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Questão de Medicina — Ginecologia e Obstetrícia — FGV 2023

MedicinaGinecologia e Obstetrícia
Código
fg064454
Banca
FGV
Órgão
FHEMIG
Ano
2023
Nível
Superior
Cargo
Médico - Ginecologia e Obstetrícia
Uma mulher de 32 anos procurou atendimento ginecológico devido a corrimento vaginal sem associação com sinais inflamatórios e com “odor de peixe” mais evidente quando menstruada.Diante deste quadro, ao ser examinada pelo médico, a paciente apresentará
  1. ApH vaginal abaixo de 4.
  2. Bteste das aminas (whiff test) negativo.
  3. Cdor pélvica ao toque vaginal bimanual.
  4. Dacentuada hiperemia da mucosa vaginal.
  5. Eclue cells no conteúdo vaginal.
Revelar gabarito e comentário

GabaritoE — clue cells no conteúdo vaginal.

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

Vaginose bacteriana: diagnóstico clínico e laboratorial

Gabarito: letra E. O quadro descrito — corrimento vaginal sem sinais inflamatórios, com "odor de peixe" mais evidente na menstruação — é clássico de vaginose bacteriana, e o achado que o médico encontrará ao exame é a presença de clue cells no conteúdo vaginal, um dos critérios de Amsel para o diagnóstico. As demais alternativas descrevem achados de outras causas de corrimento (candidíase, tricomoníase, doença inflamatória pélvica) ou contradizem o esperado na vaginose bacteriana.

A vaginose bacteriana (VB) é a causa mais comum de corrimento vaginal patológico em mulheres em idade reprodutiva. Trata-se de uma infecção polimicrobiana endógena, na qual os lactobacilos produtores de peróxido de hidrogênio, que normalmente dominam a flora vaginal, são substituídos por uma superpopulação de bactérias anaeróbias e facultativas, como Gardnerella vaginalis, Mobiluncus sp., Prevotella sp., Ureaplasma urealyticum e Mycoplasma. Essa substituição eleva o pH vaginal (acima de 4,5) e leva à produção de aminas biogênicas (putrescina e cadaverina), responsáveis pelo odor de peixe característico, que se intensifica após relação sexual ou durante a menstruação, quando o sangue (pH alcalino) volatiliza essas aminas.

O diagnóstico é essencialmente clínico e laboratorial, baseado nos critérios de Amsel, dos quais pelo menos três devem estar presentes:

  1. Corrimento vaginal branco-acinzentado, homogêneo, aderido às paredes vaginais, com bolhas finas;

  2. pH vaginal > 4,5;

  3. Teste das aminas (whiff test) positivo — ao adicionar uma gota de KOH a 10% ao conteúdo vaginal, libera-se odor de peixe podre;

  4. Presença de clue cells (células-guia) na bacterioscopia do conteúdo vaginal — células epiteliais escamosas cobertas por bactérias aderidas, que obscurecem seus contornos.

Alternativamente, pode-se usar o escore de Nugent na coloração de Gram: 7 a 10 indica VB, 4 a 6 é indeterminado e 0 a 3 é normal. É importante destacar que não se faz diagnóstico de VB por colpocitologia oncológica nem por cultura de secreção vaginal.

A apresentação clínica da VB difere das outras vulvovaginites: enquanto a candidíase cursa com prurido intenso, corrimento esbranquiçado em grumos e pH vaginal normal (≤ 4,5), e a tricomoníase apresenta corrimento amarelo-esverdeado bolhoso, pH elevado e sinais inflamatórios (eritema, edema, colo em framboesa), a VB é marcada pela ausência de sinais inflamatórios significativos — daí o enunciado destacar "sem associação com sinais inflamatórios". A dor pélvica ao toque bimanual e a hiperemia acentuada da mucosa são achados de doença inflamatória pélvica (DIP) e de vaginites inflamatórias, não da VB.

