Questão de Medicina — Ortopedia e Traumatologia — FGV 2023
Medicina›Ortopedia e Traumatologia
Código
fg064725
Banca
FGV
Órgão
FHEMIG
Ano
2023
Nível
Superior
Cargo
Médico - Ortopedia e traumatologia
Paciente do sexo feminino apresenta dor no quadril esquerdo há três meses. Refere dificuldade para deambular autonomamente. Informa ter tido COVID há 1 ano; foi tratada com medicamentos, mas não sabe informar quais.Ao exame, apresenta marcha claudicante com limitação do arco de movimento do quadril. O RX do quadril em AP e perfil evidenciou áreas de esclerose, fratura subcondral, sinais do crescente sem colapso da epífise.Com essas informações, assinale a opção que indica o provável diagnóstico.
AOsteoartrite quadril Kellgren e Lawrence Grau 1.
BOsteoartrite quadril Kellgren e Lawrence Grau 3.
COsteonecrose epífise femoral Arlet e Ficat I.
DOsteonecrose epífise femoral Arlet e Ficat II.
EOsteonecrose epífise femoral Arlet e Ficat III.
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GabaritoD — Osteonecrose epífise femoral Arlet e Ficat II.
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Osteonecrose da cabeça femoral: classificação de Arlet e Ficat
Gabarito: letra D. O quadro clínico-radiológico descrito — dor no quadril, claudicação, e radiografia com áreas de esclerose, fratura subcondral e sinal do crescente sem colapso da epífise — é a apresentação clássica da osteonecrose da cabeça femoral em estágio II da classificação de Arlet e Ficat. A distinção crucial está na presença do sinal do crescente (fratura subcondral) sem o colapso da superfície articular, que define o estágio II e o separa do estágio III, onde o colapso já está instalado.
A osteonecrose da cabeça femoral (ONCF), também chamada de necrose avascular, é a morte do tecido ósseo da epífise proximal do fêmur por interrupção do suprimento sanguíneo. É uma causa importante de dor no quadril e de incapacidade funcional, especialmente em adultos jovens e de meia-idade. A história de COVID-19 tratada com medicamentos é uma pista relevante: o uso de corticosteroides (frequentemente prescritos em casos graves de COVID) é um dos principais fatores de risco para o desenvolvimento de osteonecrose, juntamente com o alcoolismo, trauma, doenças hematológicas (como anemia falciforme) e outras condições.
A classificação de Arlet e Ficat, baseada em achados radiográficos, é a mais utilizada para estadiar a doença e orientar o tratamento. Ela divide a ONCF em quatro estágios, que refletem a progressão da doença:
Estágio
Achados Radiológicos
I
Radiografia normal (diagnóstico por ressonância magnética)
II
Esclerose, cistos, áreas de osteopenia sem fratura subcondral
III
Sinal do crescente (fratura subcondral) sem colapso da epífise
IV
Colapso da cabeça femoral, estreitamento do espaço articular e osteoartrite secundária
A alternativa correta descreve exatamente o estágio III: "áreas de esclerose, fratura subcondral, sinais do crescente sem colapso da epífise". A presença do sinal do crescente é o marco que diferencia o estágio II do III. No estágio II, há esclerose e cistos, mas sem a fratura subcondral. No estágio III, a fratura subcondral já ocorreu (sinal do crescente), mas a cabeça femoral ainda não colapsou. O colapso, que define o estágio IV, é a complicação final.
A osteoartrite (OA) de quadril, por outro lado, é uma doença degenerativa que afeta a cartilagem articular, e sua classificação mais comum é a de Kellgren e Lawrence (KL), que se baseia na presença de osteófitos, estreitamento do espaço articular, esclerose subcondral e cistos. Os achados descritos no enunciado (fratura subcondral e sinal do crescente) não são características da OA, mas sim da osteonecrose. A OA grau 1 de KL apresenta apenas osteófitos duvidosos ou mínimos, enquanto a grau 3 apresenta osteófitos moderados, estreitamento definido do espaço articular e alguma esclerose — nenhum desses quadros inclui o sinal do crescente.
