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Questão de Medicina — Hematologia — FGV 2024

MedicinaHematologia
Código
fg080249
Banca
FGV
Órgão
EBSERH
Ano
2024
Nível
Superior
Cargo
Acesso Direto
Uma mulher de 20 anos se queixa de edema generalizado iniciado há 3 semanas, que evoluiu com piora progressiva. Relata hiporexia e astenia nesse período. Desconhece ser portadora de doenças atuais ou prévias e não faz uso de quaisquer medicamentos ou drogas. Ao exame físico, PA: 160 x 90 mmHg, FC: 97 bpm, FR: 22 ipm, SpO2 98% (em ar ambiente). As mucosas estão hipocoradas, ictéricas e hidratadas. Há edema na face, pálpebras, parede abdominal e membros inferiores. Há também ascite e síndrome de derrame pleural. Exames de laboratório: sangue: Hb: 7,0 g/dL; Hct: 24%; VCM: 98 fL; HCM: 31 pg; CHCM: 32 g/dL; RDW: 18, 3%; leucócitos: 3.400/mm³; neutrófilos segmentados: 1.500/mm³; linfócitos: 700/mm³; Plq.: 201.000/mm³; PCR: 28m g/dL; FAN reagente: 1:320 padrão nuclear homogêneo; anti-DNA reagente; anti-SSA reagente; anti-SSB reagente; anti-Sm reagente; ANCA não reagente; C3: 43 mg/dL (90- 170 mg/dL); C4: 10 mg/dL (VR: 12-36 mg/dL); exame de urina: densidade 1.020; pH 6,0; nitrito negativo; proteínas ++++; hemoglobina ++; 4 piócitos/campo, 145 hemácias/campo; presença de cilindros hemáticos. Para investigação da anemia apresentada pela paciente, são solicitados os seguintes exames: LDL: 1150 UI/L (VR: 120-246 UI/L); BT: 4,2 mg/dL; BD: 0,4 mg/dL; reticulócitos: 18%, Coombs direto positivo; ferro sérico: 52 mcg/dL (VR: 65-175 mcg/dL); ferritina 650 ng/mL (VR: 10-291 ng/mL); capacidade total de ligação do ferro: 200 mcg/dL (250-425 mcg/dL).A conduta imediata mais adequada para o tratamento da anemia é:
  1. Aadministração de eritropoetina;
  2. Badministração de corticoide;
  3. Creposição de ferro parenteral;
  4. Dhemotransfusão;
  5. Eprescrição de hidroxicloroquina oral.
Revelar gabarito e comentário

GabaritoB — administração de corticoide;

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Anemia hemolítica autoimune no lúpus eritematoso sistêmico: conduta imediata

Gabarito: letra B. A paciente apresenta anemia hemolítica autoimune (AHAI) secundária a lúpus eritematoso sistêmico (LES) — evidenciada por anemia normocítica/normocrômica (VCM 98 fL, HCM 31 pg), reticulocitose (18%), Coombs direto positivo, hiperbilirrubinemia indireta (BT 4,2 mg/dL, BD 0,4 mg/dL) e LDH elevado — e a conduta imediata mais adequada é a administração de corticoide, que é a primeira linha de tratamento da AHAI, especialmente quando associada a doença autoimune ativa. A hemotransfusão (letra D) é reservada para casos de instabilidade hemodinâmica ou anemia grave sintomática, não sendo a conduta imediata de escolha neste cenário.

A anemia hemolítica autoimune é uma condição em que o sistema imunológico produz anticorpos contra os próprios eritrócitos, levando à sua destruição prematura. No caso apresentado, a paciente tem LES — doença autoimune sistêmica com envolvimento renal (proteinúria ++++, cilindros hemáticos, hematúria) e hematológico (leucopenia, linfopenia) — e desenvolveu AHAI, uma das manifestações hematológicas clássicas da doença. O diagnóstico de AHAI é confirmado pela tríade: anemia hemolítica (reticulocitose, LDH elevado, bilirrubina indireta aumentada), esferocitose (não descrita, mas implícita) e teste de Coombs direto positivo, que demonstra a presença de anticorpos ou complemento na superfície das hemácias.

O tratamento da AHAI depende da gravidade e da causa subjacente. Em casos secundários a doenças autoimunes como o LES, o tratamento da doença de base é fundamental, e os corticosteroides são a primeira linha de terapia. A prednisona oral ou a metilprednisolona intravenosa em pulsos são as opções iniciais, com resposta esperada em dias a semanas. A hemotransfusão é uma medida de suporte, indicada apenas em situações de emergência — como anemia grave com sinais de hipóxia ou instabilidade hemodinâmica — e deve ser feita com cautela, pois pode agravar a hemólise em alguns casos. A eritropoetina não tem papel no tratamento da AHAI, pois a medula óssea já está produzindo reticulócitos em resposta à hemólise. A reposição de ferro é contraindicada, pois o ferro liberado pela hemólise já está elevado (ferritina 650 ng/mL). A hidroxicloroquina é um imunomodulador usado no tratamento de manutenção do LES, mas não é a conduta imediata para a anemia hemolítica aguda.

