Questão de Medicina — Geriatria — FGV 2023
- Código
- fg066892
- Banca
- FGV
- Órgão
- Prefeitura de São José dos Campos - SP
- Ano
- 2023
- Nível
- Superior
- Cargo
- Médico - Geriatra
- AI, apenas.
- BIII, apenas.
- CI e III, apenas.
- DI e II, apenas.
- EI, II e III.
GabaritoD — I e II, apenas.
Gabarito: letra D — corretos os itens I e II. A paciente apresenta critérios clínicos de insônia crônica (dificuldade de iniciar o sono na maioria dos dias há mais de 6 meses, com repercussão diurna), e a conduta correta envolve terapias não farmacológicas (higiene do sono e TCC-I) associadas à investigação de causas secundárias (comorbidades clínicas e medicamentos). O item III está errado ao afirmar que a alteração é fisiológica e que o tempo normal de sono em idosos é de 4 a 6 horas — embora haja mudanças na arquitetura do sono com o envelhecimento, a necessidade de sono não se reduz a esse ponto, e a queixa da paciente configura transtorno, não normalidade.
A insônia é o transtorno do sono mais prevalente na população idosa, afetando mais de 50% dos idosos, e se define pela dificuldade de iniciar ou manter o sono, ou despertar precoce, acompanhada de prejuízo diurno (fadiga, déficit de atenção, alteração de humor). No caso, a paciente tem dificuldade de iniciar o sono (só pega no sono por volta das 2h) e despertar precoce (acorda às 6h), com queixa de cansaço e redução da atenção — preenchendo o critério de insônia com repercussão funcional. A cronicidade (> 3 meses) e a frequência (maioria dos dias) reforçam o diagnóstico de insônia crônica.
O tratamento da insônia no idoso tem como base a abordagem não farmacológica. A higiene do sono envolve medidas como horários regulares para dormir e acordar, evitar cafeína e álcool à noite, não usar telas antes de deitar, manter o quarto escuro e silencioso, e evitar permanecer muito tempo na cama acordado. A terapia cognitivo-comportamental para insônia (TCC-I) é a intervenção de primeira linha com evidência forte, incluindo técnicas de controle de estímulos, restrição do sono e relaxamento. Essas medidas são eficazes e devem ser a base do tratamento, especialmente em idosos, em quem os fármacos hipnóticos têm riscos aumentados (quedas, comprometimento cognitivo).
Além disso, a investigação de causas secundárias é fundamental. A insônia pode ser consequência de condições clínicas (insuficiência cardíaca, doença pulmonar obstrutiva, refluxo gastroesofágico, dor crônica, noctúria), transtornos psiquiátricos (depressão, ansiedade), uso de medicamentos (corticoides, betabloqueadores, descongestionantes, diuréticos noturnos) e substâncias (cafeína, álcool, nicotina). A anamnese deve incluir diário do sono, história clínica e medicamentosa detalhada, e exame do estado mental. A polissonografia é reservada para suspeita de outros transtornos do sono (apneia obstrutiva, movimentos periódicos dos membros, transtorno comportamental do sono REM).
A pegadinha da questão está no item III: a banca tenta fazer o candidato aceitar que a insônia é "normal" no idoso e que 4 a 6 horas de sono são suficientes. Isso é um erro conceitual grave. Embora o envelhecimento traga alterações fisiológicas do sono (diminuição do sono profundo N3, aumento da latência, fragmentação), a necessidade de sono não diminui drasticamente — a maioria dos idosos ainda precisa de 7 a 8 horas. A queixa de insônia com prejuízo diurno nunca deve ser banalizada como "fisiológica"; é um transtorno que merece investigação e tratamento. O item III, portanto, está incorreto por dois motivos: (1) a alteração não é fisiológica, é patológica; (2) o tempo de sono normal em idosos não é de 4 a 6 horas.
Guarde o critério decisivo: insônia é transtorno quando há prejuízo diurno — e o tratamento começa com medidas não farmacológicas e investigação de causas secundárias, nunca com a banalização do quadro como "normal para a idade". É exatamente nessa fronteira que os itens se dividem.
A afirmativa está correta. As terapias não farmacológicas — higiene do sono e TCC-I — são a base do tratamento da insônia, com forte evidência de eficácia, inclusive em idosos. A TCC-I inclui controle de estímulos, restrição do sono e técnicas de relaxamento, e é recomendada como primeira linha antes da farmacoterapia.
A afirmativa está correta. Além da higiene do sono, é essencial investigar causas secundárias da insônia: condições médicas (insuficiência cardíaca, DPOC, DRGE, dor, noctúria), transtornos psiquiátricos (depressão, ansiedade) e medicamentos/substâncias que prejudicam o sono (cafeína, álcool, corticoides, betabloqueadores). Essa investigação faz parte da anamnese adequada e é indispensável para o tratamento eficaz.
A afirmativa está errada. A alteração do sono da paciente não é fisiológica — ela preenche critérios de insônia crônica com repercussão diurna (cansaço, déficit de atenção, prejuízo no trabalho). Além disso, o tempo normal de sono em idosos não é de 4 a 6 horas: embora haja mudanças na arquitetura do sono com o envelhecimento, a necessidade de sono permanece em torno de 7 a 8 horas na maioria dos idosos. A banca tenta fazer o candidato aceitar a insônia como "normal da idade", o que é um erro conceitual que leva à subdiagnóstico e subtratamento.
Conclusão: corretos os itens I e II → portanto, a alternativa é a letra D.
Gabarito: letra D
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