Questão de Medicina — Neurologia — FGV 2023
- Código
- fg064634
- Banca
- FGV
- Órgão
- FHEMIG
- Ano
- 2023
- Nível
- Superior
- Cargo
- Médico - Neurocirurgia
- AASIA A.
- BASIA D.
- CASIA B.
- DASIA E.
- EASIA C.
GabaritoC — ASIA B.
Gabarito: letra C (ASIA B). O paciente descrito apresenta manutenção da percepção sensorial, porém sem função motora abaixo do nível da lesão, incluindo os segmentos sacrais S4-S5 — exatamente a definição de lesão medular incompleta grau B na escala ASIA. A preservação da sensibilidade sacral (S4-S5) é o que diferencia a lesão incompleta (ASIA B, C, D) da lesão completa (ASIA A), e a ausência de função motora abaixo do nível lesional exclui os graus C, D e E.
A escala ASIA (American Spinal Injury Association Impairment Scale) é o instrumento padrão para classificar a gravidade da lesão medular após um trauma raquimedular. Ela avalia a função neurológica abaixo do nível da lesão, dividindo os pacientes em cinco graus (A a E), que vão desde a lesão completa (sem função motora e sensitiva) até a função neurológica normal. O exame neurológico deve ser realizado de forma sistemática, incluindo a avaliação da sensibilidade e da força muscular nos dermátomos e miótomos-chave, além do exame retal para verificar a preservação da função sacral.
O ponto central da classificação é a presença ou ausência de poupança sacral (preservação da sensibilidade ou motricidade nos segmentos S4-S5). A presença de poupança sacral indica que a lesão é incompleta, pois há continuidade de algumas fibras nervosas através da medula lesionada. Essa distinção é crucial para o prognóstico: lesões incompletas têm maior potencial de recuperação neurológica, enquanto lesões completas (ASIA A) têm prognóstico mais reservado. O exame retal e a avaliação do reflexo bulbocavernoso são fundamentais nessa fase, pois a ausência do reflexo bulbocavernoso indica choque medular, impossibilitando a determinação precisa da extensão da lesão.
Na prática clínica, a escala ASIA é aplicada após a estabilização do paciente e a resolução do choque medular. O exame físico deve documentar o nível sensitivo e motor da lesão, ou seja, o último metâmero e/ou grupo muscular que o paciente sente ou movimenta. A classificação resultante orienta o prognóstico e as decisões terapêuticas, como a indicação de cirurgia e o planejamento da reabilitação. É importante destacar que a escala ASIA é frequentemente confundida com a classificação de Frankel, que é um sistema mais antigo e menos detalhado, mas que serviu de base para o desenvolvimento da escala ASIA.
A banca explora a confusão entre os graus da escala, especialmente a diferença entre ASIA B e ASIA C. No ASIA B, há preservação da sensibilidade, mas ausência completa de função motora abaixo do nível da lesão. No ASIA C, há preservação da sensibilidade e alguma função motora, mas com força muscular inferior a 3 na escala de Kendall (não útil). A presença de qualquer função motora abaixo do nível da lesão, mesmo que mínima, classifica o paciente como ASIA C ou D, dependendo da força muscular. Portanto, a ausência total de função motora é o critério decisivo que separa o ASIA B do ASIA C.
A banca adora inverter os critérios entre os graus da escala ASIA. Nesta questão, a pegadinha está em confundir ASIA B com ASIA C: no ASIA B, a sensibilidade está preservada, mas não há função motora; no ASIA C, há alguma função motora (força < 3). O candidato que memoriza apenas "B = sensibilidade preservada" sem fixar a ausência de motricidade pode marcar ASIA C erroneamente. Lembre-se: a presença de qualquer movimento voluntário abaixo do nível da lesão já exclui o ASIA B.
O ASIA A é a lesão completa, definida pela ausência de função motora e sensitiva abaixo do nível da lesão, incluindo os segmentos sacrais S4-S5. O enunciado afirma que há manutenção da percepção sensorial, o que exclui o ASIA A. A presença de sensibilidade, mesmo sem motricidade, caracteriza uma lesão incompleta.
O ASIA D é uma lesão incompleta com função motora preservada e útil, ou seja, força muscular maior ou igual a 3 na escala de Kendall. O paciente descrito não apresenta função motora abaixo do nível da lesão, portanto não pode ser classificado como ASIA D.
O ASIA B é definido pela preservação da função sensitiva, porém com ausência de função motora abaixo do nível da lesão, incluindo os segmentos sacrais S4-S5. Essa é exatamente a descrição do enunciado: manutenção da percepção sensorial, sem função motora. A preservação da sensibilidade sacral confirma que a lesão é incompleta, e a ausência de motricidade a classifica como grau B.
O ASIA E é definido pela função sensitiva e motora normais abaixo do nível da lesão. O paciente descrito apresenta ausência de função motora, o que exclui o ASIA E. Esse grau é reservado para pacientes sem déficit neurológico.
O ASIA C é uma lesão incompleta com preservação da sensibilidade e alguma função motora, porém não útil (força muscular menor que 3 na escala de Kendall). O enunciado afirma que não há função motora, o que exclui o ASIA C. A presença de qualquer movimento voluntário abaixo do nível da lesão seria necessária para classificar o paciente como ASIA C.
Gabarito: letra C (ASIA B).
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