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Questão de Medicina — Geriatria — FGV 2023

MedicinaGeriatria
Código
fg066896
Banca
FGV
Órgão
Prefeitura de São José dos Campos - SP
Ano
2023
Nível
Superior
Cargo
Médico - Geriatra
Paciente idosa, de 90 anos, apresentava quadro de insônia e ansiedade ao se deitar. Sua filha, preocupada, administrou por conta própria o medicamento clonazepam 2 mg. A paciente evoluiu com rebaixamento do nível de consciência por mais de 24 horas após o uso do Clonazepam, sendo levada ao pronto-socorro.Assinale a mudança fisiológica do envelhecimento que pode ter levado ao aumento da meia-vida do Clonazepam nessa paciente.
  1. AA redução da albumina, levando ao aumento da fração livre do metabólito ativo do clonazepam.
  2. BA redução da atividade colinérgica, levando ao aumento da afinidade dos receptores 5-HT.
  3. CA redução da atividade do citocromo P450, levando à redução do metabolismo de primeira passagem dos benzodiazepínicos.
  4. DO aumento da água corporal total, levando à redução da depuração renal dos benzodiazepínicos.
  5. EO aumento do percentual de gordura corporal, levando ao aumento da meia-vida de fármacos lipofílicos, como os benzodiazepínicos.
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GabaritoE — O aumento do percentual de gordura corporal, levando ao aumento da meia-vida de fármacos lipofílicos, como os benzodiazepínicos.

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Farmacocinética do envelhecimento e meia-vida dos benzodiazepínicos

Gabarito: letra E. O aumento do percentual de gordura corporal no idoso expande o volume de distribuição de fármacos lipofílicos, como o clonazepam, prolongando sua meia-vida de eliminação — é exatamente essa alteração fisiológica que explica o rebaixamento prolongado do nível de consciência da paciente. As demais alternativas descrevem mudanças que não se aplicam diretamente ao clonazepam ou apresentam erros conceituais.

O envelhecimento impõe uma série de alterações farmacocinéticas que modificam a forma como o organismo lida com medicamentos. A farmacocinética descreve o que o corpo faz com o fármaco: absorção, distribuição, metabolismo e excreção. No idoso, cada uma dessas etapas sofre modificações, mas nem todas impactam igualmente todos os fármacos. Para entender a questão, é preciso focar na distribuição e na meia-vida.

A meia-vida de eliminação (t1/2t_{1/2}) é o tempo necessário para que a concentração plasmática do fármaco se reduza à metade. Ela depende de dois fatores principais: o volume de distribuição (VdV_d) e a depuração (clearance, ClCl), segundo a relação t1/2=0,693×VdClt_{1/2} = \frac{0,693 \times V_d}{Cl}. Ou seja, se o volume de distribuição aumenta, a meia-vida se prolonga, mesmo que a depuração permaneça constante.

O clonazepam é um benzodiazepínico altamente lipofílico. Com o envelhecimento, há um aumento progressivo do percentual de gordura corporal e uma redução da água corporal total. Como os fármacos lipofílicos se distribuem preferencialmente no tecido adiposo, o aumento da gordura corporal expande o volume de distribuição do clonazepam. Com um VdV_d maior, o fármaco fica mais "diluído" no organismo, demora mais para atingir a concentração de equilíbrio e, principalmente, leva mais tempo para ser eliminado — ou seja, a meia-vida aumenta. É exatamente o que ocorreu com a paciente: uma dose de 2 mg de clonazepam, já elevada para uma idosa, produziu sedação prolongada por mais de 24 horas.

Vale destacar que o metabolismo hepático do clonazepam ocorre principalmente pelo citocromo P450 (CYP3A4). Embora a atividade desse sistema enzimático possa diminuir com a idade, o clonazepam não sofre metabolismo de primeira passagem relevante — ele é bem absorvido por via oral e sua biodisponibilidade é alta. A alternativa C, portanto, mistura conceitos: a redução do CYP450 afetaria o metabolismo sistêmico, não especificamente o de primeira passagem, e não é o principal determinante do aumento da meia-vida nesse caso.

