Pular para o conteúdo principal

Questão de Medicina — Medicina Intensiva — FGV 2023

MedicinaMedicina Intensiva
Código
fg064572
Banca
FGV
Órgão
FHEMIG
Ano
2023
Nível
Superior
Cargo
Médico - Medicina de emergência
Considere pacientes trazidos à sala de emergência sob insuficiência respiratória.Assinale a opção que indica a situação clínica que apresenta, segundo a literatura médica, o maior benefício à utilização de ventilação não invasiva (VNI) nesse cenário.
  1. APaciente com o diagnóstico de edema agudo de pulmão (EAP) hipertensivo.
  2. BPaciente com o diagnóstico de tromboembolismo pulmonar (TEP) maciço.
  3. CPaciente com o diagnóstico de doença pulmonar obstrutiva crônica (DPOC) exacerbada, com a seguinte gasometria arterial em ar ambiente: pH: 7,41; pO₂ : 50; pCO₂ : 60; HCO₃ :35; BE: +11; SatO₂ : 84%.
  4. DPaciente com o diagnóstico de doença pulmonar obstrutiva crônica (DPOC) exacerbada, com a seguinte gasometria arterial em ar ambiente: pH: 7,13; pO₂ : 65; pCO₂ : 80; HCO₃ : 23; BE: -1, SatO₂ : 91%.
  5. EPaciente portador de Síndrome de Imunodeficiência Adquirida (SIDA) e suspeita de pneumocistose.
Revelar gabarito e comentário

GabaritoD — Paciente com o diagnóstico de doença pulmonar obstrutiva crônica (DPOC) exacerbada, com a seguinte gasometria arterial em ar ambiente: pH: 7,13; pO₂ : 65; pCO₂ : 80; HCO₃ : 23; BE: -1, SatO₂ : 91%.

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

Ventilação não invasiva (VNI) na insuficiência respiratória aguda

Gabarito: letra D. O maior benefício da VNI na sala de emergência ocorre na exacerbação de DPOC com acidose respiratória aguda (pH 7,13, pCO₂ 80), pois a VNI é tratamento de primeira linha nesse cenário, reduzindo intubação e mortalidade. A alternativa C, apesar de também ser DPOC, apresenta pH 7,41 — sem acidemia —, situação em que a VNI não é sugerida, conforme as diretrizes da ERS/ATS.

A ventilação não invasiva (VNI) consiste na aplicação de pressão positiva nas vias aéreas por meio de uma interface não invasiva (máscara nasal, facial, oronasal ou capacete), sem necessidade de intubação orotraqueal. Seus modos principais são o CPAP (pressão contínua, usado para hipoxemia) e o BiPAP (dois níveis de pressão, usado para hipercapnia). A VNI é uma ferramenta poderosa na emergência, capaz de reduzir taxas de intubação, tempo de internação e mortalidade, mas seu uso deve ser criterioso: quando aplicada de forma incorreta ou em pacientes sem indicação, pode aumentar a mortalidade.

A principal indicação de VNI com maior nível de evidência é a exacerbação aguda da DPOC com acidose respiratória. O mecanismo é claro: a DPOC exacerbada cursa com aumento da resistência das vias aéreas, hiperinsuflação dinâmica e fadiga muscular respiratória, levando à hipoventilação alveolar e hipercapnia. A VNI com BiPAP descansa a musculatura inspiratória, aumenta o volume corrente, melhora a ventilação alveolar e reduz a PaCO₂, corrigindo o pH. Esse efeito fisiológico se traduz em desfechos clínicos robustos: redução da necessidade de intubação orotraqueal, menor tempo de internação, menos complicações e menor mortalidade hospitalar.

O ponto central para a indicação é o pH, não a PaCO₂ isoladamente. As diretrizes da ERS/ATS (2017) recomendam fortemente o uso de BiPAP em pacientes com insuficiência respiratória associada a acidose respiratória aguda ou crônica agudizada (pH ≤ 7,35, PaCO₂ ≥ 45 mmHg e FR > 20-24 ipm). Por outro lado, a VNI não é sugerida em pacientes hipercápnicos sem acidemia — ou seja, com pH normal, mesmo que a PaCO₂ esteja elevada. Isso porque, nesses casos, os estudos não mostraram benefício significativo da VNI em relação ao tratamento padrão. A acidemia é o marcador de gravidade que identifica o paciente que se beneficiará da VNI.

Na prática, a decisão na emergência segue um raciocínio: diante de um paciente com DPOC exacerbada, avaliamos a gasometria arterial. Se houver acidose respiratória (pH < 7,35 com PaCO₂ elevada), a VNI é fortemente indicada. Se o pH estiver normal, mesmo com hipercapnia, a VNI não traz benefício comprovado e o tratamento padrão (broncodilatadores, corticoide, oxigenação) é suficiente. A alternativa D apresenta exatamente o cenário de maior benefício: pH 7,13 (acidose importante), pCO₂ 80 (hipercapnia grave), com bicarbonato normal (23), indicando acidose respiratória aguda. Já a alternativa C, com pH 7,41 e pCO₂ 60, mostra hipercapnia compensada (HCO₃ 35, BE +11), sem acidemia — situação em que a VNI não é recomendada.

