Questão de Medicina — Doenças Reumatológicas e do Sistema Imunológico — FGV 2023
Medicina›Doenças Reumatológicas e do Sistema Imunológico
Código
fg064849
Banca
FGV
Órgão
FHEMIG
Ano
2023
Nível
Superior
Cargo
Médico - Reumatologia Pediátrica
Acerca dos agentes imunobiológicos usados no tratamento de doenças reumatológicas, assinale a afirmativa correta.
AOs inibidores do TNF-alfa podem ser utilizados durante toda a gestação, uma vez que não há transferência placentária.
BPara o tratamento das uveítes em crianças portadoras de AIJ, devemos utilizar adalimumabe, infliximabe ou etanercepte.
COs inibidores do fator de necrose tumoral (TNF) podem ser utilizados durante a gestação, particularmente no primeiro e no segundo trimestres.
DA indução de anticorpos neutralizantes antidroga é mais comum com o uso dos imunobiológicos infliximabe e etanercepte.
ERecém-nascidos expostos a agentes anti-TNF durante a gestação devem receber vacinação com BCG e anti-rotavírus na época recomendada de vacinação pelo Programa Nacional de Imunização.
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GabaritoC — Os inibidores do fator de necrose tumoral (TNF) podem ser utilizados durante a gestação, particularmente no primeiro e no segundo trimestres.
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Agentes imunobiológicos em doenças reumatológicas: uso na gestação e particularidades
Gabarito: letra C. Os inibidores do TNF podem ser utilizados durante a gestação, particularmente no primeiro e segundo trimestres, pois a transferência placentária de IgG (classe à qual pertencem esses anticorpos) é mínima nesse período e aumenta progressivamente no terceiro trimestre. As demais alternativas contêm erros conceituais importantes sobre segurança na gestação, escolha do agente para uveíte, imunogenicidade e vacinação de recém-nascidos expostos.
Os agentes imunobiológicos revolucionaram o tratamento das doenças reumatológicas, como artrite reumatoide, espondiloartrites e artrite idiopática juvenil (AIJ). Eles atuam bloqueando citocinas pró-inflamatórias específicas, sendo os inibidores do fator de necrose tumoral (anti-TNF) a classe mais utilizada. Fazem parte dessa classe: adalimumabe, etanercepte, infliximabe, golimumabe e certolizumabe pegol. O infliximabe é um anticorpo monoclonal quimérico (parte murina, parte humana), enquanto adalimumabe e golimumabe são totalmente humanos; o certolizumabe é um fragmento Fab humanizado. Essa diferença estrutural influencia diretamente a imunogenicidade, ou seja, a capacidade de induzir anticorpos antidroga.
A questão central envolve o uso desses agentes na gestação. Os anticorpos IgG atravessam a placenta por transporte ativo mediado pelo receptor FcRn, que se expressa nas células do sinciciotrofoblasto. Esse transporte é mínimo no primeiro trimestre e aumenta progressivamente, atingindo níveis maternos no terceiro trimestre. Por isso, a exposição fetal aos anti-TNF é maior no final da gestação. Essa é a base da recomendação de que, quando possível, os anti-TNF sejam suspensos no terceiro trimestre, para reduzir a exposição fetal e o risco de imunossupressão no recém-nascido. O certolizumabe pegol, por ser um fragmento Fab sem a porção Fc, tem transferência placentária mínima durante toda a gestação, sendo uma opção mais segura nesse contexto.
A imunogenicidade é outro ponto crítico. Os anticorpos monoclonais quiméricos, como o infliximabe, são mais imunogênicos que os totalmente humanos, como adalimumabe e etanercepte. A formação de anticorpos antidroga neutralizantes reduz a eficácia do tratamento e aumenta o risco de reações infusionais. O etanercepte, embora seja uma proteína de fusão com receptor de TNF, também pode induzir anticorpos, porém em menor frequência que o infliximabe. A alternativa D inverte essa lógica ao afirmar que a indução de anticorpos é mais comum com infliximabe e etanercepte — o correto seria infliximabe (quimérico) e adalimumabe (humano, mas com alguma imunogenicidade), sendo o etanercepte menos imunogênico.
A vacinação de recém-nascidos expostos a anti-TNF durante a gestação é um tema de segurança vacinal. Como esses agentes podem causar imunossupressão no recém-nascido, especialmente se usados no terceiro trimestre, as vacinas de agentes vivos atenuados, como BCG e rotavírus, são contraindicadas até que a imunidade do lactente seja considerada adequada, geralmente após 6 meses de vida. A alternativa E afirma o contrário, recomendando a vacinação na época habitual, o que é um erro grave de segurança.
A escolha do agente biológico para uveíte também tem particularidades. Na artrite idiopática juvenil (AIJ), a uveíte crônica anterior é uma complicação frequente e grave. O adalimumabe e o infliximabe são eficazes no tratamento da uveíte associada à AIJ, mas o etanercepte não é eficaz para uveíte, sendo inclusive associado a casos de uveíte de novo ou piora. Portanto, a alternativa B, que inclui etanercepte como opção, está incorreta.
