Questão de Medicina — Pediatria e Neonatologia — FGV 2023
- Código
- fg064619
- Banca
- FGV
- Órgão
- FHEMIG
- Ano
- 2023
- Nível
- Superior
- Cargo
- Médico - Neonatologia
- AIgA.
- BIgE.
- CIgG.
- DIgM.
- EIgS.
GabaritoD — IgM.
Gabarito: letra D. Fetos e recém-nascidos respondem a antígenos proteicos (como os da rubéola, CMV e toxoplasmose) produzindo predominantemente anticorpos da classe IgM, pois a resposta imune inicial a esses antígenos é do tipo primária, e a IgM é o primeiro isótipo produzido. A incapacidade de responder a polissacarídeos (como o do pneumococo) decorre da imaturidade do sistema imune para antígenos T-independentes, que não geram resposta eficaz de IgM nessa fase.
A questão explora um conceito central da imunologia do desenvolvimento: a maturidade da resposta imune humoral em fetos e recém-nascidos. Para entender, é preciso distinguir os dois grandes tipos de antígenos quanto à dependência de linfócitos T. Antígenos proteicos são T-dependentes: exigem a ajuda de linfócitos T CD4+ para ativar plenamente os linfócitos B, permitindo a troca de isótipo (switch) e a maturação de afinidade. Antígenos polissacarídicos são T-independentes: estimulam diretamente os linfócitos B, mas essa via é imatura no recém-nascido, o que explica a baixa resposta a vacinas como a pneumocócica polissacarídica.
Quando o feto ou recém-nascido é exposto a um antígeno proteico (rubéola, CMV, toxoplasmose), ele monta uma resposta imune primária. Na resposta primária, o primeiro anticorpo produzido é a IgM, que aparece já nos primeiros dias e declina em semanas. A IgG surge depois, em resposta secundária ou após maturação da resposta. Por isso, a detecção de IgM específica é marcador de infecção aguda ou recente — exatamente o que se usa no diagnóstico de toxoplasmose congênita, rubéola e CMV congênitos.
A IgM é um pentâmero, com grande capacidade de ativar o complemento, mas não atravessa a placenta. Já a IgG atravessa a placenta (transporte ativo via FcRn) e confere imunidade passiva ao recém-nascido. A IgA é secretora, predominante em mucosas e leite materno. A IgE medeia hipersensibilidade imediata e defesa contra parasitas. A IgD atua como receptor na superfície de linfócitos B naïve. A alternativa E ("IgS") não existe como classe de imunoglobulina — é um distrator inventado.
A pegadinha da banca está em inverter o raciocínio: como a IgG é a imunoglobulina que atravessa a placenta e predomina no sangue do recém-nascido, o candidato pode marcar IgG. Mas a questão pergunta o que o próprio feto/RN produz em resposta ao antígeno, não o que recebe passivamente da mãe. A IgG presente no RN é, em grande parte, materna; a produção ativa fetal é predominantemente IgM. Guarde essa fronteira: IgG = passiva/materna; IgM = produção ativa fetal/neonatal — é exatamente nela que as alternativas se dividem.
A IgA é a imunoglobulina secretora, predominante nas mucosas (saliva, lágrimas, leite materno) e na imunidade de superfícies. Não é a classe predominante na resposta sistêmica primária do feto/RN a antígenos proteicos. A IgA também não atravessa a placenta em quantidade significativa.
A IgE está envolvida em respostas alérgicas (hipersensibilidade tipo I) e na defesa contra helmintos. Não é a classe predominante na resposta a rubéola, CMV ou toxoplasmose. Sua produção no feto/RN é mínima e não tem papel relevante nesse contexto.
A IgG é a imunoglobulina mais abundante no soro e a única que atravessa a placenta, conferindo imunidade passiva ao recém-nascido. Porém, a IgG presente no RN é majoritariamente de origem materna. A produção ativa de IgG pelo feto é tardia e depende de maturação da resposta (troca de isótipo), não sendo a classe predominante na resposta primária a antígenos proteicos. A banca explora exatamente essa confusão entre IgG materna (passiva) e produção fetal.
A IgM é o primeiro isótipo produzido na resposta imune primária, tanto no adulto quanto no feto/RN. Antígenos proteicos (rubéola, CMV, toxoplasmose) induzem resposta T-dependente que, na primeira exposição, gera predominantemente IgM. Por isso, a detecção de IgM específica é marcador de infecção aguda/congênita. A IgM não atravessa a placenta, então sua presença no sangue do RN indica produção fetal ativa.
"IgS" não é uma classe de imunoglobulina. As cinco classes são IgA, IgD, IgE, IgG e IgM. A alternativa é um distrator puro, sem correspondência na imunologia.
A banca troca a produção ativa fetal (IgM) pela imunoglobulina que predomina no sangue do recém-nascido por transferência passiva (IgG). O candidato que lembra que "IgG atravessa a placenta" marca a letra C, mas a questão pergunta o que o feto produz, não o que recebe da mãe. A IgM não atravessa a placenta — se está presente no RN, é porque o próprio feto a produziu, indicando infecção congênita.
Na prova, ao ver "produção de anticorpos pelo feto/RN", pense IgM (resposta primária). Ao ver "anticorpos presentes no sangue do RN", pense IgG (passiva materna). Essa distinção resolve a maioria das questões de imunologia neonatal.
Gabarito: letra D
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