Questão de Medicina — Ginecologia e Obstetrícia — FGV 2023
Medicina›Ginecologia e Obstetrícia
Código
fg064451
Banca
FGV
Órgão
FHEMIG
Ano
2023
Nível
Superior
Cargo
Médico - Ginecologia e Obstetrícia
Mulher de 28 anos, que não está grávida, tem queixa de galactorreia espontânea e dosagem sérica da prolactina de 140μg/L.
Acerca da hiperprolactinemia, assinale a afirmativa correta.
AQuanto mais grave o hipogonadismo, menor a incidência de galactorreia.
BOs níveis elevados de prolactina levam ao estímulo da secreção do GnRH pelo hipotálamo.
CA domperidona e a metoclopramida podem inibir a produção de prolactina.
DA gestação não influencia na produção da prolactina em pacientes com prolactinoma.
ENa hiperprolactinemia assintomática, com níveis superiores a 100μg/L, descarta-se a presença de macroprolactinemia.
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GabaritoA — Quanto mais grave o hipogonadismo, menor a incidência de galactorreia.
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Hiperprolactinemia: fisiopatologia e manifestações clínicas
Gabarito: letra A. A afirmativa correta é a que relaciona a gravidade do hipogonadismo à menor incidência de galactorreia — quanto mais intenso o hipogonadismo (geralmente associado a níveis mais altos de prolactina), menor a frequência de galactorreia, pois o hipoestrogenismo resultante atrofia o tecido mamário e reduz sua responsividade à prolactina. As demais alternativas distorcem a fisiologia: a prolactina inibe o GnRH, a domperidona e a metoclopramida estimulam (não inibem) a prolactina, a gestação influencia sim a produção de prolactina, e níveis >100 μg/L não descartam macroprolactinemia.
A hiperprolactinemia é a elevação dos níveis séricos de prolactina (PRL) acima do limite superior da normalidade. A PRL é um hormônio produzido pelos lactotrofos da hipófise anterior, sob controle inibitório tônico da dopamina hipotalâmica. Quando a dopamina chega à hipófise via sistema porta-hipofisário, ela suprime a síntese e a secreção de PRL. Qualquer processo que interfira nesse fluxo — tumores hipofisários (prolactinomas), fármacos antagonistas dopaminérgicos, compressão da haste hipofisária, hipotireoidismo primário (pelo aumento de TRH), insuficiência renal ou hepática — pode levar à hiperprolactinemia.
As manifestações clínicas decorrem de dois mecanismos principais: (1) o efeito direto da PRL sobre a glândula mamária, causando galactorreia; e (2) o efeito inibitório da PRL sobre o eixo gonadotrófico, suprimindo a liberação de GnRH pelo hipotálamo e, consequentemente, reduzindo LH e FSH — o que leva ao hipogonadismo hipogonadotrófico. Na mulher, isso se traduz em oligomenorreia, amenorreia e infertilidade; no homem, em diminuição da libido, disfunção erétil e infertilidade.
A relação entre hipogonadismo e galactorreia é o ponto central da questão. A galactorreia é encontrada em 30 a 80% das mulheres com hiperprolactinemia. Porém, quando o hipogonadismo é grave — com níveis muito baixos de estrogênio —, o tecido mamário perde o estímulo proliferativo estrogênico e torna-se atrófico, reduzindo a capacidade de produção de leite. Assim, paradoxalmente, quanto mais grave o hipogonadismo (maior supressão do eixo), menor a incidência de galactorreia. Esse é um conceito clássico em endocrinologia reprodutiva e a banca o explora na alternativa A.
A distinção que importa aqui é entre o efeito da PRL sobre a mama (galactorreia) e o efeito sobre o eixo gonadotrófico (hipogonadismo). São mecanismos paralelos, mas com consequências opostas em termos de apresentação clínica: o hipogonadismo grave tende a "proteger" contra a galactorreia, enquanto níveis moderados de PRL, com função gonadal preservada, favorecem a galactorreia. Essa relação inversa é a pegadinha da questão.
Critério
Hipogonadismo grave
Hipogonadismo leve/moderado
Níveis de estrogênio
Muito baixos
Relativamente preservados
Tecido mamário
Atrófico, pouco responsivo à PRL
Desenvolvido, responsivo à PRL
Incidência de galactorreia
Menor
Maior
Hiperprolactinemia
1Efeitos da prolactina
Galactorreia (mama)
Inibe GnRH → hipogonadismo
2Relação inversa
Hipogonadismo grave
Baixo estrogênio
Mama atrófica
Menos galactorreia
3Causas farmacológicas
Domperidona
Metoclopramida
Antagonistas dopaminérgicos → ↑ PRL
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Alternativa A — ✅ Correta ⟵ GABARITO
A afirmativa está correta. Quanto mais grave o hipogonadismo — ou seja, quanto maior a supressão do eixo gonadotrófico pela prolactina, com níveis muito baixos de estrogênio —, menor a incidência de galactorreia. Isso ocorre porque o estrogênio é essencial para o desenvolvimento e a manutenção do tecido mamário; na sua ausência, a mama torna-se atrófica e menos responsiva ao estímulo da prolactina. Portanto, a relação é inversa: hipogonadismo grave → menor galactorreia.
Alternativa B — ❌ Incorreta
Afirma que os níveis elevados de prolactina estimulam a secreção de GnRH pelo hipotálamo. É exatamente o oposto: a hiperprolactinemia inibe a liberação de GnRH, resultando em diminuição de LH e FSH e, consequentemente, hipogonadismo hipogonadotrópico. O erro é a inversão do efeito fisiológico.
Alternativa C — ❌ Incorreta
Afirma que a domperidona e a metoclopramida podem inibir a produção de prolactina. Na verdade, esses fármacos são antagonistas dopaminérgicos — bloqueiam os receptores de dopamina nos lactotrofos, removendo a inibição tônica e, portanto, aumentam a prolactina. São causas farmacológicas clássicas de hiperprolactinemia.
Alternativa D — ❌ Incorreta
Afirma que a gestação não influencia a produção de prolactina em pacientes com prolactinoma. É falso: a gestação é um estado fisiológico de hiperprolactinemia — os estrogênios placentários estimulam a lactotrofos, e os prolactinomas podem crescer durante a gravidez, especialmente os macroprolactinomas. Por isso, o acompanhamento dessas pacientes durante a gestação é recomendado.
Alternativa E — ❌ Incorreta
Afirma que, na hiperprolactinemia assintomática com níveis >100 μg/L, descarta-se a macroprolactinemia. É incorreto: a macroprolactinemia é uma causa importante de hiperprolactinemia assintomática, e níveis elevados não a excluem. O diagnóstico de macroprolactinemia é feito por precipitação com polietilenoglicol (PEG), independentemente do nível de PRL. Na verdade, a suspeita de macroprolactinemia deve ser considerada justamente em pacientes assintomáticos com hiperprolactinemia, mesmo com níveis altos.