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Questão de Medicina — Medicina Intensiva — FGV 2023

MedicinaMedicina Intensiva
Código
fg064536
Banca
FGV
Órgão
FHEMIG
Ano
2023
Nível
Superior
Cargo
Médico - Medicina Intensiva
Paciente de 70 anos, sexo masculino, trófico e bem nutrido à avaliação pré-operatória, evolui com choque vasoplégico e difícil desmame ventilatório às custas de síndrome do desconforto respiratório em pós-operatório de cirurgia cardíaca de revascularização do miocárdio.O paciente algo melhor do ponto de vista respiratório e hemodinâmico, 48 horas após o procedimento, mantém baixa tolerância à dieta enteral, apresentando vômitos e distensão gástrica ao receber mais de 30% da meta nutricional de volume da dieta.Estão listadas a seguir opções nutricionais para um doente crítico cirúrgico. Assinale a opção que indica a melhor estratégia para esse caso.
  1. ATrocar totalmente a dieta enteral para nutrição parenteral e deixar volume correspondente a 100% da meta.
  2. BManter dieta enteral no volume atual e associar dieta parenteral, de forma que a soma dos dois volumes corresponda a 100% da meta para esse paciente.
  3. CInsistir no aumento do volume da dieta enteral para 100% da meta, mesmo que paciente apresente vômitos e estase.
  4. DManter dieta enteral trófica no volume tolerado por ainda mais alguns dias, ainda que fora da meta, visto que paciente não tinha alto risco nutricional na avaliação pré-operatória.
  5. ESuspender dieta enteral e deixar infusão intravenosa de aporte calórico com soro glicosado a 5%, 2 litros por dia.
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GabaritoD — Manter dieta enteral trófica no volume tolerado por ainda mais alguns dias, ainda que fora da meta, visto que paciente não tinha alto risco nutricional na avaliação pré-operatória.

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Nutrição enteral no paciente crítico cirúrgico: intolerância e estratégia de manejo

Gabarito: letra D. Em paciente crítico cirúrgico com intolerância à dieta enteral (vômitos e distensão gástrica) e sem alto risco nutricional pré-operatório, a melhor estratégia é manter a dieta enteral trófica no volume tolerado, ainda que abaixo da meta, por mais alguns dias — em vez de insistir na progressão agressiva ou trocar precocemente para nutrição parenteral. Essa conduta se alinha às evidências atuais de que a nutrição enteral precoce, mesmo em quantidades insuficientes para atingir a meta, é importante desde que respeitada a tolerância do paciente.

A nutrição enteral é a via preferencial de suporte nutricional no paciente crítico, pois preserva a integridade da mucosa intestinal, mantém o microbioma e reduz a translocação bacteriana. No entanto, a intolerância à dieta enteral — manifestada por vômitos, distensão abdominal e aumento do resíduo gástrico — é comum no pós-operatório de cirurgia cardíaca, especialmente em vigência de choque vasoplégico e uso de drogas vasoativas, que reduzem a perfusão esplâncnica e a motilidade gastrointestinal.

A regra de ouro no manejo da intolerância à dieta enteral é nunca forçar a progressão do volume em um paciente que apresenta sinais de estase gástrica. Insistir no aumento do volume (alternativa C) aumenta o risco de broncoaspiração, pneumonia aspirativa e piora do desfecho. A alternativa de trocar totalmente para nutrição parenteral (alternativa A) também é inadequada, pois a nutrição parenteral precoce, quando usada para perseguir a meta calórica, não demonstrou benefício e pode aumentar infecções e tempo de internação, conforme estudos como o de Van den Bergh. A alternativa B, que associa dieta parenteral para completar 100% da meta, também não é a melhor conduta inicial, pois o paciente não tem alto risco nutricional e a nutrição parenteral deve ser reservada para casos de impossibilidade de uso do trato gastrointestinal ou quando a dieta enteral não atinge metas mínimas após tentativas adequadas.

