A respeito da fisiopatologia daPúrpura Trombocitopênica Trombótica (PTT), assinale a afirmativa correta.
AA presença de anticorpos anti-fator de Von Willebrand exclui o diagnóstico.
BA elevação súbita e idiopática dos níveis séricos de ADAMTS13 desencadeia o surgimento dos sintomas da doença.
CA agregação das plaquetas, que resulta em trombose e em trombocitopenia, é causada por lesão endoletial sistêmica, associada à síndrome de vazamento capilar
DAutoanticorpos anti-GP-IIB-IIIA plaquetários dão início à fisiopatologia da doença.
EO surgimento de autoanticorpos anti-ADAMTS-13 é o gatilho para o desenvolvimento das alterações clínicas da PTT.
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GabaritoE — O surgimento de autoanticorpos anti-ADAMTS-13 é o gatilho para o desenvolvimento das alterações clínicas da PTT.
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Gabarito: letra E. A PTT adquirida é desencadeada por autoanticorpos (principalmente IgG) dirigidos contra a ADAMTS13, a protease que cliva o fator de von Willebrand (FVW); a deficiência funcional dessa enzima leva ao acúmulo de multímeros ultragrandes de FVW, que agregam plaquetas e formam microtrombos oclusivos — é exatamente esse mecanismo que a alternativa E descreve.
A PTT é uma microangiopatia trombótica (MAT) caracterizada por anemia hemolítica microangiopática (AHMA) e trombocitopenia, frequentemente acompanhada de febre, lesão renal aguda e sintomas neurológicos. A pêntade clássica (febre, trombocitopenia, hemólise microangiopática, sintomas neurológicos e insuficiência renal) é observada em menos de 5% dos pacientes, então o diagnóstico é essencialmente clínico-laboratorial, baseado na tríade AHMA + trombocitopenia + esquizócitos no esfregaço, com confirmação pela dosagem da atividade da ADAMTS13.
O mecanismo central da doença é a deficiência ou redução da atividade da ADAMTS13. Essa enzima é uma metaloproteinase plasmática que normalmente cliva o FVW em multímeros menores, limitando a extensão da trombose intravascular. Quando sua atividade está comprometida, os multímeros ultragrandes de FVW se acumulam no plasma e se ligam às plaquetas, promovendo agregação plaquetária e formação de microtrombos ricos em plaquetas e FVW na microcirculação de múltiplos órgãos — rins e cérebro são os mais afetados. Essa oclusão microvascular causa isquemia tecidual, hemólise mecânica (AHMA) e consumo de plaquetas (trombocitopenia).
A deficiência de ADAMTS13 pode ser adquirida ou genética. A forma adquirida (a mais comum) é causada por autoanticorpos anti-ADAMTS13, principalmente da classe IgG, que inibem a atividade enzimática ou aceleram sua depuração. A forma genética (síndrome de Upshaw-Schulman) decorre de mutações no gene ADAMTS13, levando à deficiência congênita. O tratamento da forma adquirida baseia-se na plasmaférese terapêutica (que remove o anticorpo e repõe a enzima) associada a corticosteroides; em casos refratários, usa-se rituximabe (anti-CD20) para erradicar o clone de células B produtoras do autoanticorpo. O caplacizumabe, um anticorpo anti-FVW, é uma terapia adjuvante que reduz a necessidade de plasmaférese, mas não age sobre o autoanticorpo subjacente.
A distinção crucial que a banca explora é entre a PTT e a púrpura trombocitopênica imune (PTI). Na PTI, a trombocitopenia é causada por autoanticorpos contra glicoproteínas plaquetárias (como GPIIb/IIIa), que opsonizam as plaquetas e levam à sua destruição no baço — não há microangiopatia nem AHMA. Na PTT, o alvo imunológico é a ADAMTS13, e a trombocitopenia é consequência do consumo de plaquetas nos microtrombos, não de destruição imune direta. Confundir esses dois mecanismos é o erro mais comum.
A pegadinha desta questão está em trocar o alvo do autoanticorpo: a banca oferece alternativas que mencionam anticorpos anti-FVW, anti-GPIIb/IIIa e até elevação da ADAMTS13, quando o correto é o autoanticorpo anti-ADAMTS13. Guarde a sequência fisiopatológica: autoanticorpo anti-ADAMTS13 → deficiência da protease → acúmulo de multímeros ultragrandes de FVW → agregação plaquetária → microtrombos → AHMA + trombocitopenia + disfunção orgânica. É essa cadeia que separa as alternativas.
1Autoanticorpo anti-ADAMTS13
2Deficiência da protease
3Acúmulo de multímeros ultragrandes de FVW
4Agregação plaquetária
5Microtrombos oclusivos
6AHMA + trombocitopenia + disfunção orgânica
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Alternativa A — ❌ Incorreta
Afirma que a presença de anticorpos anti-FVW exclui o diagnóstico. Isso é falso por dois motivos: (1) os anticorpos na PTT são dirigidos contra a ADAMTS13, não contra o FVW; (2) a presença de anticorpos anti-FVW não tem relação com o diagnóstico de PTT — o FVW é o substrato da enzima, não o alvo imunológico. A alternativa inverte o alvo do autoanticorpo, confundindo o antígeno com o substrato.
Alternativa B — ❌ Incorreta
Afirma que a elevação súbita e idiopática dos níveis séricos de ADAMTS13 desencadeia os sintomas. É o oposto: a PTT é causada pela deficiência ou redução da atividade da ADAMTS13, não pela sua elevação. A elevação da enzima não tem papel patogênico na doença; o que importa é a perda de função, seja por autoanticorpos (forma adquirida) ou por mutações genéticas (forma congênita). A alternativa troca o sentido da alteração enzimática.
Alternativa C — ❌ Incorreta
Afirma que a agregação plaquetária é causada por lesão endotelial sistêmica associada à síndrome de vazamento capilar. Embora a lesão endotelial possa estar presente em algumas MATs, o mecanismo central da PTT é a deficiência de ADAMTS13 com acúmulo de multímeros ultragrandes de FVW, que promovem agregação plaquetária diretamente. A "síndrome de vazamento capilar" não é um componente da fisiopatologia da PTT; essa descrição se aproxima mais de outras condições, como a síndrome de extravasamento capilar sistêmico, que não faz parte do espectro da doença. A alternativa mistura conceitos de outras entidades.
Alternativa D — ❌ Incorreta
Afirma que autoanticorpos anti-GPIIb/IIIa plaquetários dão início à fisiopatologia. Esse é o mecanismo da púrpura trombocitopênica imune (PTI), não da PTT. Na PTI, os autoanticorpos contra glicoproteínas plaquetárias (GPIIb/IIIa) opsonizam as plaquetas e causam sua destruição no baço. Na PTT, o alvo é a ADAMTS13, e a trombocitopenia é por consumo nos microtrombos, não por destruição imune. A alternativa troca o mecanismo de uma doença pela outra — a pegadinha clássica da banca.
Alternativa E — ✅ Correta ⟵ GABARITO
Afirma que o surgimento de autoanticorpos anti-ADAMTS13 é o gatilho para o desenvolvimento das alterações clínicas da PTT. É exatamente o mecanismo da forma adquirida: os autoanticorpos (principalmente IgG) inibem a atividade da ADAMTS13, levando ao acúmulo de multímeros ultragrandes de FVW, que agregam plaquetas e formam microtrombos oclusivos. Essa cascata resulta em AHMA, trombocitopenia e disfunção orgânica — as manifestações clínicas da doença. A alternativa espelha corretamente a fisiopatologia descrita na literatura.