É importante distinguir a DPOC de outras causas de insuficiência respiratória. No edema agudo de pulmão cardiogênico, a VNI (CPAP ou BiPAP) também é fortemente recomendada, com redução de intubação e mortalidade. No TEP maciço, a VNI não é a terapia de escolha — o tratamento é a reperfusão (trombólise ou embolectomia), e a VNI pode até ser prejudicial por reduzir o retorno venoso. Na pneumocistose em paciente com SIDA, a VNI pode ser considerada em imunossuprimidos, mas a evidência é condicional e controversa, com estudos recentes questionando seu benefício. A DPOC com acidose, portanto, é a situação com maior benefício comprovado.

A pegadinha desta questão está em não confundir hipercapnia com acidose. A alternativa C tem PaCO₂ elevada (60), o que pode levar o candidato a pensar que há indicação de VNI. No entanto, o pH está normal (7,41), pois o paciente tem acidose respiratória crônica compensada (HCO₃ 35, BE +11). A VNI não é indicada nesse caso. A alternativa D, com pH 7,13, é a única com acidose respiratória aguda descompensada, cenário de maior benefício.

Guarde o critério decisivo: pH ≤ 7,35 com PaCO₂ ≥ 45 define a indicação de VNI na DPOC exacerbada. É exatamente nessa fronteira que as alternativas se dividem.

VNI na insuficiência respiratória aguda
  • 1Critério decisivo (DPOC)
    • pH ≤ 7,35 + PaCO₂ ≥ 45 → VNI indicada
    • pH normal + PaCO₂ alta → VNI não sugerida
  • 2Cenários clínicos
    • DPOC com acidose respiratória
      • Maior benefício (reduz intubação e mortalidade)
    • EAP cardiogênico
      • VNI recomendada (CPAP/BiPAP)
    • TEP maciço
      • VNI não é a escolha (reperfusão)
    • Pneumocistose (SIDA)
      • Evidência condicional e controversa
LEVEL · soulevel.com.br

Alternativa A — ❌ Incorreta

O EAP hipertensivo (cardiogênico) tem indicação de VNI (CPAP ou BiPAP) com forte recomendação, mas o benefício é comparável ao da DPOC com acidose, não superior. A questão pede o maior benefício segundo a literatura, e a DPOC com acidose respiratória aguda é a indicação clássica com maior nível de evidência e impacto em desfechos. Além disso, no EAP, a VNI é uma das opções, mas o tratamento farmacológico (vasodilatadores, diuréticos) é igualmente central.

Alternativa B — ❌ Incorreta

No TEP maciço, a VNI não é a terapia de escolha. O tratamento definitivo é a reperfusão (trombólise ou embolectomia), e a VNI pode até ser deletéria, pois a pressão positiva reduz o retorno venoso e pode agravar a instabilidade hemodinâmica. A insuficiência respiratória no TEP é predominantemente hipoxêmica, e a VNI tem papel controverso nesse cenário.

Alternativa C — ❌ Incorreta

Esta é a pegadinha da questão. O paciente tem DPOC exacerbada com PaCO₂ elevada (60), mas pH normal (7,41) e bicarbonato elevado (35), caracterizando acidose respiratória crônica compensada. As diretrizes ERS/ATS não sugerem VNI em pacientes hipercápnicos sem acidemia. A hipercapnia isolada, sem queda do pH, não é indicação de VNI — o tratamento padrão é suficiente.

Alternativa D — ✅ Correta ⟵ GABARITO

Paciente com DPOC exacerbada e acidose respiratória aguda: pH 7,13 (< 7,35), PaCO₂ 80 (≥ 45), bicarbonato normal (23), indicando acidose respiratória aguda descompensada. Este é o cenário de maior benefício da VNI, com recomendação forte e alta qualidade de evidência. A VNI com BiPAP reduz intubação, tempo de internação e mortalidade nesses pacientes.

Alternativa E — ❌ Incorreta

Na pneumocistose em paciente com SIDA (imunossuprimido), a VNI pode ser considerada precocemente, mas a recomendação é condicional e a evidência é controversa — estudos recentes questionam seu benefício real. Não é a situação com maior benefício comprovado em comparação com a DPOC com acidose.

NÃO CAIA NESSA!

A banca explora a confusão entre hipercapnia e acidose. A alternativa C tem PaCO₂ elevada (60), o que parece indicar VNI, mas o pH está normal (7,41) — é uma hipercapnia crônica compensada, sem acidemia. A VNI só é fortemente indicada quando há acidose respiratória (pH ≤ 7,35). Na prova, desconfie de alternativas com PaCO₂ alta e pH normal: a VNI não é sugerida nesse caso.

PEGA ESSA DICA!

Para questões de VNI na DPOC, foque no pH como o gatilho decisivo. Monte o raciocínio: pH ≤ 7,35 + PaCO₂ ≥ 45 → VNI indicada (forte recomendação). pH normal + PaCO₂ alta → VNI não sugerida. pH < 7,25 → VNI ainda indicada, mas com monitorização rigorosa e prontidão para intubação.

Gabarito: letra D

Link permanente: /questoes/fg064572