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Questão de Medicina — Doenças Infecto-Parasitárias — FGV 2023

MedicinaDoenças Infecto-Parasitárias
Código
fg064478
Banca
FGV
Órgão
FHEMIG
Ano
2023
Nível
Superior
Cargo
Médico - Infectologia
Homem de 80 anos, internado há 9 dias para tratamento cirúrgico de adenocarcinoma de pâncreas que evoluiu mal no pós-operatório. Como apresentava picos febris, foram colhidas amostras de hemoculturas. Uma amostra foi positiva, com identificação de Enterococcus faecium, resistente à ampicilina (CIM = 256) e à vancomicina (CIM = 64) e sensível à teicoplanina (CIM = 1).Assinale a opção que indica os mecanismos mais prováveis, capazes de explicar os padrões de resistência à ampicilina e à vancomicina encontrados.*CIM = concentração inibitória mínima.
  1. AInibição da síntese de proteínas ligadoras de penicilina e desrepressão do gene vanA.
  2. BProdução de beta-lactamase de espectro estendido e indução de bombas de efluxo.
  3. CProdução de beta-lactamase de espectro estendido e expressão do gene vanC.
  4. DDiminuição de afinidade de proteínas ligadoras de penicilina e expressão do gene vanB.
  5. EIndução de bombas de efluxo e inativação enzimática mediada por plasmídeo.
Revelar gabarito e comentário

GabaritoD — Diminuição de afinidade de proteínas ligadoras de penicilina e expressão do gene vanB.

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

Resistência antimicrobiana em Enterococcus faecium: ampicilina e vancomicina

Gabarito: letra D. O padrão descrito — resistência de alto nível à ampicilina (CIM = 256) e à vancomicina (CIM = 64), com sensibilidade à teicoplanina (CIM = 1) — é a assinatura clássica do fenótipo VanB em enterococos, no qual a resistência à vancomicina é induzida e a teicoplanina permanece ativa. A resistência à ampicilina nessa espécie decorre, na maioria dos casos, da diminuição de afinidade das proteínas ligadoras de penicilina (PBPs), e não da produção de beta-lactamase. A alternativa D combina exatamente esses dois mecanismos.

O Enterococcus é um coco Gram-positivo que se destaca na prática clínica por sua resistência intrínseca e adquirida a múltiplos antimicrobianos. Para entender a questão, é preciso separar dois mecanismos independentes: o que confere resistência à ampicilina e o que confere resistência à vancomicina. A resistência à ampicilina em enterococos ocorre, em regra, por alteração das proteínas ligadoras de penicilina (PBPs) — enzimas responsáveis pela síntese da parede celular. A ampicilina se liga a essas proteínas e as inativa; quando a bactéria produz PBPs com baixa afinidade pelo antibiótico, o fármaco não consegue exercer seu efeito. Esse é o mecanismo mais comum em Enterococcus faecium, e a produção de beta-lactamase é rara nessa espécie. Já a resistência à vancomicina é mediada por genes que alteram o precursor do peptideoglicano: em vez de terminar em D-alanina-D-alanina, o precursor passa a terminar em D-alanina-D-lactato (fenótipos VanA e VanB) ou D-alanina-D-serina (fenótipo VanC). A vancomicina se liga ao precursor normal; quando o precursor é modificado, o antibiótico perde o alvo. A diferença entre VanA e VanB está na expressão e na indução: o VanA confere resistência de alto nível tanto à vancomicina quanto à teicoplanina, enquanto o VanB confere resistência de alto nível à vancomicina, mas mantém sensibilidade à teicoplanina. O caso descrito — CIM de vancomicina = 64 (alto nível) e CIM de teicoplanina = 1 (sensível) — é a marca do fenótipo VanB. O gene vanC, por sua vez, é típico de Enterococcus gallinarum e casseliflavus, conferindo resistência de baixo nível à vancomicina, e não se aplica ao E. faecium. A produção de beta-lactamase de espectro estendido (ESBL) é mecanismo de resistência a cefalosporinas em Gram-negativos, não se aplicando à resistência à ampicilina em enterococos. Bombas de efluxo e inativação enzimática por plasmídeo não explicam o padrão descrito. A questão, portanto, testa o conhecimento dos mecanismos de resistência específicos de cada classe de antibiótico e a capacidade de correlacionar o perfil de sensibilidade com o genótipo bacteriano.

