Questão de Medicina — Medicina Intensiva — FGV 2023
Medicina›Medicina Intensiva
Código
fg064567
Banca
FGV
Órgão
FHEMIG
Ano
2023
Nível
Superior
Cargo
Médico - Medicina de emergência
Paciente do sexo feminino, 70 anos, dá entrada no ProntoSocorro com o relato de ter aferido a pressão arterial em casa e ela estar alta. Refere ter passado por situação estressante há uma hora e ainda ter má-aderência à medicação anti-hipertensiva. À admissão, PA 170x98mmHg, sem outros sintomas e sem alterações de exame clínico.Com relação a essa paciente, assinale a afirmativa correta.
ATrata-se de uma emergência hipertensiva – paciente deve ser admitida na sala de emergência imediatamente e há indicação de iniciar nitroprussiato intravenoso.
BTrata-se de uma urgência hipertensiva – paciente pode ser manejada na sala de medicação do Pronto-Socorro e reavaliada. Realizar hidralazina em bolus intravenosa.
CTrata-se de uma urgência hipertensiva – mandatória coleta de exames laboratoriais de lesão de órgão-alvo e de realização de fundoscopia. Realizar captopril sublingual.
DNão há urgência nem emergência hipertensiva – realizar nifedipino sublingual, visando à PA < 140x90mmHg e orientar procurar cardiologista.
ENão há urgência nem emergência hipertensiva – pode-se realizar medicação anti-hipertensiva oral com efeito ansiolítico, como clonidina. Orientar melhor controle pressórico e retorno breve em médico da família.
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GabaritoE — Não há urgência nem emergência hipertensiva – pode-se realizar medicação anti-hipertensiva oral com efeito ansiolítico, como clonidina. Orientar melhor controle pressórico e retorno breve em médico da família.
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Crise hipertensiva: urgência × emergência e conduta no pronto-socorro
Gabarito: letra E. A paciente apresenta elevação da PA (170x98 mmHg) sem sintomas e sem lesão de órgão-alvo (LOA), caracterizando uma elevação importante da PA sem LOA aguda (anteriormente denominada urgência hipertensiva), que não requer tratamento intravenoso nem internação — pode ser manejada com medicação oral, como clonidina, e reavaliação ambulatorial precoce. A conduta está alinhada às diretrizes brasileiras de hipertensão arterial, que recomendam, para esses casos, reavaliação ambulatorial em 1 a 7 dias com alvo de PAS < 160 e PAD < 100 mmHg.
A crise hipertensiva é um termo genérico que engloba duas situações distintas: a emergência hipertensiva (EH) e a urgência hipertensiva (UH). A distinção fundamental não é o valor absoluto da PA, mas a presença ou ausência de lesão aguda de órgão-alvo (LOA). Na EH, há elevação acentuada da PA (tipicamente PAS > 180 mmHg e/ou PAD > 120 mmHg) associada a LOA aguda ou progressiva, como encefalopatia hipertensiva, AVC, edema agudo de pulmão, síndrome coronariana aguda, dissecção de aorta, insuficiência renal aguda, eclâmpsia, entre outras. Na UH, há elevação acentuada da PA, mas sem LOA aguda — o paciente pode até ter sintomas inespecíficos (cefaleia, tontura), mas não há disfunção iminente de órgão-alvo.
No caso da paciente, a PA de 170x98 mmHg está abaixo do limiar clássico de EH (180x120 mmHg), e ela não apresenta sintomas nem alterações ao exame clínico. O relato de situação estressante e má aderência à medicação anti-hipertensiva são fatores que explicam a elevação, mas não configuram LOA. Portanto, trata-se de uma elevação importante da PA sem LOA aguda (UH). A conduta recomendada é: observação em ambiente calmo, que pode reduzir a PA em 10-20 mmHg; retomada da medicação anti-hipertensiva oral habitual (ou início de tratamento oral se não houver diagnóstico prévio); e reavaliação ambulatorial precoce (em 1 a 7 dias). Não há indicação de internação, exames laboratoriais de rotina, fundoscopia ou medicação intravenosa.
A clonidina é uma opção válida para o tratamento da UH, com ação rápida (30-60 minutos) e dose de 0,100-0,200 mg. Ela também tem efeito ansiolítico, o que pode ser útil em casos de elevação da PA associada a estresse. Outras opções orais incluem captopril (25-50 mg) e hidralazina (12,5-25 mg). É importante destacar que o nifedipino sublingual é contraindicado no tratamento da UH, pois causa redução rápida e acentuada da PA, podendo levar a isquemia tecidual (AVC, IAM).