A alternativa A afirma que os inibidores do TNF podem ser usados durante toda a gestação por não haver transferência placentária. Isso é duplamente errado: há transferência placentária (progressiva ao longo da gestação) e o uso no terceiro trimestre é desaconselhado, quando possível, justamente por essa transferência aumentada.
Guarde esses quatro pilares — transferência placentária, imunogenicidade, eficácia em uveíte e vacinação de recém-nascidos — pois são exatamente eles que separam as alternativas desta questão.
Agente imunobiológico
Estrutura
Transferência placentária
Uso na gestação
Imunogenicidade
Eficácia em uveíte (AIJ)
Infliximabe
Anticorpo monoclonal quimérico
Progressiva (mínima no 1º trimestre, máxima no 3º)
Seguro no 1º e 2º trimestres; suspender no 3º quando possível
Alta (mais imunogênico)
Eficaz
Adalimumabe
Anticorpo monoclonal totalmente humano
Progressiva (mínima no 1º trimestre, máxima no 3º)
Seguro no 1º e 2º trimestres; suspender no 3º quando possível
Moderada
Eficaz
Etanercepte
Proteína de fusão com receptor de TNF
Progressiva (mínima no 1º trimestre, máxima no 3º)
Seguro no 1º e 2º trimestres; suspender no 3º quando possível
Baixa
Não eficaz
Certolizumabe pegol
Fragmento Fab humanizado (sem porção Fc)
Mínima durante toda a gestação
Opção mais segura em toda a gestação
Baixa
Não mencionado no comentário
Alternativa A — ❌ Incorreta
Afirma que os inibidores do TNF podem ser usados durante toda a gestação porque não há transferência placentária. Há transferência placentária de IgG, que aumenta progressivamente, sendo mínima no primeiro trimestre e máxima no terceiro. Por isso, o uso é mais seguro no primeiro e segundo trimestres, e a suspensão no terceiro é recomendada quando possível. A alternativa erra ao negar a transferência e ao liberar o uso em toda a gestação.
Alternativa B — ❌ Incorreta
Inclui o etanercepte como opção para uveíte em crianças com AIJ. O etanercepte não é eficaz para uveíte, diferentemente do adalimumabe e do infliximabe, que são os agentes anti-TNF de escolha nessa condição. A alternativa erra ao incluir um fármaco sem eficácia comprovada para o tratamento da uveíte.
Alternativa C — ✅ Correta ⟵ GABARITO
Afirma que os inibidores do TNF podem ser utilizados durante a gestação, particularmente no primeiro e segundo trimestres. Isso está correto: a transferência placentária de IgG é mínima nesses trimestres, reduzindo a exposição fetal. O risco aumenta no terceiro trimestre, quando a transferência é máxima, razão pela qual se recomenda suspender o anti-TNF nesse período, quando possível. A alternativa espelha corretamente a recomendação de segurança.
Alternativa D — ❌ Incorreta
Afirma que a indução de anticorpos neutralizantes antidroga é mais comum com infliximabe e etanercepte. O infliximabe, por ser quimérico, é de fato mais imunogênico, mas o etanercepte é menos imunogênico que os anticorpos monoclonais. A imunogenicidade é maior com anticorpos quiméricos (infliximabe) e menor com proteínas de fusão (etanercepte) e anticorpos totalmente humanos (adalimumabe, golimumabe). A alternativa troca o etanercepte por um agente mais imunogênico, como o adalimumabe.
Alternativa E — ❌ Incorreta
Recomenda vacinação com BCG e anti-rotavírus na época habitual para recém-nascidos expostos a anti-TNF. Essas são vacinas de agentes vivos atenuados, contraindicadas em imunossuprimidos. O recém-nascido exposto a anti-TNF no terceiro trimestre pode ter imunossupressão, e a vacinação com BCG e rotavírus deve ser adiada até que a imunidade seja considerada adequada, geralmente após 6 meses. A alternativa inverte a recomendação de segurança.
NÃO CAIA NESSA!
A banca explora a confusão entre a transferência placentária de IgG e a segurança do uso de anti-TNF na gestação. O candidato pode pensar que, por serem anticorpos, não atravessam a placenta, mas a IgG atravessa ativamente, e o risco aumenta no terceiro trimestre. A alternativa C captura exatamente a janela segura (primeiro e segundo trimestres), enquanto a A nega a transferência e a E inverte a recomendação vacinal. Fique atento a essas inversões clássicas.
PEGA ESSA DICA!
Para questões sobre biológicos na gestação, lembre-se da regra: IgG atravessa a placenta de forma progressiva — mínima no 1º trimestre, máxima no 3º. Portanto, anti-TNF são mais seguros no início da gestação, e vacinas vivas (BCG, rotavírus) são contraindicadas no recém-nascido exposto. Essa lógica resolve a maioria das alternativas.