Questão de Medicina — Medicina Intensiva — FGV 2023
Medicina›Medicina Intensiva
Código
fg064542
Banca
FGV
Órgão
FHEMIG
Ano
2023
Nível
Superior
Cargo
Médico - Medicina Intensiva
Paciente do sexo masculino de 30 anos, renal crônico dialítico, foi internado na UTI com diagnóstico de infecção de corrente sanguínea relacionada a cateter de diálise de longa permanência. No terceiro dia de internação, identificado que se tratava de infecção por Staphylococcus aureus oxacilina-sensível, sendo ajustado tratamento para oxacilina. Em seguida, realizado ecocardiograma transtorácico, que flagrou presença de vegetação extensa em valva aórtica.No sétimo dia de internação, paciente já estava em programação de alta, quando subitamente evolui com hipotensão, rebaixamento de nível de consciência e insuficiência respiratória, sendo intubado e necessitando de início de noradrenalina para estabilização hemodinâmica. Na curva da pressão arterial invasiva (PAI), observa-se aumento da pressão de pulso e perda do nó dicrótico.Nesse caso, o diagnóstico mais provável é
Ataquicardia ventricular.
Bbloqueio atrioventricular total.
Cembolização séptica.
Destenose aórtica aguda.
Einsuficiência aórtica aguda.
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GabaritoE — insuficiência aórtica aguda.
Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.
Insuficiência aórtica aguda: diagnóstico na endocardite infecciosa
Gabarito: letra E. O quadro clínico de deterioração súbita em paciente com endocardite infecciosa por Staphylococcus aureus e vegetação em valva aórtica, associado a hipotensão, rebaixamento do nível de consciência, insuficiência respiratória e, sobretudo, ao achado na curva de pressão arterial invasiva de aumento da pressão de pulso e perda do nó dicrótico, é altamente sugestivo de insuficiência aórtica aguda — a regurgitação valvar aguda maciça que leva a edema agudo de pulmão e choque cardiogênico. O diagnóstico é essencialmente clínico-hemodinâmico, e o ecocardiograma já havia demonstrado a vegetação extensa, substrato anatômico para a disfunção valvar.
A endocardite infecciosa é uma infecção do endocárdio, mais frequentemente das valvas cardíacas, que pode cursar com destruição tecidual e levar a complicações mecânicas graves. No caso apresentado, o paciente tem um fator de risco clássico — o cateter de diálise de longa permanência — e o agente etiológico é o Staphylococcus aureus, o patógeno mais virulento e mais frequentemente associado a endocardite aguda com destruição valvar rápida. A vegetação extensa em valva aórtica, flagrada no ecocardiograma transtorácico, é o substrato anatômico que, ao se romper ou ao destruir o aparato valvar, pode gerar uma insuficiência valvar aguda.
A insuficiência aórtica aguda é uma emergência médica. Diferentemente da forma crônica, em que o ventrículo esquerdo tem tempo de se adaptar à sobrecarga de volume, na forma aguda o ventrículo não está preparado para receber o volume regurgitante súbito. Isso resulta em aumento abrupto da pressão diastólica final do ventrículo esquerdo, elevação da pressão atrial esquerda e congestão pulmonar — o que explica a insuficiência respiratória e a necessidade de intubação. A queda do débito cardíaco efetivo, por sua vez, leva à hipotensão e ao rebaixamento do nível de consciência, configurando um quadro de choque cardiogênico.
O achado na curva de pressão arterial invasiva é o dado semiológico decisivo. Na insuficiência aórtica, o sangue regurgita da aorta para o ventrículo esquerdo durante a diástole, o que reduz a pressão diastólica arterial de forma acentuada. Isso gera um aumento da pressão de pulso (diferença entre pressão sistólica e diastólica) e o desaparecimento do nó dicrótico — a pequena incisura na curva descendente da onda de pulso, que corresponde ao fechamento da valva aórtica. Quando a valva não fecha adequadamente, esse marco desaparece. Esses dois achados, em conjunto, são praticamente patognomônicos de insuficiência aórtica aguda.
A distinção fundamental que a questão explora é entre insuficiência aórtica aguda e estenose aórtica aguda. Enquanto a insuficiência aórtica se caracteriza por regurgitação e, portanto, por pressão de pulso alargada e perda do nó dicrótico, a estenose aórtica se caracteriza por obstrução da via de saída do ventrículo esquerdo, com pressão de pulso estreita e curva de pulso com parvus et tardus (pulso pequeno e tardio). A banca troca exatamente esses dois conceitos, explorando a confusão entre as duas valvopatias aórticas.
