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Questão de Medicina — Hematologia — FGV 2023

MedicinaHematologia
Código
fg064486
Banca
FGV
Órgão
FHEMIG
Ano
2023
Nível
Superior
Cargo
Médico - Infectologia Pediátrica
Acerca das intercorrências infecciosas no paciente com anemia falciforme, analise as afirmativas a seguir.I. O risco de septicemia e/ou meningite chega a ser 600 vezes maior do que em crianças sem doença falciforme, portanto os falcêmicos com doença febril sem foco aparente, mesmo que sem sinais de sepse, devem receber terapia empírica com cefepima + vancomicina.II. Se na avaliação da febre não for detectada qualquer etiologia, os antibióticos devem ser mantidos por no mínimo 72 horas até resultados das hemoculturas.III. A cobertura antibiótica para Mycoplasma pneumoniae está indicada em associação à cefalosporina no paciente com síndrome torácica aguada.IV. Se for confirmada ou existir suspeita forte de osteomielite, fazer esquema com oxacilina e clindamicina.V. A crise aplásica por parvovirose pode ser diferenciada do sequestro esplênico por cursar reticulopenia, com enquanto o sequestro leva à reticulocitose.Está correto o que se afirma em
  1. AI, II e III, apenas.
  2. BII, III e V, apenas.
  3. CIII, IV e V, apenas.
  4. DI, II, IV e V, apenas.
  5. EI, II, III, IV e V.
Revelar gabarito e comentário

GabaritoB — II, III e V, apenas.

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

Intercorrências infecciosas na anemia falciforme

Gabarito: letra B. Estão corretas as afirmativas II, III e V. A afirmativa I erra ao indicar cefepima + vancomicina como terapia empírica inicial da febre sem foco aparente — o esquema padrão é uma cefalosporina de terceira geração (ceftriaxona) para cobertura de Streptococcus pneumoniae, o principal agente. A afirmativa IV erra ao recomendar oxacilina + clindamicina para osteomielite, quando o esquema consagrado é cefalosporina de primeira geração (cefazolina) ou clindamicina isolada, conforme a diretriz de anemia falciforme.

A anemia falciforme (HbSS) é uma doença autossômica recessiva causada pela substituição de valina por glutamina no códon 6 da β-globina, gerando a hemoglobina S, que polimeriza sob hipóxia, acidose e desidratação. Essa polimerização leva à falcização das hemácias, que se tornam rígidas e ocluem a microvasculatura, causando as crises vaso-oclusivas e a hemólise crônica. Um dos pilares da fisiopatologia é a asplenia funcional: as múltiplas crises vaso-oclusivas infartam o baço, comprometendo sua função de filtro e de produção de anticorpos. Por isso, o paciente falcêmico tem susceptibilidade aumentada a bactérias encapsuladas, especialmente o Streptococcus pneumoniae, responsável por cerca de 70% das infecções graves nessa população. O risco de meningite pneumocócica é estimado em 600 vezes maior que na população geral, e o de bacteremia, 300 vezes maior — daí a necessidade de antibioticoterapia empírica precoce em qualquer episódio febril, mesmo sem foco aparente.

A febre no paciente falcêmico é uma emergência. Como a asplenia funcional compromete a opsonização e a resposta imune, uma bacteremia pode evoluir para sepse fulminante em menos de 24 horas. Por isso, a conduta é: colher hemoculturas e iniciar antibiótico de amplo espectro imediatamente, sem aguardar resultados. A cobertura empírica padrão é uma cefalosporina de terceira geração (ceftriaxona), que cobre S. pneumoniae, Haemophilus influenzae e Neisseria meningitidis. A associação de vancomicina é reservada para casos com sinais de gravidade, suspeita de meningite ou em regiões com alta prevalência de pneumococo resistente. A afirmativa I, ao indicar cefepima + vancomicina como rotina, está incorreta — cefepima é uma cefalosporina de quarta geração, com espectro mais voltado a gram-negativos, e vancomicina não é necessária de primeira linha.

A síndrome torácica aguda (STA) é uma complicação grave, definida pela tríade: febre, sintomas respiratórios e infiltrado pulmonar novo na radiografia de tórax. Sua etiologia é multifatorial, incluindo infecção (bacteriana, viral ou por Mycoplasma pneumoniae), infarto pulmonar por vaso-oclusão e embolia gordurosa. O tratamento inclui antibioticoterapia empírica com cobertura para S. pneumoniae e Mycoplasma pneumoniae — por isso a afirmativa III está correta: a cobertura para Mycoplasma é indicada em associação à cefalosporina. A espirometria de incentivo é medida preventiva eficaz.

A osteomielite no paciente falcêmico é uma complicação importante, geralmente causada por Salmonella spp., Staphylococcus aureus e, menos frequentemente, por S. pneumoniae. O esquema empírico recomendado é cefalosporina de primeira geração (cefazolina) ou clindamicina, com cobertura adicional para Salmonella em áreas endêmicas. A afirmativa IV, ao indicar oxacilina + clindamicina, está incorreta — oxacilina é uma penicilina antiestafilocócica, mas a associação com clindamicina não é o esquema padrão; a clindamicina isolada ou a cefazolina são as opções de primeira linha.

