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Questão de Medicina — Neurologia — FGV 2024

MedicinaNeurologia
Código
fg080617
Banca
FGV
Órgão
EBSERH
Ano
2024
Nível
Superior
Cargo
Ano Adicional - Neurologia
Menino de 11 meses é internado na emergência hemiplégico. Segundo a avó, a criança, iniciou há 3 semanas febre diária somente a noite, com tosse e expectoração abundante. Há 3 dias não movimenta o braço e a perna esquerda. Nos antecedentes, parto e desenvolvimento psicomotor normais; vacinações em dia. Pai e tio, que moram com a criança, têm “fraqueza no pulmão”. Ao exame estava febril, sonolento, irritado, chorando ao ser manuseado; papila óptica de bordas imprecisas bilateralmente e rigidez de nuca.Foi iniciado tratamento com rifampicina + etambutol + isoniazida após o seguinte resultado preliminar do exame do liquor:
  1. Aaspecto claro, 105 leucócitos/mm³ (> linfócitos), proteína 64 mg/%, glicose 18 mg/%, bacterioscopia direta negativa;
  2. Baspecto purulento, 1050 leucócitos/mm³ (> polimorfos), proteína 84 mg/%, glicose 15 mg/%, Gram positivo para diplococus;
  3. Caspecto límpido, 500 leucócitos/mm³ (> linfócitos), proteína 50 mg %, glicose 40 mg/%, bacterioscopia direta negativa;
  4. Daspecto turvo, 300 leucócitos/mm³ (> linfócitos), proteína 120 mg %, glicose 20 mg/%, cultura positiva no meio de Sabouraud;
  5. Easpecto xantocrômico, 300 hemácias/mm³, proteína 40 mg/%, glicose 50 mg/%, bacterioscopia direta negativa.
Revelar gabarito e comentário

GabaritoA — aspecto claro, 105 leucócitos/mm³ (> linfócitos), proteína 64 mg/%, glicose 18 mg/%, bacterioscopia direta negativa;

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

Meningite tuberculosa em lactente: análise do liquor

Gabarito: letra A. O quadro clínico — febre vespertina há 3 semanas, tosse, contato com adultos com "fraqueza no pulmão" (prováveis tuberculosos), hemiparesia, papiledema e rigidez de nuca — é altamente sugestivo de meningite tuberculosa (MTB). O liquor típico é de aspecto claro, com pleocitose linfocitária moderada (100–500 células/mm³), proteína elevada e glicose muito baixa (< 40 mg/dL), com bacterioscopia direta negativa — exatamente o padrão da alternativa A. O tratamento empírico com rifampicina + etambutol + isoniazida (esquema RIPE) foi iniciado corretamente, pois a MTB é uma emergência neurológica e o diagnóstico definitivo (cultura, PCR) demora.

A meningite tuberculosa é a forma mais grave de tuberculose extrapulmonar, ocorrendo principalmente em crianças pequenas (6 meses a 4 anos) e imunocomprometidos, como complicação da disseminação hematogênica do Mycobacterium tuberculosis a partir de um foco pulmonar primário. No lactente, o quadro é insidioso: febre baixa, irritabilidade, anorexia e tosse por semanas, evoluindo com sinais meníngeos, hipertensão intracraniana (papiledema, vômitos) e déficits focais (hemiparesia) quando há vasculite ou tuberculoma. O diagnóstico é clínico-epidemiológico e laboratorial, sendo o liquor a pedra angular.

O padrão liquórico da MTB é característico e distinto das meningites bacteriana aguda e fúngica. Na MTB, o liquor costuma ser claro ou levemente turvo, com pleocitose de predomínio linfocitário (geralmente 100–500 células/mm³, podendo ser menor em imunossuprimidos), proteinorraquia elevada (frequentemente > 100 mg/dL, mas pode ser moderada) e glicorraquia baixa (< 40 mg/dL, com relação glicose liquor/sangue < 0,5). A bacterioscopia direta (BAAR) é negativa na maioria dos casos (positiva em apenas 10–20%), e a cultura em meio de Löwenstein-Jensen demora 4–8 semanas. Por isso, o tratamento empírico deve ser iniciado diante de forte suspeita clínica, mesmo com liquor "não confirmatório".

A alternativa A apresenta exatamente esse padrão: aspecto claro, 105 leucócitos/mm³ com predomínio linfocitário, proteína 64 mg/dL (elevada) e glicose 18 mg/dL (muito baixa), com bacterioscopia negativa. Os demais padrões liquóricos apontam para outras etiologias: a B é típica de meningite bacteriana aguda (purulento, polimorfonucleares, Gram positivo); a C, apesar de linfocitária, tem glicose normal (40 mg/dL), o que afasta MTB; a D sugere meningite fúngica (cultura em Sabouraud), mas o aspecto turvo e a proteína muito alta são atípicos; a E é compatível com hemorragia subaracnoide (xantocromia, hemácias).