A pegadinha central desta questão está em reconhecer que o "odor de peixe" e a ausência de inflamação apontam diretamente para a vaginose bacteriana, e que o achado patognomônico ao exame é a clue cell. O candidato que confunde os achados das diferentes vulvovaginites — especialmente trocando o pH (que na VB é > 4,5, não < 4) e o whiff test (que é positivo, não negativo) — erra a questão. Guarde o quadro comparativo: é nele que as alternativas se separam.

Alternativa A — ❌ Incorreta

Afirma que o pH vaginal estará abaixo de 4. Na vaginose bacteriana ocorre exatamente o oposto: o pH vaginal fica acima de 4,5, devido à substituição dos lactobacilos produtores de ácido lático pelas bactérias anaeróbias. O pH abaixo de 4 é o esperado na candidíase vulvovaginal, que não cursa com odor de peixe. A banca inverte o valor do pH para confundir.

Alternativa B — ❌ Incorreta

Afirma que o teste das aminas (whiff test) será negativo. Na vaginose bacteriana, o whiff test é positivo: ao adicionar KOH a 10% ao conteúdo vaginal, libera-se o odor de peixe podre, decorrente da volatilização das aminas (putrescina e cadaverina) produzidas pelas bactérias anaeróbias. O teste negativo é esperado na candidíase e em corrimentos fisiológicos. A alternativa inverte o resultado do teste.

Alternativa C — ❌ Incorreta

Afirma que haverá dor pélvica ao toque vaginal bimanual. A vaginose bacteriana é uma infecção superficial da vagina, sem envolvimento do trato genital superior, e por isso não causa dor pélvica nem dor à mobilização do colo. A dor pélvica ao toque bimanual é característica da doença inflamatória pélvica (DIP), que acomete endométrio, tubas e ovários. A ausência de sinais inflamatórios é justamente um dos traços distintivos da VB.

Alternativa D — ❌ Incorreta

Afirma que haverá acentuada hiperemia da mucosa vaginal. A vaginose bacteriana cursa com pouca ou nenhuma inflamação — o corrimento é acinzentado, homogêneo e sem sinais flogísticos significativos. A hiperemia acentuada da mucosa é típica da tricomoníase (que provoca vaginite difusa, com colo em framboesa) e da candidíase (com eritema e edema vulvar). O enunciado reforça "sem associação com sinais inflamatórios", o que exclui essa alternativa.

Alternativa E — ✅ Correta ⟵ GABARITO

A presença de clue cells no conteúdo vaginal é o achado característico da vaginose bacteriana. As clue cells são células epiteliais escamosas da vagina cobertas por inúmeras bactérias aderidas (principalmente Gardnerella vaginalis e anaeróbios), que dão à célula um aspecto de "alvo" ou "guia", obscurecendo seus bordos. Elas são um dos quatro critérios de Amsel e, junto com o corrimento acinzentado, o pH > 4,5 e o whiff test positivo, fecham o diagnóstico. No caso descrito, o odor de peixe mais evidente na menstruação (pH alcalino do sangue volatiliza as aminas) e a ausência de inflamação apontam diretamente para a VB, e a clue cell é o achado que o médico encontrará ao exame.

PEGA ESSA DICA!

Para diferenciar as vulvovaginites na prova, monte mentalmente uma tabela com os quatro critérios de Amsel e compare com os achados de cada causa:

Critério

Vaginose bacteriana

Candidíase

Tricomoníase

Corrimento

Acinzentado, homogêneo, odor de peixe

Branco, grumoso ("leite coalhado")

Amarelo-esverdeado, bolhoso

pH vaginal

> 4,5

≤ 4,5 (normal)

> 4,5

Whiff test

Positivo

Negativo

Positivo (frequentemente)

Clue cells

Presentes

Ausentes

Ausentes

Inflamação

Ausente

Prurido, eritema, edema

Eritema, colo em framboesa

Sintoma cardinal

Odor de peixe

Prurido intenso

Corrimento abundante, disúria

Gabarito: letra E — a paciente com vaginose bacteriana apresentará clue cells no conteúdo vaginal.

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