Questão de Medicina — Neurologia — FGV 2023
- Código
- fg064662
- Banca
- FGV
- Órgão
- FHEMIG
- Ano
- 2023
- Nível
- Superior
- Cargo
- Médico - Neurologia Pediátrica
- AMigranea.
- BCefaleia em salva.
- CNarcolepsia.
- DCefaleia tipo tensional.
- ESíndrome das pernas inquietas.
GabaritoC — Narcolepsia.
Gabarito: letra C. As alucinações hipnagógicas (ao adormecer) e hipnopômpicas (ao despertar) são manifestações clássicas da narcolepsia, um distúrbio do sono caracterizado pela tríade sonolência excessiva diurna, cataplexia e alterações do sono REM — e é exatamente essa associação que a alternativa correta explora. As demais opções (migrânea, cefaleia em salva, cefaleia tensional e síndrome das pernas inquietas) são condições neurológicas que não apresentam essa correlação fisiopatológica com as alucinações relacionadas ao sono.
A narcolepsia é um distúrbio neurológico crônico do sono que afeta a regulação do ciclo sono-vigília. Sua principal característica é a sonolência excessiva diurna, mas o quadro clínico completo inclui a cataplexia (perda súbita do tônus muscular desencadeada por emoções), a paralisia do sono (incapacidade transitória de se mover ao acordar ou adormecer) e as alucinações hipnagógicas/hipnopômpicas. Essas alucinações são experiências sensoriais vívidas, frequentemente visuais ou auditivas, que ocorrem na transição entre a vigília e o sono — e representam a intrusão de elementos do sono REM (como os sonhos) no estado de consciência desperto. O mecanismo fisiopatológico central é a desregulação do sistema hipocretinérgico (orexina) no hipotálamo, que leva à fragmentação do sono REM e à sua ocorrência anormal durante a vigília.
Na prática clínica, um paciente com narcolepsia pode relatar, por exemplo, que ao cochilar durante o dia vê imagens ou ouve vozes que não existem (alucinação hipnagógica), ou que ao acordar pela manhã tem a sensação de uma presença no quarto (alucinação hipnopômpica). Essas experiências são frequentemente assustadoras e podem ser confundidas com sintomas psicóticos, mas a distinção fundamental é que ocorrem exclusivamente na transição sono-vigília e estão associadas aos demais sintomas da narcolepsia. O diagnóstico é clínico, podendo ser confirmado pela polissonografia e pelo teste de latência múltipla do sono (TLMS), que demonstra a latência reduzida para o início do sono REM.
A distinção que importa aqui é entre as alucinações relacionadas ao sono (narcolepsia) e as cefaleias primárias (migrânea, tensional, em salva). Enquanto as cefaleias são síndromes dolorosas com fisiopatologia própria — a migrânea envolve disfunção trigêmino-vascular, a cefaleia em salva envolve ativação do hipotálamo e do sistema trigêmino-autonômico, e a tensional está relacionada à tensão muscular e ao estresse —, as alucinações hipnagógicas/hipnopômpicas são fenômenos do sono REM que não fazem parte do espectro das cefaleias. A síndrome das pernas inquietas, por sua vez, é um distúrbio do movimento relacionado ao sono, caracterizado por sensações desagradáveis nas pernas e necessidade irresistível de movê-las, sem relação com alucinações.
A pegadinha que a banca explora neste tema é a tentação de associar as alucinações a condições psiquiátricas ou a outras doenças neurológicas, quando na verdade a correlação clássica e mais específica é com a narcolepsia. O candidato que não domina a semiologia do sono pode ser levado a escolher uma das cefaleias por serem temas mais frequentes em neurologia, mas a chave da questão está em reconhecer que as alucinações hipnagógicas/hipnopômpicas são um dos pilares do diagnóstico da narcolepsia, ao lado da cataplexia e da sonolência diurna.
Guarde a fronteira entre os fenômenos do sono REM (narcolepsia) e as síndromes dolorosas cranianas (cefaleias): é exatamente nela que as alternativas se dividem.
A migrânea (enxaqueca) é uma cefaleia primária caracterizada por crises de dor de intensidade moderada a forte, frequentemente unilateral, pulsátil, associada a náuseas, vômitos e fotofobia. Embora possa ter sintomas premonitórios e aura, não apresenta correlação com alucinações hipnagógicas ou hipnopômpicas. O erro da alternativa está em associar um fenômeno do sono REM a uma síndrome dolorosa craniana, cuja fisiopatologia é trigêmino-vascular e não envolve a desregulação do ciclo sono-vigília.
A cefaleia em salva é uma cefaleia trigêmino-autonômica caracterizada por crises de dor unilateral intensa, orbitária ou temporal, com duração de 15 a 180 minutos, acompanhadas de sintomas autonômicos ipsilaterais como lacrimejamento, hiperemia conjuntival e congestão nasal. Embora as crises possam ocorrer durante a noite e o paciente fique agitado, não há correlação com alucinações hipnagógicas ou hipnopômpicas. A confusão pode surgir pelo fato de a cefaleia em salva ter ritmicidade circadiana e ocorrência noturna, mas isso não a relaciona aos fenômenos alucinatórios do sono REM.
A narcolepsia é o distúrbio do sono que mantém estreita correlação com as alucinações hipnagógicas (ao adormecer) e hipnopômpicas (ao despertar). Essas alucinações são manifestações da intrusão do sono REM na vigília, um dos pilares diagnósticos da doença, juntamente com a sonolência excessiva diurna, a cataplexia e a paralisia do sono. A alternativa está correta porque nomeia exatamente a condição em que esses fenômenos são característicos e frequentes.
A cefaleia tipo tensional é a cefaleia primária mais comum, caracterizada por dor em aperto ou pressão, bilateral, de intensidade leve a moderada, sem sintomas acompanhantes significativos. Sua fisiopatologia está relacionada à tensão muscular e ao estresse, e não há qualquer associação com alucinações hipnagógicas ou hipnopômpicas. A alternativa erra ao propor uma correlação inexistente entre uma cefaleia comum e fenômenos do sono REM.
A síndrome das pernas inquietas é um distúrbio do movimento relacionado ao sono, caracterizado por sensações desagradáveis nas pernas (como formigamento ou dor) e necessidade irresistível de movê-las, que piora em repouso e melhora com o movimento. Embora seja um distúrbio do sono, não apresenta correlação com alucinações hipnagógicas ou hipnopômpicas. O erro está em confundir um distúrbio do movimento com um fenômeno alucinatório do sono REM.
A banca explora a tentação de associar as alucinações a condições mais "comuns" em neurologia, como as cefaleias. Mas a correlação clássica e específica é com a narcolepsia — lembre-se da tríade: sonolência diurna + cataplexia + alucinações hipnagógicas/hipnopômpicas. Com treino, você reconhece essa associação de longe 💪
Gabarito: letra C
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