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Questão de Medicina — Hematologia — FGV 2023

MedicinaHematologia
Código
fg064465
Banca
FGV
Órgão
FHEMIG
Ano
2023
Nível
Superior
Cargo
Médico - Hematologia e Hemoterapia
Com relação à síndrome de hiper-hemólise associada à doença falciforme, analise as afirmativas a seguir.I. Corresponde à hemólise pós-transfusional tanto das hemácias transfundidas quanto das hemácias do próprio indivíduo.II. A presença de múltiplos alo-anticorpos anti-eritrocitários está quase sempre presente no plasma das pessoas que desenvolveram a complicação.III. Uma das medidas básicas em pacientes que desenvolveram a complicação é evitar ao máximo novas transfusões no paciente.Está correto o que se afirma em
  1. AI, apenas.
  2. BI e II, apenas.
  3. CI e III, apenas.
  4. DII e III, apenas.
  5. EI, II e III.
Revelar gabarito e comentário

GabaritoE — I, II e III.

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

Síndrome de hiper-hemólise na doença falciforme

Gabarito: letra E. A síndrome de hiper-hemólise é uma complicação grave e potencialmente fatal da terapia transfusional na doença falciforme, caracterizada por hemólise pós-transfusional tanto das hemácias transfundidas quanto das hemácias do próprio paciente (fenômeno conhecido como "hemólise do espectador"), frequentemente associada à presença de alo-anticorpos e cuja conduta básica é evitar novas transfusões sempre que possível. As três afirmativas estão corretas.

A doença falciforme (DF) é uma hemoglobinopatia hereditária autossômica recessiva, na qual uma mutação no gene da β-globina leva à produção da hemoglobina S (HbS), que polimeriza em condições de desoxigenação, causando anemia hemolítica crônica e fenômenos vaso-oclusivos. A transfusão de concentrado de hemácias é uma das principais ferramentas terapêuticas, seja para o tratamento de complicações agudas (como síndrome torácica aguda, sequestro esplênico, AVC) ou para a prevenção de eventos (programa transfusional crônico). No entanto, a transfusão não é isenta de riscos, e um dos mais temidos é a aloimunização — a formação de anticorpos contra antígenos eritrocitários do doador — que ocorre em cerca de 30% dos pacientes com DF transfundidos de forma intermitente, quando não há fenotipagem estendida para Rh e K.

A aloimunização pode levar a reações transfusionais hemolíticas, que se manifestam tipicamente como reação transfusional hemolítica tardia (DHTR). A síndrome de hiper-hemólise é a forma mais grave desse espectro. Nela, ocorre uma exacerbação súbita da hemólise com piora da anemia, apesar da produção contínua de reticulócitos — ou seja, a medula óssea está respondendo, mas as hemácias estão sendo destruídas em ritmo acelerado. O mecanismo envolve a hemólise tanto das hemácias transfundidas quanto das hemácias do próprio paciente, fenômeno denominado "hemólise do espectador" (bystander hemolysis). Isso explica por que a hemoglobina pode cair abaixo do nível pré-transfusional, configurando um quadro paradoxal: o paciente piora após receber a transfusão.

A fisiopatologia da hiper-hemólise é complexa e não totalmente compreendida, mas envolve a ativação do sistema imune, com possível participação de alo-anticorpos, auto-anticorpos e de mecanismos de hemólise não imune, como a ativação do complemento e a eritrofagocitose. A presença de múltiplos alo-anticorpos anti-eritrocitários é um achado frequente, mas não universal — alguns pacientes desenvolvem hiper-hemólise sem alo-anticorpos detectáveis, o que sugere que outros mecanismos, como a supressão da eritropoiese e a hemólise mediada por macrófagos, também estejam envolvidos. A afirmativa II, ao dizer que a presença de múltiplos alo-anticorpos está "quase sempre presente", é uma generalização que, embora não seja absolutamente correta, é aceita pela banca como verdadeira, pois a aloimunização é um fator de risco importante e frequentemente encontrado nesses pacientes.

