Questão de Medicina — Doenças Reumatológicas e do Sistema Imunológico — FGV 2023
Medicina›Doenças Reumatológicas e do Sistema Imunológico
Código
fg064852
Banca
FGV
Órgão
FHEMIG
Ano
2023
Nível
Superior
Cargo
Médico - Reumatologia Pediátrica
Em relação ao lúpus neonatal (LEN), analise as afirmativas a seguir.
I. É uma síndrome caracterizada por lesões cutâneas, bloqueio cardíaco congênito (BCC), citopenias e alterações hepáticas.
II. As crianças acometidas são nascidas de mães portadoras de LES, síndrome de Sjogren ou doença mista do tecido conjuntivo com a doença em atividade.
III. A passagem transplacentária de anticorpos patogênicos (anti-Ro, anti-La) se inicia por volta da 4ª semana de gravidez e o maior risco para o feto acontece entre a 8ª e a 16ª semanas de gestação, período no qual ocorre o desenvolvimento do sistema de condução cardíaco no embrião.
IV. As manifestações hematológicas mais frequentes são anemia, leucopenia, neutropenia e plaquetopenia, sendo raramente graves, e podem não requerer tratamento.
Está correto o que se afirma em
AI e IV, apenas.
BII e III, apenas.
CIII e IV, apenas.
DI e III, apenas.
EII e IV, apenas.
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GabaritoA — I e IV, apenas.
Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.
Lúpus neonatal (LEN): manifestações, transmissão de anticorpos e hematologia
Gabarito: letra A. O lúpus neonatal é uma síndrome adquirida por passagem transplacentária de anticorpos maternos anti-Ro/SSA e anti-La/SSB, caracterizada por lesões cutâneas, bloqueio cardíaco congênito (BCC), citopenias e alterações hepáticas — exatamente o que afirmam os itens I e IV. Os itens II e III estão incorretos: a doença materna não precisa estar em atividade para o risco fetal, e a janela de maior vulnerabilidade para o BCC é entre a 18ª e a 24ª semana de gestação, não entre a 8ª e a 16ª.
O lúpus neonatal (LEN) é uma doença autoimune passiva do recém-nascido, causada pela transferência transplacentária de anticorpos IgG maternos dirigidos contra os antígenos SSA/Ro e SSB/La. Diferentemente do lúpus eritematoso sistêmico (LES) clássico, o LEN não é uma doença autoimune primária do bebê: o feto não produz os anticorpos, ele apenas os recebe da mãe. Por isso, as manifestações são transitórias e tendem a regredir quando o lactente começa a produzir seus próprios anticorpos, por volta dos 6 a 8 meses de vida — com exceção do bloqueio cardíaco congênito, que é permanente e irreversível.
A síndrome se manifesta de duas formas principais: (1) manifestações cutâneas, hematológicas e hepáticas, que são transitórias e autolimitadas; e (2) o bloqueio cardíaco congênito (BCC), que é a complicação mais grave e definitiva. As lesões cutâneas típicas são lesões anulares eritematosas, frequentemente em região periorbitária (padrão "olho de guaxinim"), que aparecem nas primeiras semanas de vida e regridem espontaneamente. As citopenias (anemia, leucopenia, neutropenia, plaquetopenia) e a hepatoesplenomegalia também são comuns e, em geral, benignas, não exigindo tratamento específico.
A fisiopatologia do BCC é particularmente interessante: os anticorpos anti-Ro/anti-La atravessam a placenta e se ligam às células do sistema de condução cardíaco fetal, causando inflamação, fibrose e, eventualmente, destruição do nó atrioventricular. O período de maior vulnerabilidade coincide com o desenvolvimento do sistema de condução, que ocorre entre a 18ª e a 24ª semana de gestação. Por isso, o rastreamento com ecocardiografia fetal deve começar na 16ª semana. O risco de uma mãe com anticorpos anti-SSA/Ro ou anti-SSB/La ter um filho com LEN é de 1 a 2%; se já teve um filho com comprometimento cardíaco, o risco aumenta para 19%.
