Questão de Medicina — Gastroenterologia — FGV 2023
- Código
- fg072898
- Banca
- FGV
- Órgão
- TJ-SE
- Ano
- 2023
- Nível
- Superior
- Cargo
- Analista Judiciário - Especialidade - Medicina - Clínica Geral
- AIgG4;
- BFAN;
- CC3 e CH50;
- Dantimitocôndria;
- Eantimúsculo liso.
GabaritoA — IgG4;
Gabarito: letra A. O quadro descrito — jovem sem litíase biliar nem álcool, com história familiar de pancreatite de repetição, dor abdominal alta, náuseas, vômitos, elevação de amilase e lipase e edema pancreático difuso sem litíase ou dilatação de vias biliares — é altamente sugestivo de pancreatite autoimune (PAI), e o exame laboratorial que mais auxilia no diagnóstico é a dosagem de IgG4, marcador clássico da forma tipo 1 da doença. As demais alternativas (FAN, C3/CH50, antimitocôndria, antimúsculo liso) são autoanticorpos ligados a outras doenças autoimunes, não à PAI.
A pancreatite autoimune é uma forma de pancreatite crônica de causa imunomediada, que se apresenta com episódios recorrentes de dor abdominal, podendo simular neoplasia ou pancreatite aguda. O diagnóstico é feito pela combinação de critérios clínicos, laboratoriais, de imagem e histológicos. O IgG4 é uma imunoglobulina que, quando elevada (tipicamente > 2x o limite superior da normalidade), é um dos principais marcadores da PAI tipo 1, também chamada de doença relacionada ao IgG4. Essa forma frequentemente se associa a outras manifestações da doença por IgG4, como colangite esclerosante, sialadenite, fibrose retroperitoneal e adenopatia.
A história familiar de pancreatite de repetição é um dado importante: embora a PAI não seja classicamente hereditária, há relatos de agregação familiar, e a recorrência de episódios sem causa biliar ou alcoólica deve levantar a suspeita. Os exames de imagem mostram edema difuso do pâncreas, que na PAI pode aparecer como aumento difuso do órgão ("salsicha"), com realce tardio na tomografia. A ausência de litíase e de dilatação de vias biliares afasta as causas mais comuns de pancreatite aguda (biliar e alcoólica), reforçando a hipótese autoimune.
O diagnóstico diferencial inclui outras doenças autoimunes que podem cursar com pancreatite, como lúpus eritematoso sistêmico (LES), síndrome de Sjögren e vasculites. Por isso, a banca oferece alternativas como FAN, C3/CH50, antimitocôndria e antimúsculo liso, que são marcadores de outras condições. O FAN é positivo em lúpus e outras colagenoses; C3 e CH50 são consumidos em doenças por imunocomplexos; antimitocôndria é marcador de colangite biliar primária; antimúsculo liso é marcador de hepatite autoimune. Nenhum deles é específico para pancreatite autoimune.
A pegadinha desta questão está em reconhecer que, apesar de a pancreatite aguda ser diagnosticada por amilase e lipase, o enunciado pede o exame que auxiliaria no diagnóstico etiológico — e, nesse contexto, o IgG4 é o marcador que fecha o diagnóstico de PAI. O aluno que não conhece a PAI pode se perder entre os autoanticorpos, mas o quadro clínico (jovem, sem fatores de risco clássicos, história familiar, recorrência) aponta diretamente para a doença relacionada ao IgG4.
A dosagem de IgG4 é o exame laboratorial mais útil no diagnóstico da pancreatite autoimune tipo 1, que se encaixa perfeitamente no quadro descrito: paciente jovem, sem litíase biliar ou etilismo, com história familiar de pancreatite de repetição, dor abdominal alta, náuseas, vômitos, elevação de amilase e lipase e edema pancreático difuso sem obstrução biliar. A elevação de IgG4 (geralmente acima de 2 vezes o valor de referência) é um dos critérios diagnósticos da doença, junto com imagem típica, histologia e resposta a corticoides.
O FAN (fator antinúcleo) é um marcador de autoimunidade inespecífico, presente em lúpus eritematoso sistêmico, síndrome de Sjögren, esclerodermia e outras colagenoses. Embora possa estar positivo em algumas doenças autoimunes que cursam com pancreatite, não é o exame que mais auxilia no diagnóstico da pancreatite autoimune. A PAI tipo 1 não tem FAN como marcador característico; o marcador é o IgG4.
C3 e CH50 são componentes do sistema complemento, dosados em doenças por imunocomplexos, como lúpus eritematoso sistêmico, glomerulonefrites e vasculites. Na pancreatite autoimune, não há consumo de complemento como mecanismo central, e a dosagem de C3/CH50 não tem papel no diagnóstico dessa condição. A banca incluiu essa alternativa para confundir com doenças autoimunes sistêmicas.
O anticorpo antimitocôndria (AMA) é o marcador sorológico da colangite biliar primária, doença hepática autoimune que afeta os ductos biliares intra-hepáticos. Não está associado à pancreatite autoimune. A presença de AMA não auxilia no diagnóstico de PAI, e a doença hepática não é o foco do quadro apresentado.
O anticorpo antimúsculo liso (ASMA) é um marcador de hepatite autoimune, especialmente do tipo 1. Não tem relação com pancreatite autoimune. A banca incluiu essa alternativa para testar o conhecimento dos autoanticorpos associados a doenças autoimunes do fígado, que podem confundir o candidato menos atento.
Gabarito: letra A — a dosagem de IgG4 é o exame que mais auxilia no diagnóstico da pancreatite autoimune, condição que se manifesta com pancreatite de repetição em paciente jovem sem fatores de risco clássicos.
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