Na prática, a conduta correta é manter a dieta enteral trófica (geralmente 10-20 mL/h ou 15-20% da meta) no volume que o paciente tolera, monitorando sinais de intolerância, e reavaliar a progressão diariamente. Essa estratégia é respaldada pelo estudo de Todd Rice, que comparou nutrição enteral trófica (15-20% da meta) versus total (75-100%) em pacientes com insuficiência respiratória grave e não encontrou diferença em morbidade ou mortalidade, mas o grupo com dieta total apresentou mais resíduo gástrico e diarreia. O paciente do enunciado, que era trófico e bem nutrido na avaliação pré-operatória, não tem indicação de nutrição parenteral precoce nem de perseguir a meta calórica com obstinação — o foco deve ser a tolerância e a prevenção de complicações.

A pegadinha desta questão está em confundir a conduta para paciente crítico com alto risco nutricional (que pode se beneficiar de nutrição parenteral precoce) com a conduta para paciente sem desnutrição prévia. No paciente bem nutrido, a tolerância à dieta enteral é o guia principal, e a nutrição parenteral fica reservada para quando a dieta enteral não é possível ou não atinge metas mínimas após 7-10 dias. Guarde essa fronteira: paciente sem risco nutricional + intolerância à dieta enteral = manter dieta trófica tolerada e reavaliar; não forçar progressão, não partir para parenteral precoce.

Intolerância à dieta enteral
  • 1Conduta correta
    • Manter dieta trófica tolerada
    • Reavaliar progressão diariamente
    • Não forçar volume (risco de broncoaspiração)
  • 2Condutas inadequadas
    • Parenteral precoce p/ meta plena
    • Associar parenteral p/ completar meta
    • Forçar progressão com estase
    • Suspender dieta (só soro glicosado)
  • 3Fronteira decisória
    • Sem risco nutricional → tolerância guia
    • Alto risco nutricional → parenteral precoce pode caber
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Alternativa A — ❌ Incorreta

Trocar totalmente a dieta enteral para nutrição parenteral e deixar volume correspondente a 100% da meta é conduta inadequada. A nutrição parenteral precoce, usada para perseguir a meta calórica, não demonstrou benefício em pacientes críticos e pode aumentar infecções e tempo de internação. Além disso, o paciente não tem alto risco nutricional, e a via enteral deve ser mantida sempre que possível, mesmo em volumes tróficos.

Alternativa B — ❌ Incorreta

Associar dieta parenteral para completar 100% da meta, mantendo a dieta enteral no volume atual, também não é a melhor estratégia. A nutrição parenteral complementar precoce não é indicada em paciente sem alto risco nutricional, e a soma dos volumes para atingir a meta plena não é necessária nesse momento. O paciente tolera apenas volume trófico, e a prioridade é respeitar essa tolerância, não completar a meta com outra via.

Alternativa C — ❌ Incorreta

Insistir no aumento do volume da dieta enteral para 100% da meta, mesmo com vômitos e estase, é conduta perigosa e contraindicada. Forçar a progressão em paciente com intolerância aumenta o risco de broncoaspiração, pneumonia aspirativa e lesão pulmonar — especialmente relevante em um paciente com SDRA em desmame ventilatório. A tolerância gastrointestinal deve ser o limite da progressão.

Alternativa D — ✅ Correta ⟵ GABARITO

Manter dieta enteral trófica no volume tolerado por mais alguns dias, ainda que fora da meta, é a conduta correta. O paciente não tinha alto risco nutricional na avaliação pré-operatória, portanto não há urgência em atingir a meta calórica plena. A nutrição enteral precoce, mesmo em pequenas quantidades, é benéfica desde que respeitada a tolerância, e a reavaliação diária permite progressão gradual quando o paciente melhorar.

Alternativa E — ❌ Incorreta

Suspender a dieta enteral e deixar apenas soro glicosado a 5% é conduta inadequada, pois priva o paciente dos benefícios da nutrição enteral (preservação da mucosa intestinal, prevenção de translocação bacteriana) e não fornece aporte proteico adequado. O soro glicosado não é suporte nutricional e não deve substituir a dieta enteral em paciente que tolera pelo menos volume trófico.

Gabarito: letra D — manter dieta enteral trófica tolerada, sem forçar progressão e sem nutrição parenteral precoce, é a estratégia correta para paciente crítico cirúrgico sem alto risco nutricional com intolerância à dieta enteral.

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