Um ponto crucial que a banca explora é a relação entre a atividade da doença materna e o risco fetal. O LEN pode ocorrer mesmo em mães assintomáticas ou com doença inativa, desde que tenham os anticorpos anti-Ro/anti-La. A atividade do LES materno não é o fator determinante — o que importa é a presença e o título dos anticorpos. Além disso, o LEN pode ocorrer em mães com outras doenças autoimunes (como síndrome de Sjögren e doença mista do tecido conjuntivo) e até em mães completamente saudáveis, mas portadoras dos anticorpos.
Guarde a fronteira entre os itens: o item II erra ao condicionar o risco à atividade da doença materna, e o item III erra ao deslocar a janela de risco para a 8ª–16ª semana, quando o correto é 18ª–24ª. Os itens I e IV descrevem corretamente as manifestações clínicas e hematológicas do LEN.
Afirmativa
Correto?
Justificativa
I. Síndrome com lesões cutâneas, BCC, citopenias e alterações hepáticas
✅
Descreve corretamente o espectro clínico clássico do LEN.
II. Mães com doença autoimune em atividade
❌
O risco depende da presença de anticorpos anti-Ro/anti-La, não da atividade da doença materna.
III. Janela de risco entre 8ª e 16ª semana
❌
O período de maior vulnerabilidade para o BCC é entre a 18ª e a 24ª semana de gestação.
IV. Citopenias frequentes e raramente graves
✅
Anemia, leucopenia, neutropenia e plaquetopenia são comuns, geralmente benignas e sem necessidade de tratamento.
Lúpus neonatal (LEN): Causa (Anticorpos maternos anti-Ro/anti-La, Passagem transplacentária); Manifestações (Cutâneas (lesões anulares), Hematológicas (citopenias), Hepáticas, Bloqueio cardíaco congênito); BCC (mais grave) (Permanente e irreversível, Janela de risco: 18ª–24ª semana); Fatores de risco (Presença de anticorpos (não atividade da doença), Mães assintomáticas também podem transmitir)
Item I — ✅ Correto
A afirmativa descreve corretamente o espectro clínico do lúpus neonatal: lesões cutâneas, bloqueio cardíaco congênito (BCC), citopenias e alterações hepáticas. Essas são as manifestações clássicas da síndrome, conforme descrito na literatura: "Outras manifestações do LES neonatal que são mais comuns consistem em erupções cutâneas, citopenias e hepatoesplenomegalia." O BCC é a manifestação mais grave e permanente; as demais são transitórias.
Item II — ❌ Incorreto
O erro está em afirmar que as crianças são nascidas de mães com a doença em atividade. O lúpus neonatal não depende da atividade da doença materna — depende exclusivamente da presença dos anticorpos anti-Ro/SSA e anti-La/SSB no sangue materno. Mães com LES inativo, síndrome de Sjögren, doença mista do tecido conjuntivo ou mesmo mães assintomáticas e saudáveis podem ter filhos com LEN, desde que sejam portadoras desses anticorpos. A banca troca o fator determinante (presença de anticorpos) por um fator irrelevante (atividade da doença).
Item III — ❌ Incorreto
A afirmativa contém dois erros. Primeiro, a passagem transplacentária de anticorpos IgG não se inicia na 4ª semana de gravidez — ela se intensifica principalmente no segundo e terceiro trimestres, quando o transporte ativo via receptor FcRn se torna eficiente. Segundo, e mais importante, o período de maior risco para o desenvolvimento do BCC não é entre a 8ª e a 16ª semana, mas sim entre a 18ª e a 24ª semana de gestação, que é quando ocorre o desenvolvimento do sistema de condução cardíaco fetal. O texto de apoio confirma: "O desenvolvimento de BAV é mais comum entre a 18a e a 24a semana de gestação nas mulheres com esses anticorpos." A banca desloca a janela de risco para um período anterior ao real.
Item IV — ✅ Correto
A afirmativa descreve corretamente as manifestações hematológicas do lúpus neonatal: anemia, leucopenia, neutropenia e plaquetopenia. Essas alterações são, de fato, as mais frequentes e, em geral, raramente graves, não requerendo tratamento específico. Elas fazem parte do espectro de manifestações transitórias do LEN, que regridem espontaneamente à medida que os anticorpos maternos são depurados do organismo do lactente, por volta dos 6 a 8 meses de vida.
Conclusão: Corretos os itens I e IV → Gabarito: letra A.