Guarde, portanto, o par de achados hemodinâmicos que separa as alternativas: pressão de pulso alargada + perda do nó dicrótico = insuficiência aórtica; pressão de pulso estreita + pulso parvus et tardus = estenose aórtica. É exatamente nessa fronteira que as alternativas se dividem.
Insuficiência aórtica aguda: Mecanismo (Regurgitação na diástole, VE não compensa volume súbito); Hemodinâmica (Pressão de pulso alargada, Perda do nó dicrótico); Clínica (Congestão pulmonar (EAP), Choque cardiogênico); Tratamento (Cirurgia de emergência)
Alternativa A — ❌ Incorreta
A taquicardia ventricular é uma arritmia que pode ocorrer no contexto de uma endocardite, especialmente se houver abscesso miocárdico ou isquemia, mas não explica o achado específico na curva de pressão arterial invasiva. Na taquicardia ventricular, o que se observa é uma taquicardia com QRS alargado, e a curva de pressão arterial pode mostrar hipotensão, mas não há o padrão de aumento da pressão de pulso com perda do nó dicrótico. O diagnóstico de taquicardia ventricular é eletrocardiográfico, não hemodinâmico.
Alternativa B — ❌ Incorreta
O bloqueio atrioventricular total (BAVT) é uma complicação clássica da endocardite infecciosa quando há formação de abscesso no septo interventricular, que pode acometer o sistema de condução. No entanto, o BAVT se manifesta com bradicardia, não com hipotensão por choque cardiogênico com pressão de pulso alargada. O achado na curva de pressão arterial invasiva descrito no enunciado não é compatível com BAVT, que cursaria com bradicardia e, possivelmente, hipotensão, mas sem o padrão de insuficiência aórtica.
Alternativa C — ❌ Incorreta
A embolização séptica é uma complicação frequente da endocardite infecciosa, especialmente com vegetações grandes e com Staphylococcus aureus. Pode causar hipotensão e rebaixamento do nível de consciência se houver embolia cerebral, e insuficiência respiratória se houver embolia pulmonar. No entanto, a embolização séptica não explica o achado específico na curva de pressão arterial invasiva de aumento da pressão de pulso e perda do nó dicrótico, que é um sinal de disfunção valvar aórtica, não de embolia.
Alternativa D — ❌ Incorreta
A estenose aórtica aguda é uma condição rara e não se encaixa no quadro. A estenose aórtica se caracteriza por obstrução da via de saída do ventrículo esquerdo, levando a um pulso parvus et tardus (pulso pequeno e tardio) e pressão de pulso estreita, não alargada. Além disso, a estenose aórtica aguda não é uma complicação típica da endocardite infecciosa, que costuma causar insuficiência valvar por destruição das cúspides, e não estenose. A banca troca exatamente o mecanismo fisiopatológico: na endocardite, a destruição valvar leva à regurgitação, não à obstrução.
Alternativa E — ✅ Correta ⟵ GABARITO
A insuficiência aórtica aguda é a complicação mecânica mais temida da endocardite infecciosa da valva aórtica. A destruição das cúspides valvares pelo processo infeccioso leva a uma regurgitação maciça e súbita, que o ventrículo esquerdo não consegue compensar. Isso resulta em congestão pulmonar (insuficiência respiratória), queda do débito cardíaco (hipotensão e rebaixamento do nível de consciência) e choque cardiogênico. O achado na curva de pressão arterial invasiva de aumento da pressão de pulso e perda do nó dicrótico é o sinal hemodinâmico clássico dessa condição, pois a regurgitação diastólica reduz a pressão diastólica arterial e impede o fechamento adequado da valva aórtica, que é o que gera o nó dicrótico. O tratamento é cirúrgico de emergência, com substituição valvar, conforme indicado na tabela de indicações cirúrgicas para endocardite: "Endocardite aórtica ou mitral com insuficiência grave, obstrução ou fístula causando EAP ou choque cardiogênico" é indicação de cirurgia de emergência (em 24 horas).
NÃO CAIA NESSA!
A banca explora a confusão entre as duas valvopatias aórticas: na insuficiência aórtica (gabarito), o sangue regurgita na diástole → pressão de pulso alargada e perda do nó dicrótico; na estenose aórtica (alternativa D), há obstrução da via de saída → pressão de pulso estreita e pulso parvus et tardus. O candidato que decora apenas "valvopatia aórtica na endocardite" sem diferenciar o mecanismo cai na armadilha. Lembre-se: endocardite destrói a valva → causa insuficiência, não estenose.