Questão de Medicina — Doenças Infecto-Parasitárias — FGV 2023
Medicina›Doenças Infecto-Parasitárias
Código
fg064481
Banca
FGV
Órgão
FHEMIG
Ano
2023
Nível
Superior
Cargo
Médico - Infectologia
A esquistossomose é considerada um grave problema de saúde pública no Brasil, pois acomete milhões de pessoas, com um número expressivo de formas graves e óbitos.
A respeito das formas clínicas da esquistossomose, assinale a afirmativa correta.
AA glomerulonefrite por imunocomplexos ocorre na maioria dos pacientes com a forma hepatoesplênica da doença.
BA forma aguda da doença raramente cursa com eosinofilia e aumento de aminotransferases.
CA polipose intestinal esquistossomótica é assintomática e costuma ser um achado casual de exames endoscópicos
DA maioria dos pacientes com a forma hepatointestinal apresenta também hipertensão pulmonar.
EA mielite transversa é rara na forma hepatoesplênica e comum na forma intestinal e na fase aguda.
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GabaritoE — A mielite transversa é rara na forma hepatoesplênica e comum na forma intestinal e na fase aguda.
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Esquistossomose: formas clínicas e manifestações
Gabarito: letra E. A mielite transversa é uma complicação neurológica rara na forma hepatoesplênica, mas relativamente mais comum na forma intestinal e na fase aguda da esquistossomose — exatamente o que a alternativa E afirma. As demais alternativas distorcem a frequência de outras manifestações: a glomerulonefrite não ocorre na maioria dos pacientes hepatoesplênicos, a forma aguda cursa com eosinofilia e aumento de aminotransferases, a polipose intestinal é sintomática e a hipertensão pulmonar não acomete a maioria dos pacientes com a forma hepatointestinal.
A esquistossomose mansônica é uma helmintíase causada pelo trematódeo Schistosoma mansoni, endêmica em 19 estados brasileiros, com transmissão ao longo do litoral nordestino e em partes do Sudeste. A doença evolui em duas grandes fases: aguda (que inclui a dermatite cercariana e a febre de Katayama) e crônica (que se subdivide nas formas intestinal, hepatointestinal, hepatoesplênica e outras). A forma clínica depende da carga parasitária, da resposta imunológica do hospedeiro e do tempo de infecção.
Na fase aguda, os ovos do parasita são depositados na parede intestinal e desencadeiam uma resposta inflamatória intensa, com febre, cefaleia, mialgia, dor abdominal e — ponto central para esta questão — eosinofilia acentuada e elevação das aminotransferases. A eosinofilia é um marcador clássico das helmintíases, e a literatura destaca que as parasitoses são as causas mais comuns de eosinofilia em nosso meio. A ausência de eosinofilia não exclui o diagnóstico, mas sua presença é frequente na fase aguda.
Na forma crônica, a deposição de ovos no fígado leva à formação de granulomas periportais, que evoluem para fibrose de Symmers. Quando a fibrose é intensa, instala-se a forma hepatoesplênica, caracterizada por hepatoesplenomegalia, hipertensão portal e varizes de esôfago. É nessa forma que podem ocorrer complicações como a glomerulonefrite por imunocomplexos — mas ela acomete uma minoria, não a maioria, dos pacientes. A hipertensão pulmonar, por sua vez, é uma complicação da forma hepatoesplênica avançada, não da forma hepatointestinal.
A polipose intestinal esquistossomótica é uma forma clínica caracterizada por pólipos inflamatórios no intestino grosso, que cursam com dor abdominal, diarreia mucossanguinolenta e tenesmo — ou seja, é sintomática, e não um achado casual de endoscopia. Já a mielite transversa é uma complicação neurológica rara, que ocorre principalmente na fase aguda e na forma intestinal, quando os ovos ou vermes ectópicos atingem a medula espinhal. Na forma hepatoesplênica, essa complicação é excepcional.