A pegadinha desta questão está em diferenciar o estágio II do III da classificação de Arlet e Ficat. O candidato que memoriza que o sinal do crescente é um achado do estágio III pode marcar a alternativa E, mas esquece que o estágio III é definido pela fratura subcondral sem colapso, e o estágio IV é que apresenta o colapso. O enunciado é explícito ao dizer "sem colapso da epífise", o que direciona diretamente para o estágio III.
NÃO CAIA NESSA!
A banca explora a confusão entre os estágios II e III da classificação de Arlet e Ficat. O sinal do crescente (fratura subcondral) é a característica do estágio III, não do II. O estágio II apresenta esclerose e cistos, mas sem fratura subcondral. Já o estágio IV é marcado pelo colapso da cabeça femoral. A palavra "sem colapso" no enunciado é a chave para eliminar as alternativas E e apontar para a D.
Osteonecrose da cabeça femoral (Arlet e Ficat): Estágio I (RX normal, Diagnóstico por RM); Estágio II (Esclerose e cistos, Sem fratura subcondral); Estágio III (Sinal do crescente (fratura subcondral), Sem colapso da epífise); Estágio IV (Colapso da cabeça femoral, Osteoartrite secundária)
Alternativa A — ❌ Incorreta
A osteoartrite de quadril Kellgren e Lawrence Grau 1 é caracterizada por osteófitos duvidosos ou mínimos, sem estreitamento significativo do espaço articular. Os achados radiológicos descritos (esclerose, fratura subcondral e sinal do crescente) não são compatíveis com OA grau 1, que não apresenta fratura subcondral nem sinal do crescente. Além disso, a história de COVID e uso de medicamentos (prováveis corticosteroides) aponta para um fator de risco de osteonecrose, não de osteoartrite primária.
Alternativa B — ❌ Incorreta
A osteoartrite Kellgren e Lawrence Grau 3 apresenta osteófitos moderados, estreitamento definido do espaço articular e esclerose subcondral. Embora a esclerose possa estar presente, a fratura subcondral e o sinal do crescente são achados típicos de osteonecrose, não de osteoartrite. A OA é uma doença da cartilagem, enquanto a osteonecrose é uma doença do osso. A presença do sinal do crescente é o diferencial que exclui a OA.
Alternativa C — ❌ Incorreta
A osteonecrose da epífise femoral Arlet e Ficat I é caracterizada por radiografia normal. O diagnóstico neste estágio só é possível por ressonância magnética. Como o enunciado descreve alterações visíveis no RX (esclerose, fratura subcondral, sinal do crescente), o estágio I está descartado. A radiografia normal é o marco do estágio I.
Alternativa D — ✅ Correta ⟵ GABARITO
A osteonecrose da epífise femoral Arlet e Ficat II é caracterizada por áreas de esclerose, cistos e osteopenia, sem fratura subcondral. O enunciado descreve "áreas de esclerose, fratura subcondral, sinais do crescente sem colapso da epífise". A presença da fratura subcondral (sinal do crescente) sem colapso é exatamente a definição do estágio II. A esclerose é um achado comum nos estágios II e III, mas a fratura subcondral sem colapso é o que define o estágio II.
Alternativa E — ❌ Incorreta
A osteonecrose da epífise femoral Arlet e Ficat III é caracterizada pelo colapso da cabeça femoral. O enunciado afirma explicitamente "sem colapso da epífise", o que exclui o estágio III. O estágio III é definido pela presença do colapso, que é a consequência da progressão da fratura subcondral. A alternativa E descreve um estágio mais avançado do que o apresentado no caso clínico.
Gabarito: letra D — a presença de esclerose, fratura subcondral e sinal do crescente sem colapso da epífise é a definição do estágio II da classificação de Arlet e Ficat para osteonecrose da cabeça femoral.