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Questão de Medicina — Gastroenterologia — FGV 2023

MedicinaGastroenterologia
Código
fg072926
Banca
FGV
Órgão
TJ-SE
Ano
2023
Nível
Superior
Cargo
Analista Judiciário - Especialidade - Medicina - Clínica Geral
Paciente de 64 anos vinha em tratamento de primeira linha para câncer gastrointestinal, tendo realizado o último ciclo de quimioterapia três dias antes de sua admissão na emergência, onde chega queixando-se de diarreia profusa com cerca de cinco episódios diários, associados a mal-estar generalizado, dor abdominal, náuseas e vômitos. Ao exame: desidratada++/4+, eupneica, lúcida. PA 110 X 60mmHg, FC 88 bpm, SatO2 98%. À palpação: abdome distendido e difusamente doloroso, sem sinais de irritação peritoneal.Quanto ao caso em questão, é correto afirmar que:
  1. Ahá alto risco de neutropenia febril, portanto, a paciente deve ser internada prontamente e filgrastim deve ser iniciado de forma precoce, não sendo necessário aguardar resultado do hemograma;
  2. Bhemoculturas deverão ser prontamente coletadas, seguidas de início de antibiótico na primeira hora, já que se trata de quadro séptico em paciente imunossuprimido;
  3. Ctoxicidade gastrointestinal à quimioterapia seria a principal hipótese, e a paciente deve ser abordada inicialmente com reposição volêmica e sintomáticos;
  4. Dcolite pseudomembranosa seria a principal hipótese, e a paciente poderia ser tratada com vancomicina oral ambulatorialmente;
  5. Eos efeitos colaterais apresentados pela paciente sugerem reação grave à quimioterapia, justificando a troca do agente quimioterápico no próximo ciclo de tratamento.
Revelar gabarito e comentário

GabaritoC — toxicidade gastrointestinal à quimioterapia seria a principal hipótese, e a paciente deve ser abordada inicialmente com reposição volêmica e sintomáticos;

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Toxicidade gastrointestinal à quimioterapia: abordagem inicial

Gabarito: letra C. A paciente, em uso recente de quimioterapia (último ciclo há 3 dias), apresenta diarreia profusa, náuseas, vômitos e dor abdominal — quadro clássico de toxicidade gastrointestinal induzida por quimioterapia, que deve ser manejado inicialmente com reposição volêmica e tratamento sintomático. As demais alternativas propõem condutas precipitadas ou diagnósticos menos prováveis, sem base nos dados apresentados.

A toxicidade gastrointestinal é um dos efeitos adversos mais comuns da quimioterapia, afetando até 80% dos pacientes oncológicos. Ela ocorre porque os agentes quimioterápicos atacam células de rápida divisão, incluindo as células epiteliais do trato gastrointestinal, levando a diarreia, náuseas, vômitos, mucosite e dor abdominal. O quadro clínico da paciente — diarreia profusa (5 episódios/dia), náuseas, vômitos, dor abdominal e desidratação — é altamente sugestivo dessa toxicidade, especialmente por ter ocorrido poucos dias após o ciclo de quimioterapia.

A abordagem inicial deve ser suporte clínico: reposição volêmica para corrigir a desidratação, antieméticos (como ondansetrona ou metoclopramida) para controle de náuseas e vômitos, e loperamida para diarreia, se não houver contraindicação. A paciente está hemodinamicamente estável (PA 110x60 mmHg, FC 88 bpm, SatO2 98%), sem sinais de sepse ou irritação peritoneal, o que reforça que não há necessidade imediata de antibióticos ou internação para tratamento agressivo.

É importante distinguir a toxicidade gastrointestinal de outras complicações, como neutropenia febril, sepse ou colite pseudomembranosa. A neutropenia febril é definida como febre (temperatura ≥ 38,3°C) em paciente neutropênico (neutrófilos < 500/mm³), e a paciente não apresenta febre. A sepse exigiria sinais de disfunção orgânica, taquicardia, hipotensão ou alteração do nível de consciência, o que não está presente. A colite pseudomembranosa, causada por Clostridium difficile, geralmente ocorre após uso de antibióticos, não de quimioterapia, e cursaria com diarreia sanguinolenta e febre.

A pegadinha desta questão está em não confundir toxicidade gastrointestinal com neutropenia febril ou sepse. A banca tenta induzir o candidato a pensar em complicações infecciosas graves, mas a ausência de febre e a estabilidade hemodinâmica apontam para uma toxicidade não complicada, que deve ser manejada com suporte. O critério decisivo é a presença ou ausência de sinais de gravidade (febre, instabilidade hemodinâmica, sinais de peritonite) — é exatamente nessa fronteira que as alternativas se dividem.

