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Questão de História — Fundamentos da História : Tempo, Memória e Cultura — FGV 2023

HistóriaFundamentos da História : Tempo, Memória e Cultura
Código
fg069959
Banca
FGV
Órgão
SME - SP
Ano
2023
Nível
Superior
Cargo
Professor de Ensino Fundamental II e Médio - História
"Talvez Jean de Mandeville, autor medieval cuja identidade é um mistério, não tenha sido uma figura de carne e osso, mas alguém que conferiu unidade a uma compilação de relatos de viagem e de textos antecedentes, convencendo seus contemporâneos de que ele também havia sido um viajante piedoso e um andarilho de Deus. Para contar sua suposta viagem, Mandeville recolheu relatos, roteiros, crônicas e tratados que circulavam pela Europa no século XIV, apresentando um conjunto de viagens, combinadas com referências bíblicas, lembranças supostamente pessoais, informações sobre percursos de rios, montanhas, fauna, flora, costumes de terras conhecidas ou imaginadas”.Adaptado de FRANÇA, Susani S. L. “Introdução”. In: Viagens de Jean de Mandeville, p. 13-18.Com base no trecho, assinale a afirmativa que caracteriza corretamente o uso de relatos de viajantes como fonte histórica em situação didática.
  1. AO recurso a relatos de viajantes justifica-se pela escassez de fontes oficiais sobre uma determinada sociedade, uma vez que sua veracidade é frágil.
  2. BA literatura de viagem é um testemunho que informa a respeito do universo cultural da sociedade que a produziu e por onde circulou.
  3. CEste tipo de fonte, por sua natureza de testemunho ocular em primeira pessoa, possui maior credibilidade histórica, desde que submetida a crítica interna e externa.
  4. DA comparação entre os relatos de viajantes de diversas culturas no mesmo período permite estabelecer hierarquias entre os saberes.
  5. EOs registros de viagem são um gênero literário medieval fantasioso, em que se encontram locais fantásticos e animais monstruosos, não sendo apto à investigação histórica.
Revelar gabarito e comentário

GabaritoB — A literatura de viagem é um testemunho que informa a respeito do universo cultural da sociedade que a produziu e por onde circulou.

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

Relatos de viajantes como fonte histórica

Gabarito: letra B. A literatura de viagem, ainda que fantasiosa ou compilada, é um testemunho do universo cultural da sociedade que a produziu e por onde circulou — é exatamente isso que a alternativa B afirma. O trecho sobre Jean de Mandeville mostra que, mesmo sem veracidade factual, o relato revela as referências, os saberes e as expectativas de seu tempo, sendo, portanto, uma fonte legítima para o historiador.

A questão aborda um tema central da teoria da história: o uso de relatos de viajantes como fonte histórica. É preciso superar a visão ingênua de que a fonte histórica é um espelho fiel do passado. Todo documento — inclusive o relato de viagem — é uma representação, uma construção cultural que reflete o olhar de quem o produziu, seus valores, seus medos, seus desejos e seu repertório de conhecimento. O caso de Mandeville é exemplar: sua obra, provavelmente uma compilação de relatos anteriores, não descreve uma viagem real, mas informa sobre o que a Europa do século XIV imaginava, conhecia e valorizava a respeito do mundo. Assim, a fonte não vale pelo que diz sobre o lugar visitado, mas pelo que revela sobre a cultura de origem.

A banca explora a distinção entre "veracidade factual" e "valor documental". O candidato que busca apenas a verdade dos fatos tende a descartar relatos fantasiosos; o historiador, porém, pergunta: por que essa fantasia circulava? O que ela diz sobre as crenças, os medos e as expectativas da época? É essa mudança de pergunta que transforma a literatura de viagem em fonte histórica rica.

Relato de viajante como fonte histórica
  • 1Natureza
    • Representação cultural
    • Reflete o olhar de quem produziu
    • Vale pelo contexto de origem, não pela veracidade
  • 2Uso correto
    • Revela imaginário, valores e saberes da época
    • Fonte sobre a cultura que a produziu
  • 3Erros comuns
    • Exigir veracidade factual
    • Descartar por ser fantasioso
    • Hierarquizar saberes entre culturas
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Alternativa A — ❌ Incorreta

Afirma que o recurso a relatos de viajantes se justifica pela escassez de fontes oficiais e que sua veracidade é frágil. O erro está em reduzir o valor da fonte à sua veracidade factual. A literatura de viagem não é usada apenas quando faltam outras fontes, nem sua fragilidade de veracidade a invalida — pelo contrário, é justamente sua dimensão cultural que a torna relevante. A escassez de fontes pode até motivar o uso, mas não é a justificativa teórica correta.

Alternativa B — ✅ Correta ⟵ GABARITO

A literatura de viagem é um testemunho que informa a respeito do universo cultural da sociedade que a produziu e por onde circulou. É exatamente o que o caso de Mandeville demonstra: sua compilação, mesmo sem corresponder a uma viagem real, revela o repertório de relatos, referências bíblicas e conhecimentos geográficos que circulavam na Europa do século XIV. A fonte vale como documento da cultura que a gerou, não como descrição fiel do mundo.

Alternativa C — ❌ Incorreta

Afirma que, por ser testemunho ocular em primeira pessoa, o relato de viajante possui maior credibilidade histórica. Há dois erros: primeiro, nem todo relato de viagem é testemunho ocular — o próprio Mandeville provavelmente não viajou; segundo, a credibilidade não decorre da natureza da fonte, mas da crítica histórica. A crítica interna e externa é necessária, mas não torna a fonte "mais confiável" por ser de primeira pessoa — ela apenas permite avaliar sua natureza e seus limites.

Alternativa D — ❌ Incorreta

Propõe que a comparação entre relatos de diferentes culturas permite estabelecer hierarquias entre os saberes. A ideia de hierarquia entre saberes é etnocêntrica e contrária à perspectiva historiográfica contemporânea, que busca compreender cada cultura em seus próprios termos, não classificá-la como superior ou inferior. A comparação pode revelar diferenças e trocas, mas não estabelece hierarquia de valor.

Alternativa E — ❌ Incorreta

Afirma que os registros de viagem são um gênero fantasioso, com locais fantásticos e animais monstruosos, não apto à investigação histórica. O erro está em generalizar e descartar o gênero. Embora muitos relatos contenham elementos fantásticos, isso não os torna inúteis para a história — ao contrário, esses elementos são justamente o que revela o imaginário da época. A literatura de viagem é apta à investigação histórica, desde que analisada como representação cultural.

NÃO CAIA NESSA!

A banca tenta fazer o candidato confundir "veracidade factual" com "valor documental". As alternativas A, C e E partem da premissa de que a fonte só vale se for verdadeira — e é exatamente essa premissa que a historiografia moderna rejeita. Lembre-se: o relato de viagem não é fonte sobre o lugar visitado, mas sobre a cultura que o produziu. Com essa chave, você elimina as três de uma vez.

PEGA ESSA DICA!

Na prova, ao analisar uma fonte histórica, pergunte-se sempre: "o que esta fonte revela sobre a sociedade que a produziu?" — não "ela é verdadeira?". Essa é a virada de chave da teoria da história. Treine com exemplos: uma carta de um missionário, um mapa antigo, um relato de naufrágio — todos valem pelo que dizem sobre seu contexto de produção.

Gabarito: letra B.

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