Questão de Medicina — Ginecologia e Obstetrícia — FGV 2023
- Código
- fg064444
- Banca
- FGV
- Órgão
- FHEMIG
- Ano
- 2023
- Nível
- Superior
- Cargo
- Médico - Ginecologia e Obstetrícia
- AI, apenas.
- BI e II, apenas.
- CI e III, apenas.
- DII e III, apenas.
- EI, II e III.
GabaritoC — I e III, apenas.
Gabarito: letra C. Estão corretos os itens I e III: história prévia de pré-eclâmpsia e gestação múltipla são fatores de risco clínicos reconhecidos, e o Doppler das artérias uterinas é um dos métodos utilizados no cálculo de risco de pré-eclâmpsia no primeiro trimestre. O item II está incorreto porque o tabagismo, ao contrário do que afirma, está associado a menor risco de pré-eclâmpsia — a banca inverteu a direção da associação.
A pré-eclâmpsia é uma síndrome específica da gestação, caracterizada por hipertensão arterial e disfunção de órgãos-alvo (tradicionalmente proteinúria) após 20 semanas em gestante previamente normotensa. Sua patogênese envolve desenvolvimento anormal da vasculatura placentária no início da gravidez, levando a hipoperfusão placentária e liberação de fatores antiangiogênicos (como sFlt-1 e sEng) na circulação materna, que causam disfunção endotelial sistêmica. Por ser uma doença de alta morbimortalidade materna e fetal, o rastreio precoce — idealmente no primeiro trimestre — é fundamental para identificar gestantes de alto risco e instituir medidas preventivas, como o uso de aspirina em baixa dose.
Os fatores de risco clínicos para pré-eclâmpsia são bem estabelecidos e incluem: nuliparidade, pré-eclâmpsia em gestação anterior, gestação múltipla (gemelar ou mais), hipertensão arterial crônica, doença renal crônica, doença autoimune (como lúpus eritematoso sistêmico e síndrome antifosfolípide), história familiar de pré-eclâmpsia, obesidade, idade materna avançada e diabetes. É importante notar que o tabagismo, embora seja um fator de risco para diversas complicações obstétricas (como restrição de crescimento fetal e descolamento prematuro de placenta), está paradoxalmente associado a uma redução do risco de pré-eclâmpsia — mecanismo ainda não totalmente esclarecido, mas que a banca explora como pegadinha clássica.
Além dos fatores clínicos, o rastreio combinado do primeiro trimestre (entre 11 e 13 semanas e 6 dias) utiliza a história materna, a pressão arterial média (PAM), o Doppler das artérias uterinas (avaliando o índice de pulsatilidade) e, em alguns protocolos, biomarcadores séricos como o PIGF (fator de crescimento placentário) e a relação sFlt-1/PIGF. O Doppler de artérias uterinas anormal (com incisura protodiastólica ou IP elevado) reflete a falha de invasão trofoblástica e é um marcador útil para o cálculo de risco, sendo incorporado em algoritmos validados (como o da FMF — Fetal Medicine Foundation).
A distinção crucial que separa os itens é: fatores de risco clínicos (história, comorbidades, características maternas) versus marcadores de rastreio (Doppler, biomarcadores, PAM). O item I lista fatores clínicos corretos; o item III lista um marcador de rastreio correto; o item II mistura um fator correto (hipertensão crônica) com um fator incorreto (tabagismo como risco aumentado).
A banca adora inverter a associação do tabagismo com a pré-eclâmpsia. O candidato, por associação intuitiva (tabagismo é ruim para tudo na gestação), marca o item II como correto. Mas a literatura é clara: o tabagismo reduz o risco de pré-eclâmpsia, provavelmente por efeitos na angiogênese placentária. Fique atento: em questões de pré-eclâmpsia, tabagismo é sempre fator de proteção (embora aumente risco de outras complicações).
História prévia de pré-eclâmpsia e gestação múltipla são, de fato, fatores de risco clínicos bem estabelecidos. A recorrência em gestação posterior é um dos fatores de maior peso (risco relativo elevado), e a gestação múltipla aumenta a massa placentária, predispondo à disfunção placentária e à pré-eclâmpsia. O item está correto.
A hipertensão crônica é, sim, um fator de risco para pré-eclâmpsia sobreposta. Porém, o tabagismo não está associado a maior risco — na verdade, está associado a menor risco. A banca trocou a direção da associação, criando um distrator clássico. O item é falso.
O Doppler das artérias uterinas é um dos componentes do rastreio combinado do primeiro trimestre. A avaliação do índice de pulsatilidade (IP) das artérias uterinas, preferencialmente com a presença ou ausência de incisura protodiastólica, contribui para o cálculo de risco de pré-eclâmpsia. O item está correto.
Conclusão: Corretos os itens I e III → letra C.
Gabarito: letra C
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