A crise aplásica é uma complicação aguda causada pela infecção pelo parvovírus B19, que invade e destrói os precursores eritróides na medula óssea, interrompendo a eritropoiese. Como a hemácia falciforme tem meia-vida curta (cerca de 10-20 dias), a supressão medular leva a uma queda abrupta da hemoglobina, com reticulopenia (contagem de reticulócitos muito baixa ou ausente). Já o sequestro esplênico é caracterizado pelo represamento maciço de sangue no baço, levando a esplenomegalia aguda, queda da hemoglobina e reticulocitose (a medula responde à anemia aumentando a produção de reticulócitos). Essa diferença no padrão de reticulócitos é o critério que permite diferenciar as duas crises — exatamente o que a afirmativa V descreve corretamente.

A afirmativa II trata da duração da antibioticoterapia quando não se identifica etiologia. A conduta recomendada é manter os antibióticos por no mínimo 72 horas, até que os resultados das hemoculturas estejam disponíveis. Se as culturas forem negativas e o paciente estiver estável, os antibióticos podem ser suspensos; se houver crescimento, o esquema é ajustado conforme o antibiograma. Essa prática visa cobrir o período de maior risco de bacteremia oculta, que pode ser fulminante nesses pacientes.

A pegadinha central desta questão está na troca dos esquemas antibióticos: a banca substitui a cefalosporina de terceira geração (ceftriaxona) por cefepima + vancomicina na afirmativa I, e o esquema de osteomielite (cefazolina ou clindamicina) por oxacilina + clindamicina na afirmativa IV. O candidato que decora os nomes dos antibióticos sem entender o espectro e a indicação acaba errando. A chave é lembrar que a cobertura empírica na febre do falcêmico visa S. pneumoniae (ceftriaxona), e na osteomielite visa Salmonella e S. aureus (cefazolina ou clindamicina).

Afirmativa

Conteúdo

Veredito

I

Terapia empírica da febre sem foco: cefepima + vancomicina

❌ Incorreto — padrão é ceftriaxona

II

Manter antibióticos por no mínimo 72h se etiologia não identificada

✅ Correto

III

Cobertura para Mycoplasma pneumoniae associada à cefalosporina na síndrome torácica aguda

✅ Correto

IV

Osteomielite: esquema com oxacilina + clindamicina

❌ Incorreto — padrão é cefazolina ou clindamicina

V

Crise aplásica (parvovírus B19) cursa com reticulopenia; sequestro esplênico, com reticulocitose

✅ Correto

Item I — ❌ Incorreto

A afirmativa I está incorreta. O risco de septicemia e/ou meningite é de fato 600 vezes maior, e a febre sem foco aparente exige terapia empírica imediata. Porém, o esquema padrão é ceftriaxona (cefalosporina de terceira geração), não cefepima + vancomicina. A cefepima é uma cefalosporina de quarta geração, com espectro mais amplo para gram-negativos, e a vancomicina é reservada para suspeita de meningite ou pneumococo resistente. A troca do antibiótico torna a afirmativa errada.

Item II — ✅ Correto

A afirmativa II está correta. Quando a avaliação da febre não identifica etiologia, os antibióticos devem ser mantidos por no mínimo 72 horas, até que os resultados das hemoculturas estejam disponíveis. Essa conduta é padronizada nas diretrizes de manejo da febre no paciente falcêmico, visando cobrir o período de maior risco de bacteremia oculta.

Item III — ✅ Correto

A afirmativa III está correta. Na síndrome torácica aguda, a antibioticoterapia empírica deve incluir cobertura para S. pneumoniae (cefalosporina) e para Mycoplasma pneumoniae (macrolídeo, como azitromicina ou claritromicina). A associação é recomendada porque Mycoplasma é um agente etiológico frequente da STA.

Item IV — ❌ Incorreto

A afirmativa IV está incorreta. O esquema empírico para osteomielite no paciente falcêmico é cefazolina (cefalosporina de primeira geração) ou clindamicina, com cobertura adicional para Salmonella em áreas endêmicas. A associação oxacilina + clindamicina não é o esquema padrão — oxacilina é uma penicilina antiestafilocócica, mas a combinação não é a recomendada pelas diretrizes.

Item V — ✅ Correto

A afirmativa V está correta. A crise aplásica por parvovírus B19 cursa com reticulopenia (supressão da eritropoiese), enquanto o sequestro esplênico cursa com reticulocitose (resposta medular à anemia). Essa diferença no padrão de reticulócitos é o critério que permite diferenciar as duas crises.

Conclusão: Corretos: II, III e V → portanto a alternativa é a letra B.

Gabarito: letra B

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