explora a ansiedade da paciente e do candidato diante de um exame alterado, induzindo a escolha de condutas intervencionistas e desnecessárias. A chave para acertar a questão é reconhecer que a gestação é um estado fisiológico que cursa com alterações laboratoriais esperadas, e que a conduta médica deve ser baseada na avaliação clínica individualizada, priorizando a segurança materno-fetal e evitando intervenções sem benefício comprovado.
1Reconhecer aumento fisiológico
2Tranquilizar a paciente
3Acompanhamento pré-natal
4Reavaliar níveis conforme necessidade
LEVEL · soulevel.com.br
Alternativa A — ❌ Incorreta
A dieta com restrição lipídica imediata não é a conduta de primeira linha para a hipertrigliceridemia fisiológica da gestação. Embora a orientação nutricional seja importante, uma restrição rigorosa pode ser prejudicial, pois a gestante necessita de um aporte calórico e de ácidos graxos essenciais adequados para o desenvolvimento fetal. A conduta correta é orientar uma alimentação balanceada, sem restrições drásticas, e reavaliar os níveis em um intervalo adequado, mas não necessariamente com uma repetição em quatro semanas, pois o aumento é progressivo e esperado.
Alternativa B — ❌ Incorreta
A avaliação cardiológica com urgência não é indicada nesse contexto. A hipertrigliceridemia na gestação, especialmente em níveis moderados, não representa um risco agudo de doença coronariana. O risco cardiovascular associado à dislipidemia é um evento de longo prazo e não justifica uma avaliação cardiológica de urgência em uma gestante assintomática. A conduta deve ser focada no acompanhamento pré-natal e na orientação sobre hábitos de vida saudáveis.
Alternativa C — ❌ Incorreta
O uso de sinvastatina é contraindicado na gestação. As estatinas são medicamentos da classe das drogas que inibem a HMG-CoA redutase e possuem potencial teratogênico, sendo classificadas como categoria X de risco na gestação. O uso de qualquer estatina durante a gravidez é absolutamente contraindicado, independentemente dos níveis de triglicerídeos. A conduta correta é não utilizar medicamentos dessa classe e optar por medidas não farmacológicas.
Alternativa D — ❌ Incorreta
A metformina não é indicada para o tratamento de hipertrigliceridemia na gestação. Embora a metformina seja utilizada em algumas situações, como no diabetes mellitus tipo 2 e na síndrome dos ovários policísticos, seu uso não é recomendado para dislipidemia. Além disso, o acompanhamento conjunto com nutrologista pode ser útil em casos selecionados, mas não é a conduta inicial para a maioria das gestantes com hipertrigliceridemia fisiológica. A conduta correta é a orientação e o acompanhamento pré-natal de rotina.
Alternativa E — ✅ Correta ⟵ GABARITO
Esta é a conduta mais adequada. A hipertrigliceridemia é um achado esperado na gestação, especialmente a partir do segundo trimestre, devido às alterações hormonais e metabólicas. A paciente deve ser tranquilizada e orientada de que não há necessidade de tratamento específico, desde que os níveis não sejam extremamente elevados e não haja sintomas. O acompanhamento pré-natal deve ser mantido, com reavaliação dos níveis lipídicos conforme a necessidade clínica.