A pegadinha central desta questão é a classificação correta da crise hipertensiva. A banca tenta confundir o candidato ao sugerir que qualquer elevação da PA é uma emergência ou urgência hipertensiva, quando na verdade o que define a conduta é a presença de LOA. A paciente não tem LOA, logo não é EH. E, embora tenha PA elevada, não se trata de uma UH clássica que exija medicação imediata — a conduta pode ser mais conservadora, com observação e reavaliação. A alternativa E captura exatamente essa nuance: não há urgência nem emergência, mas pode-se usar medicação oral (clonidina) e orientar seguimento.
Critério
Emergência Hipertensiva (EH)
Urgência Hipertensiva (UH)
Elevação sem LOA (caso da paciente)
Definição
PA elevada + lesão aguda de órgão-alvo (LOA)
PA elevada + sintomas, sem LOA aguda
PA elevada, assintomática, sem LOA
PA típica
PAS > 180 e/ou PAD > 120 mmHg
PAS > 180 e/ou PAD > 120 mmHg
PA < 180x120 mmHg (ex.: 170x98)
Conduta
Internação imediata + anti-hipertensivo IV (ex.: nitroprussiato)
Observação em ambiente calmo + retomada de medicação oral (ex.: clonidina) + reavaliação em 1-7 dias
Exames
Mandatórios (LOA)
Guiados por suspeita clínica
Não mandatórios de rotina
Crise hipertensiva: Emergência (com LOA aguda) (Encefalopatia, AVC, EAP, Dissecção de aorta, SCA, Tratamento IV imediato); Urgência (sem LOA aguda) (PA elevada + sintomas inespecíficos, Conduta: medicação oral, Reavaliação em 1-7 dias); Elevação sem LOA (caso da paciente) (PA 170x98, assintomática, Conduta: observação + clonidina oral, Nifedipino sublingual contraindicado)
Alternativa A — ❌ Incorreta
Classifica como emergência hipertensiva e indica nitroprussiato intravenoso. A paciente não tem LOA, portanto não é EH. O nitroprussiato é reservado para EH com LOA, como encefalopatia hipertensiva, dissecção de aorta ou edema agudo de pulmão. Além disso, a PA de 170x98 mmHg não atinge o limiar clássico de EH (PAS > 180 mmHg).
Alternativa B — ❌ Incorreta
Classifica como urgência hipertensiva e indica hidralazina em bolus intravenosa. Embora a classificação de UH seja defensável (elevação da PA sem LOA), a conduta está errada: a UH não requer medicação intravenosa, que é reservada para EH. A hidralazina IV é usada em emergências específicas (ex.: eclâmpsia), não em UH. O manejo da UH é com medicação oral e reavaliação ambulatorial.
Alternativa C — ❌ Incorreta
Classifica como urgência hipertensiva e considera mandatória a coleta de exames laboratoriais e fundoscopia. Na UH, a investigação de LOA é guiada pela suspeita clínica, não é mandatória em todos os casos. A paciente é assintomática e sem alterações ao exame, então não há indicação de exames complementares de rotina. Além disso, o captopril sublingual não é a via recomendada (a via oral é preferível).
Alternativa D — ❌ Incorreta
Afirma que não há urgência nem emergência, mas indica nifedipino sublingual com alvo de PA < 140x90 mmHg. O nifedipino sublingual é contraindicado no tratamento da crise hipertensiva, pois causa redução rápida e imprevisível da PA, podendo provocar isquemia cerebral ou miocárdica. Além disso, a meta de PA < 140x90 mmHg é agressiva demais para uma elevação sem LOA; o alvo recomendado é PAS < 160 e PAD < 100 mmHg.
Alternativa E — ✅ Correta ⟵ GABARITO
Corretamente classifica a situação como sem urgência nem emergência hipertensiva (elevação importante da PA sem LOA aguda) e propõe conduta adequada: medicação anti-hipertensiva oral com efeito ansiolítico, como clonidina, além de orientar melhor controle pressórico e retorno breve ao médico da família. A clonidina é uma opção válida para UH, com ação rápida e efeito ansiolítico, e a reavaliação ambulatorial precoce (1 a 7 dias) é a recomendação das diretrizes.
NÃO CAIA NESSA!
A banca explora a confusão entre urgência e emergência hipertensiva. O candidato tende a classificar qualquer PA elevada como urgência ou emergência, mas o que define a conduta é a presença de lesão de órgão-alvo (LOA). A paciente não tem LOA, logo não é emergência. E, embora a PA esteja elevada, a conduta pode ser conservadora (observação + medicação oral + reavaliação). Fique atento: a alternativa D parece correta ao dizer que não há urgência/emergência, mas erra ao indicar nifedipino sublingual, que é contraindicado. A alternativa E acerta ao usar clonidina oral e orientar seguimento.