Questão de Medicina — Cardiologia e Alterações Vasculares — FGV 2024
Medicina›Cardiologia e Alterações Vasculares
Código
fg080246
Banca
FGV
Órgão
EBSERH
Ano
2024
Nível
Superior
Cargo
Acesso Direto
Uma mulher de 42 anos, com história de “reumatismo” na infância, procura ambulatório com um quadro de cansaço aos esforços. Tem história de “isquemia cerebral” há 2 anos, sem sequelas motoras. Ao exame físico, a pressão arterial é de 110 x 68 mmHg e a frequência cardíaca é de 60 batimentos por minuto. Apresenta ritmo cardíaco regular, bulhas normofonéticas e B1 acentuada. Na ausculta cardíaca, há um sopro diastólico em foco mitral. Nos exames laboratoriais, há um clearance de creatinina estimado em 46 mL/min/1,73 m². No ecocardiograma, foram observados estenose mitral moderada e episódios de fibrilação atrial no Holter de 24 horas.Em relação à prevenção de embolização sistêmica, está mais indicado o uso de:
Arivaroxabana de 15 mg, uma vez ao dia;
Baspirina na dosagem de 200 mg ao dia;
Capixabana de 2,5 mg, duas vezes ao dia;
Dvarfarina, com a dose de acordo com o INR;
Emetoprolol para manutenção do ritmo sinusal.
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GabaritoD — varfarina, com a dose de acordo com o INR;
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Estenose mitral e fibrilação atrial: prevenção de embolização sistêmica
Gabarito: letra D. A paciente tem estenose mitral reumática moderada com fibrilação atrial (FA) e clearance de creatinina de 46 mL/min/1,73 m². Na prevenção de embolização sistêmica, a anticoagulação oral é obrigatória, e a varfarina com dose ajustada pelo INR é a opção mais indicada, pois os anticoagulantes orais diretos (DOACs) — como rivaroxabana e apixabana — são contraindicados ou não recomendados na estenose mitral moderada a grave, especialmente de etiologia reumática. A aspirina não é alternativa adequada para prevenção de AVC na FA com estenose mitral, e o metoprolol apenas controla a frequência cardíaca, sem prevenir eventos tromboembólicos.
A estenose mitral é a valvopatia mais frequentemente associada à febre reumática, e a FA é sua complicação arrítmica mais comum. A fibrilação atrial aumenta em cerca de 5 vezes o risco de acidente vascular cerebral (AVC) isquêmico, e a mortalidade é duas vezes maior do que em indivíduos sem FA. Na paciente em questão, a história de "isquemia cerebral" há 2 anos provavelmente já foi um evento embólico decorrente da FA não anticoagulada — o que reforça a necessidade de anticoagulação plena.
A escolha do anticoagulante na FA associada à estenose mitral merece atenção especial. As diretrizes atuais recomendam anticoagulação com varfarina (antagonista da vitamina K) para pacientes com estenose mitral moderada a grave, especialmente de etiologia reumática, pois os DOACs não foram adequadamente estudados nessa população e não são recomendados. A paciente tem clearance de creatinina de 46 mL/min/1,73 m², o que permite o uso de DOACs em doses ajustadas (apixabana 2,5 mg 2x/dia seria uma opção para FA não valvar), mas a presença de estenose mitral moderada contraindica essa classe. A rivaroxabana 15 mg 1x/dia também seria uma opção para FA não valvar com clearance entre 15 e 50 mL/min, mas novamente a estenose mitral impede seu uso.
A aspirina não tem papel na prevenção de AVC na FA com estenose mitral — a anticoagulação plena é sempre necessária. O metoprolol é útil para controle da frequência ventricular na FA, mas não previne eventos tromboembólicos. A varfarina, com dose ajustada para manter INR entre 2,0 e 3,0, é o tratamento de escolha nesse cenário.
A pegadinha central desta questão é a distinção entre FA valvar e não valvar. A banca oferece DOACs em doses ajustadas para insuficiência renal (rivaroxabana 15 mg e apixabana 2,5 mg), que seriam corretos na FA não valvar, mas são inadequados na estenose mitral reumática. O candidato que não reconhece a estenose mitral como contraindicação relativa aos DOACs tende a escolher a apixabana, que é a alternativa mais atraente. Guarde a fronteira: estenose mitral moderada a grave (especialmente reumática) → varfarina; FA não valvar → DOACs ou varfarina.
Prevenção de embolização na FA: FA valvar (estenose mitral moderada/grave) (Varfarina (INR 2,0–3,0), DOACs (não recomendados)); FA não valvar (DOACs (dose ajustada), Varfarina); Controle de frequência (metoprolol) (Não previne tromboembolismo)
Alternativa A — ❌ Incorreta
A rivaroxabana 15 mg 1x/dia é uma dose ajustada para clearance de creatinina entre 15 e 50 mL/min, o que se aplicaria à paciente (46 mL/min). Porém, os DOACs não são recomendados na estenose mitral moderada a grave, especialmente de etiologia reumática. A rivaroxabana seria uma opção na FA não valvar, mas não neste caso.
Alternativa B — ❌ Incorreta
A aspirina não é alternativa adequada para prevenção de AVC na FA com estenose mitral. A anticoagulação plena com varfarina é sempre necessária nesse cenário, independentemente do escore de risco. A aspirina não reduz adequadamente o risco embólico na FA valvar.
Alternativa C — ❌ Incorreta
A apixabana 2,5 mg 2x/dia é a dose ajustada para pacientes com dois dos três critérios: idade ≥ 80 anos, peso ≤ 60 kg ou creatinina ≥ 1,5 mg/dL. A paciente tem clearance de 46 mL/min, o que poderia justificar essa dose na FA não valvar. Porém, a estenose mitral moderada contraindica o uso de DOACs, tornando a varfarina a escolha correta.
Alternativa D — ✅ Correta ⟵ GABARITO
A varfarina, com dose ajustada pelo INR (alvo 2,0–3,0), é o anticoagulante de escolha na estenose mitral moderada a grave com FA. Os DOACs não são recomendados nessa condição, e a anticoagulação plena é obrigatória para prevenção de embolização sistêmica. A paciente já teve um provável evento embólico ("isquemia cerebral"), o que reforça a indicação.
Alternativa E — ❌ Incorreta
O metoprolol é um betabloqueador usado para controle da frequência ventricular na FA, mas não tem efeito antitrombótico. Não previne embolização sistêmica e não substitui a anticoagulação.
NÃO CAIA NESSA!
A banca explora a confusão entre FA valvar e não valvar. As alternativas com DOACs (rivaroxabana e apixabana) em doses ajustadas para insuficiência renal parecem corretas, mas a estenose mitral moderada contraindica essa classe. O candidato que não reconhece essa distinção tende a escolher a apixabana, que seria a opção mais atraente na FA não valvar com clearance de 46 mL/min. Lembre-se: estenose mitral reumática → varfarina sempre.
PEGA ESSA DICA!
Na prova, quando a questão trouxer estenose mitral + FA, a resposta quase sempre será varfarina. Os DOACs são reservados para FA não valvar. Memorize a contraindicação: estenose mitral moderada a grave (especialmente reumática) é a principal exceção ao uso de DOACs na FA.