A grande pegadinha desta questão é a glicorraquia: na MTB, a glicose está muito baixa (< 40 mg/dL), e não normal. A alternativa C tenta confundir com um liquor linfocitário de glicose normal (padrão de meningite viral ou parcialmente tratada), que não se encaixa no quadro clínico de evolução subaguda com hipertensão intracraniana e contato tuberculoso. Guarde o tripé: linfocitose + proteína alta + glicose baixa = MTB (ou fúngica); linfocitose + glicose normal = viral.

Critério

Meningite Tuberculosa (A)

Meningite Bacteriana Aguda (B)

Meningite Viral (C)

Meningite Fúngica (D)

Hemorragia Subaracnoide (E)

Aspecto do liquor

Claro

Purulento

Límpido

Turvo

Xantocrômico

Celularidade (leucócitos/mm³)

105 (linfócitos)

1050 (polimorfonucleares)

500 (linfócitos)

300 (linfócitos)

300 hemácias/mm³

Proteína (mg/dL)

64 (elevada)

84 (elevada)

50 (normal)

120 (muito elevada)

40 (normal)

Glicose (mg/dL)

18 (muito baixa)

15 (muito baixa)

40 (normal)

20 (baixa)

50 (normal)

Exame específico

Bacterioscopia negativa (BAAR –)

Gram positivo para diplococos

Bacterioscopia negativa

Cultura positiva em Sabouraud

Bacterioscopia negativa

Alternativa A — ✅ Correta ⟵ GABARITO

Este é o padrão liquórico clássico da meningite tuberculosa: aspecto claro, pleocitose linfocitária moderada (105 células/mm³), proteína elevada (64 mg/dL) e glicose muito baixa (18 mg/dL), com bacterioscopia direta negativa. O quadro clínico (febre vespertina, contato com tuberculosos, hemiparesia, papiledema, rigidez de nuca) e a resposta ao esquema RIPE confirmam o diagnóstico. A glicose < 40 mg/dL é o dado decisivo que separa a MTB da meningite viral.

Alternativa B — ❌ Incorreta

Liquor purulento com 1050 leucócitos/mm³ (> polimorfonucleares), proteína 84 mg/dL, glicose 15 mg/dL e Gram positivo para diplococos é o padrão clássico de meningite bacteriana aguda (provavelmente pneumococo). O início é agudo (horas a dias), com febre alta, e não se encaixa na evolução subaguda de 3 semanas com contato tuberculoso. O tratamento seria antibiótico bactericida de amplo espectro (ceftriaxona + vancomicina), não o esquema RIPE.

Alternativa C — ❌ Incorreta

Aspecto límpido, 500 leucócitos/mm³ (> linfócitos), proteína 50 mg/dL e glicose 40 mg/dL (normal) com bacterioscopia negativa é compatível com meningite viral/asséptica ou MTB em fase muito inicial. Porém, a glicose normal praticamente afasta a MTB, que cursa com hipoglicorraquia acentuada. Além disso, o quadro clínico com hemiparesia, papiledema e contato tuberculoso é muito mais sugestivo de MTB, cujo liquor teria glicose bem mais baixa.

Alternativa D — ❌ Incorreta

Aspecto turvo, 300 leucócitos/mm³ (> linfócitos), proteína 120 mg/dL, glicose 20 mg/dL e cultura positiva em meio de Sabouraud indica meningite fúngica (ex.: criptococose). Embora a glicose baixa e a linfocitose sejam semelhantes à MTB, o meio de Sabouraud é seletivo para fungos, e o quadro clínico (criança imunocompetente, vacinada, sem fatores de risco) não sugere infecção fúngica. A MTB não cresce em Sabouraud, e sim em meio de Löwenstein-Jensen.

Alternativa E — ❌ Incorreta

Aspecto xantocrômico com 300 hemácias/mm³, proteína 40 mg/dL e glicose 50 mg/dL é típico de hemorragia subaracnoide (xantocromia por degradação da hemoglobina). Não há pleocitose linfocitária significativa, a glicose está normal e o quadro clínico não é de sangramento meníngeo (início súbito com cefaleia "em trovoada"). A hemiparesia e a febre prolongada apontam para processo infeccioso-inflamatório, não hemorrágico.

NÃO CAIA NESSA!

A banca explora a confusão entre os padrões liquóricos de meningite tuberculosa e viral. Na MTB, a glicose está muito baixa (< 40 mg/dL), enquanto na viral está normal. A alternativa C (linfocitose + glicose 40 mg/dL) parece atraente, mas a glicose normal a descarta. Decore o tripé da MTB: linfocitose + proteína alta + glicose baixa.

PEGA ESSA DICA!

Na prova, monte uma tabela mental comparando os liquor das meningites: bacteriana (purulento, polimorfos, glicose baixa, Gram +), tuberculosa (claro, linfócitos, proteína alta, glicose muito baixa, BAAR -), viral (límpido, linfócitos, glicose normal) e fúngica (claro/turvo, linfócitos, glicose baixa, tinta da China/Sabouraud +). Isso resolve a maioria das questões sobre o tema.

Gabarito: letra A

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