A pegadinha central desta questão é a inversão de frequências: a banca troca o que é comum pelo que é raro em cada forma clínica. O candidato que memoriza apenas os nomes das formas, sem associar as manifestações típicas de cada uma, tende a marcar alternativas que parecem plausíveis, mas que invertem a realidade epidemiológica e clínica. Guarde o par forma clínica × manifestação típica: é exatamente nessa associação que as alternativas se separam.
Forma clínica
Manifestações típicas
Complicações associadas
Aguda (febre de Katayama)
Febre, cefaleia, mialgia, dor abdominal, eosinofilia acentuada, aumento de aminotransferases
Mielite transversa (mais comum que na hepatoesplênica)
Intestinal
Diarreia, dor abdominal
Mielite transversa (relativamente mais comum)
Hepatointestinal
Comprometimento intestinal e hepático leve
Sem hipertensão portal significativa; hipertensão pulmonar não é típica
Hepatoesplênica
Hepatoesplenomegalia, hipertensão portal, varizes de esôfago
Dor abdominal, diarreia mucossanguinolenta, tenesmo (sintomática)
—
Esquistossomose: formas clínicas: Fase aguda (Febre de Katayama, Eosinofilia e ↑ aminotransferases, Mielite transversa (rara)); Forma intestinal (Polipose sintomática, Mielite transversa (mais comum)); Forma hepatointestinal (Comprometimento leve, Sem hipertensão pulmonar); Forma hepatoesplênica (Fibrose de Symmers, Hipertensão portal, Glomerulonefrite (minoria), Mielite transversa (excepcional))
Alternativa A — ❌ Incorreta
A glomerulonefrite por imunocomplexos é uma complicação rara da forma hepatoesplênica, não uma manifestação da maioria dos pacientes. Ela ocorre em uma minoria, geralmente associada à deposição de imunocomplexos contendo antígenos do parasita nos glomérulos. A alternativa erra ao generalizar uma complicação incomum como se fosse a regra.
Alternativa B — ❌ Incorreta
A forma aguda da esquistossomose frequentemente cursa com eosinofilia e aumento de aminotransferases, não raramente. A eosinofilia é um marcador típico das helmintíases, e a elevação das aminotransferases reflete o envolvimento hepático na fase de migração e oviposição. A alternativa inverte a frequência desses achados.
Alternativa C — ❌ Incorreta
A polipose intestinal esquistossomótica é sintomática, cursando com dor abdominal, diarreia mucossanguinolenta e tenesmo. Não é um achado casual de exames endoscópicos — os pólipos inflamatórios causam sintomas que levam o paciente a procurar atendimento. A alternativa erra ao descrever uma forma sintomática como assintomática.
Alternativa D — ❌ Incorreta
A hipertensão pulmonar é uma complicação da forma hepatoesplênica avançada, não da forma hepatointestinal. Na forma hepatointestinal, o comprometimento é predominantemente intestinal e hepático leve, sem hipertensão portal significativa. A alternativa troca a forma clínica associada à complicação.
Alternativa E — ✅ Correta ⟵ GABARITO
A mielite transversa é uma complicação neurológica rara na forma hepatoesplênica e relativamente mais comum na forma intestinal e na fase aguda. Isso ocorre porque, na fase aguda e na forma intestinal, os ovos ou vermes ectópicos podem atingir a medula espinhal, desencadeando um processo inflamatório. Na forma hepatoesplênica, o parasita está confinado ao sistema porta, tornando a mielite excepcional. A alternativa descreve corretamente a distribuição dessa complicação.
NÃO CAIA NESSA!
A banca adora inverter a frequência das manifestações clínicas. Nesta questão, as alternativas A, B, C e D trocam o que é comum pelo que é raro: glomerulonefrite na maioria (é minoria), eosinofilia rara na fase aguda (é frequente), polipose assintomática (é sintomática) e hipertensão pulmonar na forma hepatointestinal (é da hepatoesplênica). Ao estudar, associe cada forma clínica às suas manifestações típicas — é isso que destrava a questão.