A distinção crucial aqui é entre o tratamento da crise hemolítica aguda e o tratamento de manutenção da doença autoimune. Enquanto o corticoide age rapidamente suprimindo a resposta imune e reduzindo a hemólise, a hidroxicloroquina tem ação lenta e é usada para controle a longo prazo do LES. A banca explora exatamente essa confusão: o aluno que identifica o LES pode pensar em hidroxicloroquina, mas a conduta imediata para a anemia hemolítica é o corticoide. Da mesma forma, a hemotransfusão pode parecer atraente pela Hb de 7,0 g/dL, mas não é a primeira escolha em AHAI estável, pois o risco de reação transfusional e agravamento da hemólise é maior.

NÃO CAIA NESSA!

A banca explora a confusão entre o tratamento da crise hemolítica aguda e o tratamento de manutenção do LES. O candidato que identifica o lúpus pode ser tentado a escolher hidroxicloroquina (letra E), mas ela é para controle a longo prazo, não para a anemia aguda. Da mesma forma, a Hb de 7,0 g/dL pode sugerir hemotransfusão (letra D), mas em AHAI a transfusão é reservada para casos de instabilidade, pois o anticorpo pode hemolisar as hemácias transfundidas. O corticoide é a primeira linha — ele age rápido, suprimindo a hemólise e tratando a causa autoimune.

1Diagnóstico
Anemia hemolítica (reticulocitose, LDH↑, BI↑)
Coombs direto positivo
Esferocitose
2Tratamento imediato
Corticoide (1ª linha)
Hemotransfusão (só instabilidade)
Eritropoetina (medula já hiperativa)
Reposição de ferro (ferritina já elevada)
3Manutenção do LES
Hidroxicloroquina (ação lenta)
Anemia hemolítica autoimune (AHAI)
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Anemia hemolítica autoimune (AHAI): Diagnóstico (Anemia hemolítica (reticulocitose, LDH↑, BI↑), Coombs direto positivo, Esferocitose); Tratamento imediato (Corticoide (1ª linha), Hemotransfusão (só instabilidade), Eritropoetina (medula já hiperativa), Reposição de ferro (ferritina já elevada)); Manutenção do LES (Hidroxicloroquina (ação lenta))

Alternativa A — ❌ Incorreta

A eritropoetina estimula a produção de hemácias pela medula óssea, mas na AHAI a medula já está hiperativa (reticulócitos de 18%), e o problema não é a produção insuficiente, e sim a destruição periférica das hemácias pelos anticorpos. Não há indicação de eritropoetina neste contexto.

Alternativa B — ✅ Correta ⟵ GABARITO

O corticoide é a primeira linha de tratamento da AHAI, especialmente quando secundária a doença autoimune como o LES. Ele suprime a resposta imune, reduz a produção de anticorpos e a hemólise. A resposta é rápida, e é a conduta imediata mais adequada para a anemia hemolítica autoimune da paciente.

Alternativa C — ❌ Incorreta

A reposição de ferro parenteral é contraindicada na AHAI. A paciente tem ferritina elevada (650 ng/mL) e ferro sérico baixo (52 mcg/dL) — mas isso é consequência da hemólise, que libera ferro das hemácias destruídas, e não de deficiência de ferro. A ferritina é um reagente de fase aguda e está elevada também pela inflamação. Repor ferro aqui seria inútil e potencialmente prejudicial.

Alternativa D — ❌ Incorreta

A hemotransfusão é uma medida de suporte, não a conduta imediata de escolha. Em AHAI, a transfusão deve ser evitada sempre que possível, pois os anticorpos podem hemolisar as hemácias transfundidas, agravando o quadro. É reservada para casos de anemia grave com instabilidade hemodinâmica, hipóxia ou risco de vida iminente — o que não é o caso, já que a paciente está estável (SpO2 98%, FC 97 bpm).

Alternativa E — ❌ Incorreta

A hidroxicloroquina é um imunomodulador usado no tratamento de manutenção do LES, reduzindo surtos e danos a órgãos. Porém, tem ação lenta (semanas a meses) e não é eficaz para tratar a crise hemolítica aguda. A conduta imediata para a anemia hemolítica é o corticoide; a hidroxicloroquina pode ser adicionada posteriormente para controle da doença de base.

Gabarito: letra B — administração de corticoide é a conduta imediata mais adequada para a anemia hemolítica autoimune secundária ao lúpus eritematoso sistêmico.

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