Na prática, a identificação do fenótipo VanB tem implicação terapêutica direta: a teicoplanina pode ser uma opção de tratamento, enquanto no fenótipo VanA ela seria ineficaz. A distinção entre VanA e VanB é feita justamente pelo teste de sensibilidade à teicoplanina. O caso clínico apresentado — paciente idoso, pós-operatório de cirurgia de grande porte, com hemocultura positiva — é o cenário clássico de infecção por enterococo resistente à vancomicina (VRE), e a escolha do antibiótico depende do perfil de resistência. A alternativa correta é a que associa a diminuição de afinidade das PBPs (resistência à ampicilina) com a expressão do gene vanB (resistência à vancomicina com sensibilidade à teicoplanina).

NÃO CAIA NESSA!

A banca explora a confusão entre os fenótipos VanA e VanB. O candidato que memoriza apenas que "VRE é resistente à vancomicina" pode marcar a alternativa A (gene vanA), mas o dado decisivo é a sensibilidade à teicoplanina: no VanA há resistência cruzada a teicoplanina, no VanB não. A CIM de teicoplanina = 1 é a chave que aponta para o gene vanB. Além disso, a resistência à ampicilina em enterococos é por alteração de PBPs, não por beta-lactamase — outro erro clássico.

Mecanismo

Resistência à Ampicilina

Resistência à Vancomicina

Mecanismo correto (gabarito D)

Diminuição de afinidade das PBPs

Expressão do gene vanB (precursor D-Ala-D-Lac; sensível à teicoplanina)

Mecanismo incorreto (alternativa A)

Inibição da síntese de PBPs (é o mecanismo de ação da ampicilina, não de resistência)

Desrepressão do gene vanA (confere resistência também à teicoplanina)

Mecanismo incorreto (alternativas B e C)

Produção de beta-lactamase de espectro estendido (típico de Gram-negativos)

Indução de bombas de efluxo (B) ou expressão do gene vanC (C, típico de E. gallinarum/casseliflavus)

Mecanismo incorreto (alternativa E)

Inativação enzimática mediada por plasmídeo

Indução de bombas de efluxo

Resistência em Enterococcus faecium
  • 1Ampicilina
    • Diminuição de afinidade das PBPs
    • Beta-lactamase é rara
  • 2Vancomicina
    • VanA: resistente a vanco e teico
    • VanB: resistente a vanco, sensível a teico
    • VanC: baixo nível, E. gallinarum
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Alternativa A — ❌ Incorreta

A inibição da síntese de proteínas ligadoras de penicilina não é um mecanismo de resistência, mas sim o mecanismo de ação da própria ampicilina. A resistência ocorre pela diminuição de afinidade dessas proteínas, não pela inibição de sua síntese. Além disso, a desrepressão do gene vanA conferiria resistência também à teicoplanina, o que contraria o perfil de sensibilidade apresentado (CIM = 1).

Alternativa B — ❌ Incorreta

A produção de beta-lactamase de espectro estendido (ESBL) é mecanismo típico de Gram-negativos, não de enterococos. A resistência à ampicilina em E. faecium é mediada por PBPs de baixa afinidade. A indução de bombas de efluxo não é o mecanismo primário de resistência à vancomicina em enterococos, que é mediado por alteração do precursor do peptideoglicano.

Alternativa C — ❌ Incorreta

A produção de beta-lactamase de espectro estendido não explica a resistência à ampicilina em enterococos. O gene vanC é típico de E. gallinarum e E. casseliflavus, conferindo resistência de baixo nível à vancomicina, e não se aplica ao E. faecium com CIM de vancomicina = 64 (alto nível).

Alternativa D — ✅ Correta ⟵ GABARITO

A diminuição de afinidade das proteínas ligadoras de penicilina (PBPs) é o mecanismo mais comum de resistência à ampicilina em Enterococcus faecium. A expressão do gene vanB confere resistência de alto nível à vancomicina, mas mantém sensibilidade à teicoplanina — exatamente o perfil apresentado (CIM vancomicina = 64, CIM teicoplanina = 1). A combinação desses dois mecanismos explica integralmente o padrão de resistência descrito.

Alternativa E — ❌ Incorreta

A indução de bombas de efluxo não é o mecanismo primário de resistência à vancomicina em enterococos. A inativação enzimática mediada por plasmídeo não explica a resistência à ampicilina nessa espécie, que é mediada por alteração das PBPs. O padrão descrito é explicado por mecanismos genéticos específicos (vanB e PBPs de baixa afinidade), não por efluxo ou inativação enzimática.

Gabarito: letra D — a resistência à ampicilina por diminuição de afinidade das PBPs e a resistência à vancomicina por expressão do gene vanB, com sensibilidade preservada à teicoplanina.

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