Questão de Medicina — Doenças Infecto-Parasitárias — FGV 2023
- Código
- fg064482
- Banca
- FGV
- Órgão
- FHEMIG
- Ano
- 2023
- Nível
- Superior
- Cargo
- Médico - Infectologia
- AI e II, apenas.
- BII e IV, apenas.
- CII e III, apenas.
- DIII e IV, apenas.
- EI e IV, apenas.
GabaritoB — II e IV, apenas.
Gabarito: letra B. Estão corretas as afirmativas II e IV: a elastografia hepática não é obrigatória para iniciar o tratamento da hepatite C (podem ser usados escores não invasivos como APRI e FIB-4) e o paciente, por ser suscetível (anti-HAV IgG não reagente), deve ser vacinado contra a hepatite A. A afirmativa I é falsa porque os esquemas de tratamento da hepatite C pelo SUS são pangenotípicos, não exigindo genotipagem prévia; a afirmativa III é falsa porque, em coinfecção HBV/HCV, o tratamento da hepatite B deve ser iniciado antes ou concomitantemente ao da hepatite C, nunca após.
O caso apresenta um paciente com coinfecção pelos vírus das hepatites B e C, situação que exige do médico o domínio de dois protocolos distintos e a compreensão da interação entre eles. A hepatite C, hoje, tem tratamento curativo com os antivirais de ação direta (DAA), que atuam em todas as etapas do ciclo replicativo do HCV. A hepatite B, por sua vez, é controlada com análogos de nucleosídeo/nucleotídeo (AN), como tenofovir, entecavir ou tenofovir alafenamida, que suprimem a replicação viral sem erradicar o vírus.
A grande virada na abordagem da hepatite C foi a chegada dos DAA pangenotípicos, que eliminam a necessidade de genotipagem prévia ao tratamento. Antes, os esquemas eram genótipo-específicos e exigiam a identificação do genótipo do HCV para a escolha da medicação. Com os regimes pangenotípicos, o tratamento pode ser iniciado imediatamente após o diagnóstico, independentemente do genótipo, o que simplifica e acelera o acesso à cura. Essa é a base da afirmativa I, que está incorreta.
Quanto à avaliação de fibrose hepática, os escores não invasivos APRI e FIB-4, calculados a partir de exames laboratoriais de rotina, são ferramentas validadas e amplamente utilizadas para estimar o grau de fibrose. A elastografia hepática (transitória ou por ressonância) é um método mais preciso, mas não é obrigatória para o início do tratamento da hepatite C, especialmente em pacientes sem sinais de cirrose. No caso, o APRI de 0,8 e o FIB-4 de 1,5 indicam ausência de fibrose significativa, o que torna a elastografia dispensável. Essa é a base da afirmativa II, que está correta.
A coinfecção HBV/HCV é um cenário complexo. O HCV geralmente exerce efeito supressor sobre o HBV, mantendo a replicação do HBV em níveis baixos. Ao tratar a hepatite C com DAA, esse efeito supressor é removido, podendo ocorrer reativação do HBV. Por isso, antes de iniciar o DAA, o paciente com HBsAg reagente deve ser avaliado quanto à necessidade de tratamento para HBV. Se houver indicação, o AN deve ser iniciado antes ou concomitantemente ao DAA. Se não houver indicação de tratamento, deve-se fazer profilaxia antiviral com AN, iniciada logo antes ou simultaneamente ao DAA. Em nenhuma hipótese o tratamento da hepatite B é adiado para depois do da hepatite C. Essa é a base da afirmativa III, que está incorreta.
Por fim, a vacinação contra hepatite A é recomendada para todos os pacientes com hepatite C, pois a infecção aguda pelo VHA em um fígado já comprometido pode levar a hepatite fulminante. O paciente em questão tem anti-HAV IgG não reagente, ou seja, é suscetível e deve ser vacinado. Essa é a base da afirmativa IV, que está correta.
A fronteira que separa as alternativas é exatamente o conhecimento dos protocolos atuais: pangenotípico (não genótipo-específico), elastografia dispensável, tratamento da hepatite B antes/concomitante (nunca depois) e vacinação contra hepatite A para suscetíveis. Vamos analisar cada afirmativa.
Afirmativa | Veredito | Justificativa |
|---|---|---|
I. Tratamento SUS genótipo-específico, exigindo genotipagem | ❌ Incorreto | Esquemas são pangenotípicos; genotipagem não é pré-requisito. |
II. Elastografia hepática dispensável para início do tratamento | ✅ Correto | APRI e FIB-4 são suficientes; elastografia não é obrigatória. |
III. Tratamento da hepatite B somente após o da C | ❌ Incorreto | HBV deve ser tratado antes ou concomitantemente ao HCV, nunca depois. |
IV. Vacinação contra hepatite A indicada | ✅ Correto | Paciente suscetível (anti-HAV IgG não reagente) e com hepatite C deve ser vacinado. |
A afirmativa afirma que as alternativas de tratamento oferecidas pelo SUS são genótipo-específicas, exigindo genotipagem antes do tratamento. Isso está errado frente aos protocolos atuais. Os esquemas de tratamento da hepatite C com DAA são pangenotípicos, ou seja, eficazes contra todos os genótipos do HCV, não sendo necessária a genotipagem para a escolha do esquema. A genotipagem pode ser útil em situações específicas, mas não é um pré-requisito para o início do tratamento.
A afirmativa está correta. A elastografia hepática não é obrigatória para o início do tratamento da hepatite C. A avaliação da fibrose pode ser feita por métodos não invasivos como APRI e FIB-4, que são calculados a partir de exames laboratoriais simples. No caso, o APRI de 0,8 e o FIB-4 de 1,5 já fornecem essa informação, tornando a elastografia dispensável.
A afirmativa está errada. Em pacientes coinfectados HBV/HCV, o tratamento da hepatite B deve ser iniciado antes ou concomitantemente ao da hepatite C, nunca após. Isso porque o tratamento da hepatite C com DAA pode levar à reativação do HBV, e o uso do AN protege o paciente dessa complicação. A conduta correta é avaliar a necessidade de tratamento para HBV antes do início do DAA e, se indicado, iniciar o AN imediatamente.
A afirmativa está correta. O paciente é suscetível à hepatite A (anti-HAV IgG não reagente) e, por ter hepatite C, deve ser vacinado contra a hepatite A. A infecção aguda pelo VHA em um paciente com doença hepática crônica pode evoluir para hepatite fulminante, com alto risco de mortalidade. A vacinação é uma medida preventiva essencial nesse grupo.
Conclusão: corretos os itens II e IV, portanto o gabarito é a letra B.
A banca explora a confusão entre o tratamento antigo e o atual da hepatite C. O candidato que memorizou que o tratamento era genótipo-específico marca a afirmativa I como correta, mas os DAA pangenotípicos mudaram essa prática. Além disso, a afirmativa III inverte a ordem correta do tratamento na coinfecção: o HBV deve ser tratado antes ou junto com o HCV, nunca depois. Fique atento a essas inversões de protocolo.
Para questões de hepatites virais, decore os pontos-chave: tratamento da hepatite C é pangenotípico e não exige genotipagem; elastografia não é obrigatória (APRI/FIB-4 bastam); na coinfecção HBV/HCV, trate HBV antes ou junto; vacine contra hepatite A todo paciente com hepatite C suscetível. Esses são os tópicos mais cobrados em provas de residência e concursos.
Gabarito: letra B
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