O manejo da hiper-hemólise é um desafio clínico. A medida mais importante é evitar novas transfusões, pois cada nova exposição a hemácias estranhas pode perpetuar ou agravar a hemólise. Em vez disso, o tratamento se baseia em hidratação, suporte clínico e imunossupressão, com uso de glicocorticoides (prednisona 1 a 4 mg/kg/dia ou equivalente) e imunoglobulina intravenosa (IgIV 0,4 a 1 g/kg/dia por 3 a 5 dias), especialmente nos pacientes que necessitam de transfusões adicionais por risco de vida. A escolha entre glicocorticoide, IgIV ou ambos deve ser individualizada. Em casos graves, pode-se considerar o uso de rituximabe, eculizumabe ou mesmo a troca transfusional, mas sempre com cautela.

A banca explora aqui um tema de hematologia clínica que exige conhecimento específico sobre as complicações transfusionais na doença falciforme. A pegadinha está na afirmativa II: o candidato pode achar que a presença de alo-anticorpos é um requisito obrigatório, mas a literatura mostra que a hiper-hemólise pode ocorrer mesmo na ausência de alo-anticorpos detectáveis. No entanto, a banca considerou a afirmativa correta, e o gabarito oficial é a letra E. É importante conhecer o conceito de "hemólise do espectador" e a conduta de evitar transfusões, que são os pontos centrais da questão.

Síndrome de hiper-hemólise
  • 1Hemólise pós-transfusional
    • Hemácias transfundidas
    • Hemácias do próprio paciente (bystander)
  • 2Fatores associados
    • Alo-anticorpos anti-eritrocitários
    • Ativação do complemento
    • Eritrofagocitose
  • 3Conduta
    • Evitar novas transfusões
    • Hidratação
    • Imunossupressão
      • Glicocorticoide
      • IgIV
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Item I — ✅ Correto

A afirmativa descreve corretamente a síndrome de hiper-hemólise: a hemólise pós-transfusional atinge tanto as hemácias transfundidas quanto as hemácias do próprio indivíduo. Esse fenômeno é conhecido como "hemólise do espectador" (bystander hemolysis) e é uma das características distintivas da hiper-hemólise, diferenciando-a de outras reações transfusionais hemolíticas, nas quais apenas as hemácias transfundidas são destruídas. O contexto clínico confirma: "Alguns episódios foram documentados em pacientes com múltiplas transfusões, consistentes com uma reação transfusional hemolítica tardia na qual as células transfundidas, bem como as células do próprio paciente, são hemolisadas ("hemólise do espectador")."

Item II — ✅ Correto

A afirmativa afirma que a presença de múltiplos alo-anticorpos anti-eritrocitários está "quase sempre presente" no plasma dos pacientes que desenvolveram a complicação. Embora a hiper-hemólise possa ocorrer sem alo-anticorpos detectáveis, a aloimunização é um fator de risco importante e frequentemente encontrado. O contexto clínico destaca que "a aloimunização também pode levar a reações transfusionais hemolíticas" e que "a prevalência de DHTRs em indivíduos com DF parece estar entre 5% e 10%". A banca considerou a afirmativa correta, e o termo "quase sempre" é uma flexibilização que a torna aceitável. É importante notar que a hiper-hemólise é uma forma grave de DHTR, e a presença de múltiplos alo-anticorpos é um marcador de risco.

Item III — ✅ Correto

A afirmativa está correta: uma das medidas básicas em pacientes que desenvolveram a complicação é evitar ao máximo novas transfusões. Isso porque cada nova transfusão pode perpetuar ou agravar a hemólise, levando a uma queda ainda maior da hemoglobina. O tratamento da hiper-hemólise se baseia em hidratação, suporte clínico e imunossupressão (glicocorticoides e IgIV), e não em novas transfusões, exceto em situações de risco iminente de vida. O contexto clínico reforça: "O tratamento deve incluir hidratação e início imediato da terapia imunossupressora com glicocorticoide... imunoglobulina intravenosa (IgIV)... ou ambos, especialmente para aqueles que necessitam de transfusões adicionais." A recomendação de evitar transfusões é uma medida básica e consensual.

Conclusão: Os itens I, II e III estão corretos. Portanto, a alternativa correta é a letra E.

Gabarito: letra E

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