Questão de Medicina — Hematologia — FGV 2023
- Código
- fg065051
- Banca
- FGV
- Órgão
- MPE-SP
- Ano
- 2023
- Nível
- Superior
- Cargo
- Analista de Promotoria - Médico Clínico
- Aaplástica.
- Bhemolítica.
- Cnormocítica e normocrômica.
- Dmicrocítica e hipocrômica.
- Emacrocítica.
GabaritoC — normocítica e normocrômica.
Gabarito: letra C. A anemia associada à doença renal crônica (DRC) é classicamente do tipo normocítica e normocrômica — ou seja, com volume corpuscular médio (VCM) e hemoglobina corpuscular média (HCM) dentro dos valores de referência. Essa é a apresentação típica da anemia da doença crônica, que é o padrão mais comum na DRC, conforme diretrizes do Ministério da Saúde.
A anemia é definida pela redução da massa eritrocitária e da hemoglobina, resultando em aporte insuficiente de oxigênio aos tecidos. Na DRC, a causa mais frequente é a deficiência relativa de eritropoetina — hormônio produzido pelos rins que estimula a medula óssea a produzir hemácias. Com a perda progressiva de néfrons, a produção de eritropoetina torna-se insuficiente para o grau de anemia apresentado, levando a uma menor produção de eritrócitos. Além disso, há uma redução da meia-vida eritrocitária por um pequeno grau de hemólise.
A classificação morfológica das anemias baseia-se nos índices hematimétricos, principalmente no VCM (volume corpuscular médio), que mede o tamanho médio das hemácias (normal: 80–100 fL), e na HCM/CHCM, que avaliam a concentração de hemoglobina (normocrômica quando dentro da faixa normal). A anemia da doença crônica — incluindo a da DRC — é tipicamente normocítica e normocrômica, embora possa ser levemente microcítica em alguns casos. Isso a distingue de outras anemias:
Tipo de anemia | VCM | Cromia | Exemplos típicos |
|---|---|---|---|
Microcítica e hipocrômica | < 80 fL | HCM/CHCM baixos | Ferropriva, talassemia, sideroblástica |
Normocítica e normocrômica | 80–100 fL | Normais | Doença crônica, insuficiência renal, hemolítica (em alguns casos) |
Macrocítica | > 100 fL | Normocrômica | Deficiência de B12/folato, hepatopatias, etilismo |
A fisiopatologia da anemia da doença crônica envolve a inflamação crônica e a ação de citocinas sobre a hepcidina, que reduz a mobilização do ferro dos estoques para os precursores eritroides na medula óssea — mesmo com reservas de ferro adequadas. Isso explica por que a anemia não é tipicamente microcítica como na ferropriva, mas sim normocítica.
A pegadinha desta questão está em associar a anemia da DRC a um padrão microcético (como na ferropriva) ou macrocítico (como na megaloblástica). A banca explora a confusão entre a anemia da doença crônica e a anemia ferropriva, que é microcítica e hipocrômica. Na DRC, o hemograma costuma revelar anemia normocítica e normocrômica, e as reservas de ferro devem ser avaliadas — mas o padrão típico é o normocítico.
Guarde a fronteira: anemia da doença crônica = normocítica e normocrômica (VCM normal, HCM normal). É exatamente esse critério que separa a alternativa correta das demais.
A anemia aplástica é caracterizada por pancitopenia (redução de hemácias, leucócitos e plaquetas) por falência da medula óssea, e não é o padrão típico da DRC. Embora possa haver anemia aplásica em qualquer paciente, a anemia da DRC não se apresenta como aplástica — a medula óssea responde à eritropoetina, mas a produção é insuficiente pela deficiência hormonal.
A anemia hemolítica é causada pela destruição precoce das hemácias, seja por causas intrínsecas (defeitos da membrana, enzimas, hemoglobina) ou extrínsecas (autoimune, mecânica, infecciosa). Na DRC, há um pequeno grau de hemólise, mas a causa principal da anemia é a deficiência de eritropoetina — não a hemólise. O padrão morfológico da anemia hemolítica pode ser normocítico, mas a fisiopatologia é completamente diferente.
A anemia da doença crônica, incluindo a da DRC, é classicamente normocítica e normocrômica — VCM entre 80 e 100 fL e HCM/CHCM normais. Isso ocorre porque a produção de hemácias é insuficiente, mas as hemácias produzidas têm tamanho e conteúdo de hemoglobina normais. O Ministério da Saúde, em seu Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas da Anemia na DRC, afirma que "em pacientes com anemia decorrente da DRC, o hemograma costuma revelar anemia do tipo anemia da doença crônica, ou seja, normocítica e normocrômica".
A anemia microcítica e hipocrômica (VCM < 80 fL, HCM/CHCM baixos) é típica da deficiência de ferro (anemia ferropriva), talassemias e anemia sideroblástica. Na DRC, embora possa haver deficiência de ferro associada (por perdas sanguíneas ou hemodiálise), o padrão típico da anemia da doença crônica é normocítico. A banca troca o padrão da anemia da doença crônica pelo da ferropriva — armadilha clássica.
A anemia macrocítica (VCM > 100 fL) é típica de deficiência de vitamina B12/folato (anemia megaloblástica), hepatopatias, etilismo e mielodisplasia. Na DRC, o padrão não é macrocítico — a deficiência de eritropoetina não altera o tamanho das hemácias. A macrocitose na DRC só ocorreria se houvesse outra causa associada, como deficiência de B12.
Gabarito: letra C — a anemia da doença renal crônica é normocítica e normocrômica, padrão da anemia da doença crônica.
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