Questão de Medicina — Medicina Intensiva — FGV 2023
Medicina›Medicina Intensiva
Código
fg064555
Banca
FGV
Órgão
FHEMIG
Ano
2023
Nível
Superior
Cargo
Médico - Medicina Intensiva Pediátrica
Paciente com quadro de insuficiência respiratória com padrão obstrutivo pulmonar, necessita de suporte ventilatório.Assinale a opção que indica a melhor maneira de ventilar esse tipo de patologia.
AAumentar a FR e a PEEP.
BDiminuir o TI.
CDiminuir a PIP.
DDiminuir a FR e a PEEP.
EAumentar FiO₂ .
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GabaritoD — Diminuir a FR e a PEEP.
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Ventilação mecânica na doença obstrutiva pulmonar
Gabarito: letra D. Em pacientes com padrão obstrutivo (como DPOC exacerbado ou asma grave), a estratégia ventilatória visa reduzir a hiperinsuflação dinâmica e o auto-PEEP, o que se consegue diminuindo a frequência respiratória (FR) e a PEEP, permitindo maior tempo expiratório e evitando aprisionamento aéreo. A base fisiopatológica está na obstrução ao fluxo aéreo, que gera tempo expiratório prolongado e aprisionamento de gás, e a conduta correta é exatamente o oposto do que se faz na SDRA (onde se aumenta PEEP e se usa FR mais alta).
A insuficiência respiratória com padrão obstrutivo é caracterizada por aumento da resistência das vias aéreas, o que dificulta a expiração e leva ao aprisionamento aéreo progressivo. Quando o paciente é submetido à ventilação mecânica, esse aprisionamento se manifesta como auto-PEEP (ou PEEP intrínseca), que aumenta o trabalho respiratório, dificulta o disparo do ventilador e pode causar hipotensão por redução do retorno venoso. O objetivo central da ventilação nesses pacientes é, portanto, permitir que o ar aprisionado saia, o que se faz aumentando o tempo expiratório e reduzindo o volume corrente e a frequência respiratória.
A PEEP externa, nesse contexto, tem papel paradoxal: se aplicada em valores próximos ao auto-PEEP, pode "igualar" as pressões e facilitar o disparo; porém, se aplicada em excesso, piora a hiperinsuflação. Por isso, a conduta clássica é usar PEEP baixa (ou até ZEEP em asmáticos graves) e FR baixa, com relação I:E prolongada (1:3 a 1:5), tolerando hipercapnia permissiva. Isso contrasta com a SDRA, onde se usa PEEP alta e FR mais elevada para recrutamento alveolar.
Na prática, um paciente com DPOC exacerbado intubado deve ser ventilado com volume corrente de 6-8 mL/kg, FR de 8-10 ipm, fluxo inspiratório alto (para encurtar o tempo inspiratório) e PEEP mínima ou ajustada ao auto-PEEP. A monitorização do auto-PEEP pela pausa expiratória é essencial, e a sedação deve ser usada para reduzir o trabalho respiratório e a assincronia.
A pegadinha desta questão está em inverter a lógica: muitos candidatos aplicam a estratégia da SDRA (aumentar PEEP e FR) ao paciente obstrutivo, o que seria catastrófico. A banca explora exatamente essa confusão entre os dois padrões ventilatórios.
Ventilação mecânica no padrão obstrutivo: Objetivo (Reduzir hiperinsuflação dinâmica, Reduzir auto-PEEP, Permitir expiração completa); Estratégia correta (Diminuir FR (8–10 ipm), Diminuir PEEP (ou ZEEP), Aumentar tempo expiratório (I:E 1:3–1:5), Tolerar hipercapnia permissiva); Parâmetros (VC 6–8 mL/kg, Fluxo inspiratório alto, Monitorar auto-PEEP (pausa expiratória)); Contraste com SDRA (SDRA: [+] PEEP alta, FR mais alta, Obstrutivo: [-] PEEP baixa, FR baixa)
Alternativa A — ❌ Incorreta
Aumentar a FR e a PEEP é a estratégia oposta à correta. Aumentar a FR reduz o tempo expiratório, agravando o aprisionamento aéreo e o auto-PEEP. Aumentar a PEEP, em paciente obstrutivo, pode piorar a hiperinsuflação dinâmica, especialmente se já houver auto-PEEP elevado. Essa conduta seria adequada para SDRA, não para obstrução.
Alternativa B — ❌ Incorreta
Diminuir o tempo inspiratório (TI) é uma medida que, isoladamente, pode até ajudar a aumentar o tempo expiratório, mas não é a resposta completa. A questão pede a "melhor maneira" de ventilar, e a alternativa D aborda os dois parâmetros principais (FR e PEEP). Além disso, diminuir o TI sem ajustar a FR pode não ser suficiente para evitar o aprisionamento.
Alternativa C — ❌ Incorreta
Diminuir a pressão inspiratória de pico (PIP) é uma consequência desejável, mas não é uma estratégia de ajuste primário. A PIP é determinada pela resistência das vias aéreas, fluxo e volume corrente; reduzi-la diretamente pode comprometer a ventilação. O foco deve estar em reduzir a FR e a PEEP para permitir a expiração completa.
Alternativa D — ✅ Correta ⟵ GABARITO
Diminuir a FR e a PEEP é a estratégia correta para o padrão obstrutivo. A FR baixa (8-10 ipm) aumenta o tempo expiratório, permitindo que o ar aprisionado saia e reduzindo o auto-PEEP. A PEEP baixa (ou ajustada ao auto-PEEP) evita piorar a hiperinsuflação. Essa combinação é o pilar da ventilação protetora em DPOC/asma.
Alternativa E — ❌ Incorreta
Aumentar a FiO₂ trata a hipoxemia, mas não aborda o problema ventilatório central do padrão obstrutivo, que é o aprisionamento aéreo. A oxigenação pode até melhorar, mas a hipercapnia e o auto-PEEP persistem, podendo levar a falência ventilatória. A FiO₂ deve ser ajustada para manter SpO₂ > 90%, mas não é a "melhor maneira" de ventilar.