Critério

Toxicidade GI à quimioterapia (C)

Neutropenia febril (A)

Sepse (B)

Colite pseudomembranosa (D)

Contexto típico

Quimioterapia recente (3 dias)

Quimioterapia + neutropenia (< 500/mm³)

Infecção com disfunção orgânica

Uso prévio de antibióticos

Febre

Ausente

Presente (≥ 38,3°C)

Presente ou hipotermia

Frequentemente presente

Hemodinâmica

Estável (PA 110x60, FC 88)

Variável

Instável (disfunção orgânica)

Variável

Diarreia

Profusa, não sanguinolenta

Pode ocorrer, mas não é o foco

Pode ocorrer, mas não é o foco

Sanguinolenta, associada a C. difficile

Conduta inicial

Reposição volêmica + sintomáticos

Hemograma + antibiótico/filgrastim se indicado

Hemoculturas + antibiótico na 1ª hora

Vancomicina oral (após confirmação)

1Quadro típico
Diarreia profusa
Náuseas e vômitos
Dor abdominal
2Abordagem inicial
Reposição volêmica
Sintomáticos (antieméticos, antidiarreicos)
3Sinais de alarme (ausentes)
Febre
Instabilidade hemodinâmica
Irritação peritoneal
4Diagnósticos diferenciais
Neutropenia febril (exige febre)
Sepse (exige disfunção orgânica)
Colite pseudomembranosa (pós-antibiótico)
Toxicidade GI pós-quimioterapia
LEVELsoulevel.com.br
Toxicidade GI pós-quimioterapia: Quadro típico (Diarreia profusa, Náuseas e vômitos, Dor abdominal); Abordagem inicial (Reposição volêmica, Sintomáticos (antieméticos, antidiarreicos)); Sinais de alarme (ausentes) (Febre, Instabilidade hemodinâmica, Irritação peritoneal); Diagnósticos diferenciais (Neutropenia febril (exige febre), Sepse (exige disfunção orgânica), Colite pseudomembranosa (pós-antibiótico))

Alternativa A — ❌ Incorreta

Afirma que há alto risco de neutropenia febril e que filgrastim deve ser iniciado precocemente, sem aguardar hemograma. Erro: a paciente não apresenta febre, e o uso profilático de fator de crescimento (filgrastim) não é recomendado no manejo da neutropenia febril estabelecida, conforme as diretrizes. O filgrastim é usado profilaticamente em esquemas de alto risco, mas não há indicação de iniciá-lo sem confirmação de neutropenia e sem quadro febril. Além disso, a conduta correta seria aguardar o hemograma para avaliar a contagem de neutrófilos antes de qualquer intervenção.

Alternativa B — ❌ Incorreta

Afirma que hemoculturas devem ser coletadas e antibiótico iniciado na primeira hora, por se tratar de quadro séptico. Erro: a paciente não preenche critérios de sepse — está eupneica, lúcida, com PA e FC normais, sem febre. A coleta de hemoculturas e o início de antibióticos são indicados em neutropenia febril ou sepse, o que não é o caso. A conduta seria suporte clínico, não antibióticos empíricos.

Alternativa C — ✅ Correta ⟵ GABARITO

A toxicidade gastrointestinal à quimioterapia é a principal hipótese, dado o contexto de quimioterapia recente e o quadro de diarreia, náuseas, vômitos e dor abdominal. A abordagem inicial deve ser reposição volêmica para tratar a desidratação e medidas sintomáticas (antieméticos, antidiarreicos). A paciente está estável, sem sinais de alarme, o que permite manejo conservador.

Alternativa D — ❌ Incorreta

Afirma que colite pseudomembranosa seria a principal hipótese e que a paciente poderia ser tratada com vancomicina oral ambulatorialmente. Erro: a colite pseudomembranosa é causada por Clostridium difficile, geralmente associada ao uso prévio de antibióticos, não de quimioterapia. Além disso, a paciente não apresenta diarreia sanguinolenta nem febre, e o tratamento com vancomicina oral seria prematuro sem confirmação diagnóstica. A principal hipótese é toxicidade gastrointestinal, não infecção por C. difficile.

Alternativa E — ❌ Incorreta

Afirma que os efeitos colaterais sugerem reação grave à quimioterapia, justificando a troca do agente quimioterápico. Erro: a toxicidade gastrointestinal, embora desconfortável, não é necessariamente uma reação grave que exija troca do esquema. A decisão de trocar o agente quimioterápico depende da gravidade da toxicidade, da resposta ao tratamento e do risco-benefício, e não deve ser tomada apenas com base em sintomas gastrointestinais controláveis. A conduta inicial é suporte, não mudança de tratamento oncológico.

Gabarito: letra C

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