A pegadinha central desta questão está em distinguir quais alterações fisiológicas do envelhecimento afetam quais fármacos. A banca explora a confusão entre:

Alteração no idoso

Efeito farmacocinético

Fármacos mais afetados

Aumento da gordura corporal

Aumento do VdV_d → maior meia-vida

Lipofílicos (benzodiazepínicos, alguns antipsicóticos)

Redução da água corporal total

Redução do VdV_d de hidrofílicos → maior concentração plasmática

Hidrofílicos (digoxina, aminoglicosídeos)

Redução da albumina sérica

Aumento da fração livre de fármacos ácidos

Fármacos ácidos (varfarina, fenitoína, AINEs)

Redução do fluxo sanguíneo hepático e da atividade do CYP450

Redução do metabolismo de primeira passagem

Fármacos de alto metabolismo de primeira passagem (propranolol, verapamil, nitratos)

Redução da filtração glomerular

Redução da excreção renal

Fármacos de excreção renal (digoxina, antibióticos)

Guarde essa tabela: ela é o critério que separa as alternativas. A questão pede especificamente a mudança que aumenta a meia-vida do clonazepam, um fármaco lipofílico — e isso aponta diretamente para o aumento da gordura corporal.

Farmacocinética no idoso
  • 1Distribuição
    • Aumento da gordura corporal
      • fármaco lipofílico → maior Vd
      • maior meia-vida (clonazepam)
    • Redução da água corporal
      • hidrofílicos → maior concentração
  • 2Metabolismo
    • Redução do CYP450
      • afeta 1ª passagem (propranolol)
      • clonazepam: sem 1ª passagem relevante
  • 3Ligação proteica
    • Redução da albumina
      • fármacos ácidos (varfarina)
  • 4Excreção
    • Redução da filtração glomerular
      • fármacos renais (digoxina)
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Alternativa A — ❌ Incorreta

A redução da albumina sérica aumenta a fração livre de fármacos ácidos que se ligam a essa proteína, como varfarina e fenitoína. O clonazepam, porém, liga-se predominantemente à albumina, mas a questão fala em "fração livre do metabólito ativo" — e o clonazepam, diferentemente de outros benzodiazepínicos (como o diazepam), não possui metabólitos ativos. Além disso, o aumento da fração livre aumentaria a disponibilidade do fármaco, mas não é o principal mecanismo do aumento da meia-vida; o efeito seria mais pronunciado na intensidade do efeito do que na duração. O erro está em atribuir ao clonazepam um metabólito ativo e em desviar o foco do verdadeiro determinante da meia-vida.

Alternativa B — ❌ Incorreta

A redução da atividade colinérgica e o aumento da afinidade dos receptores 5-HT não são alterações farmacocinéticas — são alterações farmacodinâmicas, ou seja, relacionadas à resposta do organismo ao fármaco, não à sua concentração ao longo do tempo. Além disso, o clonazepam exerce seu efeito potencializando o GABA, não atuando sobre receptores serotoninérgicos. A alternativa confunde mecanismos de ação de diferentes classes de fármacos e não explica o aumento da meia-vida.

Alternativa C — ❌ Incorreta

A redução da atividade do citocromo P450 pode, de fato, ocorrer com o envelhecimento e reduzir o metabolismo de alguns fármacos. No entanto, o clonazepam não sofre metabolismo de primeira passagem relevante — sua biodisponibilidade oral é alta. O metabolismo de primeira passagem é um fenômeno que afeta fármacos que são extensamente metabolizados no fígado antes de atingir a circulação sistêmica, como propranolol e nitratos. A redução do CYP450 afetaria o metabolismo sistêmico do clonazepam, mas não é o principal mecanismo do aumento da meia-vida, e a alternativa erra ao citar especificamente o metabolismo de primeira passagem.

Alternativa D — ❌ Incorreta

Com o envelhecimento, ocorre redução, e não aumento, da água corporal total. Além disso, o clonazepam é eliminado principalmente por metabolismo hepático, não por excreção renal. A redução da depuração renal afetaria fármacos eliminados pelos rins, como digoxina e antibióticos. A alternativa inverte a direção da alteração fisiológica e atribui ao clonazepam um mecanismo de eliminação que não é o predominante.

Alternativa E — ✅ Correta ⟵ GABARITO

O aumento do percentual de gordura corporal é uma alteração clássica do envelhecimento. Como o clonazepam é um fármaco lipofílico, ele se distribui amplamente no tecido adiposo, o que aumenta seu volume de distribuição. Pela relação t1/2=0,693×VdClt_{1/2} = \frac{0,693 \times V_d}{Cl}, um VdV_d maior, com depuração relativamente preservada, resulta em meia-vida prolongada. Isso explica por que a paciente idosa, após uma dose de 2 mg, apresentou sedação por mais de 24 horas: o fármaco permaneceu por mais tempo no organismo, em concentrações suficientes para manter o efeito depressor do sistema nervoso central.

A regra de ouro para a prova: fármaco lipofílico + idoso = maior volume de distribuição = maior meia-vida. Sempre que a questão envolver um benzodiazepínico ou outro fármaco lipofílico em paciente idoso, pense primeiro no aumento da gordura corporal como causa do efeito prolongado.

Gabarito: letra E

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