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Questão de Medicina — Farmacologia e Anestesiologia — FGV 2023

MedicinaFarmacologia e Anestesiologia
Código
fg064854
Banca
FGV
Órgão
FHEMIG
Ano
2023
Nível
Superior
Cargo
Médico - Toxicologia Médica
Os cumarínicos possuem ação anticoagulante e são utilizados na terapêutica e no controle de roedores (rodenticidas). As intoxicações humanas por esses agentes são relatadas em tentativas de suicídio e de homicídio e, entre os sinais e sintomas incluem-se sangramento na gengiva e nariz, contusões, hematomas e hemorragia gastrointestinal.


Acerca dos cumarínicos, assinale a afirmativa correta.
  1. ASão anticoagulantes diretos, atuando na inibição da vitamina K.
  2. BOutro mecanismo de ação trata de sua ação indireta nos vasos sanguíneos, aumentando a permeabilidade capilar no organismo.
  3. CNo tratamento da intoxicação é indicada a ingestão de carvão ativado, até 12 horas após ingestão.
  4. DO tempo de protrombina é utilizado como parâmetro na avaliação da gravidade de intoxicação, mesmo mediante administração de vitamina K1.
  5. ENos casos de ingestão repetida do toxicante e em pacientes com risco hemorrágico, é recomendada a indução de vômito.
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GabaritoC — No tratamento da intoxicação é indicada a ingestão de carvão ativado, até 12 horas após ingestão.

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

Cumarínicos: mecanismo de ação e manejo da intoxicação

Gabarito: letra C. Os cumarínicos (antagonistas da vitamina K) são anticoagulantes indiretos — inibem a síntese hepática dos fatores de coagulação dependentes da vitamina K (II, VII, IX, X) — e, na intoxicação aguda, a conduta inclui a administração de carvão ativado se a ingestão ocorreu há menos de 12 horas, conforme preconizado na abordagem de intoxicações exógenas. A alternativa C é a única que descreve corretamente um aspecto do tratamento.

Os cumarínicos, também chamados de antagonistas da vitamina K (AVKs), são fármacos que exercem sua ação anticoagulante de forma indireta. Diferentemente dos anticoagulantes diretos (como os inibidores do fator Xa e da trombina), os AVKs não inativam diretamente nenhum fator da coagulação já formado. Em vez disso, eles inibem a enzima epóxido-redutase da vitamina K, impedindo a regeneração da vitamina K na sua forma ativa (hidroquinona). Sem a vitamina K ativa, o fígado não consegue realizar a carboxilação dos fatores de coagulação II, VII, IX e X, que são sintetizados, mas permanecem funcionalmente inativos. O efeito anticoagulante, portanto, depende da meia-vida desses fatores já circulantes — o fator VII tem meia-vida curta (6-8 horas), enquanto os fatores II, IX e X têm meia-vida mais longa (dias). Por isso, o efeito terapêutico pleno só é alcançado após alguns dias de uso.

Na prática clínica, o monitoramento do efeito dos cumarínicos é feito pelo tempo de protrombina (TP), expresso como INR (razão normalizada internacional). O TP é sensível à deficiência dos fatores II, VII e X, justamente os fatores dependentes da vitamina K. Esse exame é essencial tanto para o ajuste da dose terapêutica quanto para a avaliação da gravidade da intoxicação. No entanto, a alternativa D afirma que o TP é utilizado "mesmo mediante administração de vitamina K1" — o que está incorreto, pois, após a administração de vitamina K1, o TP deixa de refletir a gravidade da intoxicação, já que a vitamina K1 reverte o bloqueio e permite a síntese de novos fatores de coagulação. O TP é útil antes da administração da vitamina K1, para confirmar o diagnóstico e avaliar a extensão do distúrbio; depois dela, o parâmetro perde a validade como marcador da intoxicação.

A intoxicação por cumarínicos, especialmente com os rodenticidas de segunda geração (superwarfarinas, como brodifacume e difenacume), é um desafio terapêutico porque esses compostos têm meia-vida muito longa (semanas a meses) e podem causar sangramento prolongado. O manejo envolve: (1) descontaminação gastrointestinal — carvão ativado se a ingestão foi recente (até 12 horas); (2) administração de vitamina K1 (fitonadiona) em doses altas e por tempo prolongado, muitas vezes por semanas; (3) reposição de fatores de coagulação (plasma fresco congelado ou complexo protrombínico) nos casos de sangramento ativo grave; e (4) monitoramento seriado do TP/INR. A indução de vômito é contraindicada na intoxicação por cumarínicos, pois o risco de aspiração e o potencial de agravamento do sangramento (por trauma do esforço de vômito) superam os benefícios — a alternativa E está incorreta.

A pegadinha central desta questão está na distinção entre anticoagulantes diretos e indiretos. Os cumarínicos são indiretos (agem via inibição da vitamina K), enquanto os ACODs (apixabana, rivaroxabana, dabigatrana) são diretos (inibem diretamente o fator Xa ou a trombina). A alternativa A inverte essa lógica ao chamar os cumarínicos de "anticoagulantes diretos". Já a alternativa B inventa um mecanismo de ação inexistente — aumento da permeabilidade capilar — que não corresponde ao mecanismo dos cumarínicos. Guarde essa fronteira: direto = inibe diretamente um fator; indireto = inibe via vitamina K — é exatamente nela que as alternativas se dividem.

Cumarínicos (anticoagulantes indiretos)
  • 1Mecanismo de ação
    • Inibem epóxido-redutase da vitamina K
    • Bloqueiam síntese dos fatores II, VII, IX, X
  • 2Monitoramento
    • TP/INR (antes da vitamina K1)
  • 3Intoxicação aguda
    • Carvão ativado (até 12h)
    • Vitamina K1 em dose alta
    • Reposição de fatores (se sangramento)
    • Indução de vômito (contraindicada)
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Alternativa A — ❌ Incorreta

O erro está na palavra "diretos". Os cumarínicos são anticoagulantes indiretos: não inativam diretamente nenhum fator da coagulação, mas sim inibem a enzima epóxido-redutase da vitamina K, impedindo a síntese hepática dos fatores II, VII, IX e X na forma ativa. Os anticoagulantes diretos são os ACODs (inibidores diretos do fator Xa, como rivaroxabana e apixabana, e inibidores diretos da trombina, como dabigatrana). A banca trocou o mecanismo de ação para confundir o candidato.

Alternativa B — ❌ Incorreta

Não existe esse mecanismo de ação. Os cumarínicos não atuam "aumentando a permeabilidade capilar" — essa é uma descrição fictícia, sem respaldo farmacológico. O mecanismo dos cumarínicos é exclusivamente a inibição da vitamina K (antagonismo competitivo), que compromete a síntese dos fatores de coagulação dependentes dessa vitamina. A alternativa mistura conceitos de outros agentes tóxicos (como os que causam dano vascular direto) com o mecanismo real dos AVKs.

Alternativa C — ✅ Correta ⟵ GABARITO

Na intoxicação aguda por cumarínicos, a descontaminação gastrointestinal com carvão ativado é indicada quando a ingestão ocorreu há até 12 horas. O carvão ativado adsorve o toxicante no trato gastrointestinal, reduzindo sua absorção sistêmica. Esse é um pilar do manejo inicial das intoxicações por ingestão, especialmente com rodenticidas de ação prolongada. A janela de 12 horas é o parâmetro clássico para a administração do carvão ativado em intoxicações agudas.

Alternativa D — ❌ Incorreta

O tempo de protrombina (TP) é, de fato, o parâmetro laboratorial utilizado para avaliar a gravidade da intoxicação por cumarínicos — mas antes da administração de vitamina K1. Após a administração da vitamina K1, o TP deixa de refletir a intoxicação, pois a vitamina reverte o bloqueio e permite a síntese de novos fatores de coagulação. A alternativa D está incorreta ao afirmar que o TP é utilizado "mesmo mediante administração de vitamina K1" — o correto é que o TP é o parâmetro de monitoramento antes da vitamina K1, e o acompanhamento posterior é feito com base na resposta clínica e na necessidade de novas doses.

Alternativa E — ❌ Incorreta

A indução de vômito é contraindicada na intoxicação por cumarínicos. O risco de aspiração do conteúdo gástrico e o potencial de agravamento do sangramento (pelo esforço do vômito, que pode romper vasos já fragilizados) superam qualquer benefício. A conduta correta em casos de ingestão recente é a administração de carvão ativado (até 12 horas), e não a indução de vômito. Além disso, em pacientes com risco hemorrágico, a prioridade é a reposição de vitamina K1 e fatores de coagulação, não a emese.

NÃO CAIA NESSA!

A banca explora a confusão entre anticoagulantes diretos e indiretos. Os cumarínicos são indiretos (inibem a vitamina K), enquanto os ACODs são diretos (inibem diretamente o fator Xa ou a trombina). A alternativa A inverte essa lógica, e a alternativa B inventa um mecanismo de ação que não existe. Na prova, desconfie de alternativas que atribuem aos cumarínicos mecanismos de ação que não envolvam a vitamina K — o antagonismo da vitamina K é a assinatura dessa classe.

PEGA ESSA DICA!

Para fixar o manejo da intoxicação por cumarínicos, lembre-se da sequência: carvão ativado (até 12h) → vitamina K1 (dose alta, prolongada) → reposição de fatores (se sangramento ativo) → monitorar TP/INR. E nunca induza vômito — o risco de aspiração e sangramento contraindica a manobra. Essa sequência cai com frequência em provas de toxicologia e emergências.

Gabarito: letra C

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