Questão de Medicina — Doenças Infecto-Parasitárias — FGV 2024
Medicina›Doenças Infecto-Parasitárias
Código
fg082287
Banca
FGV
Órgão
EBSERH
Ano
2024
Nível
Superior
Cargo
Residência Multi e Uniprofissional - Medicina Veterinária
Um cão foi levado ao seu consultório, e durante a anamnese, o proprietário informou que o animal era de rua, e que o recolheu com intenção de adotá-lo.No exame clínico você constatou caquexia, apatia, hipotricose, feridas dispersas na cabeça e orelhas, ao redor dos olhos e do nariz, opacidade na cápsula anterior do cristalino, blefarite e onicogrifose. A palpação abdominal revelou hepatoesplenomegalia; não foi detectada, no exame físico, nenhuma outra alteração.Assinale a opção que indica sua suspeita clínica mais imediata.
ACalazar por Leishmania chagasi.
BDermatofitose por Microsporidium canis.
CDemodicose por Demodex canis.
DDermatofitose por Trycophyton mentagrophytes.
EDermatofitose associada a quadro de desnutrição crônica.
Revelar gabarito e comentário▾
GabaritoA — Calazar por Leishmania chagasi.
Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.
Gabarito: letra A. O quadro descrito — caquexia, apatia, hipotricose, feridas perioculares e perinasais, opacidade de cristalino, blefarite, onicogrifose e hepatoesplenomegalia em cão de rua — é altamente sugestivo de leishmaniose visceral canina (calazar), causada pela Leishmania chagasi (sinônimo de L. infantum). A combinação de lesões cutâneas características com hepatoesplenomegalia é o achado clínico que direciona imediatamente para essa suspeita, sendo as demais alternativas (dermatofitoses e demodicose) causas de lesões de pele que não explicam o quadro sistêmico completo.
A leishmaniose visceral é uma zoonose causada por protozoários do gênero Leishmania, transmitidos pela picada de flebotomíneos (mosquito-palha, do gênero Lutzomyia no Brasil). O cão doméstico é o principal reservatório urbano do parasita, especialmente da espécie L. chagasi (também denominada L. infantum). A doença canina é crônica e progressiva, com um espectro clínico amplo que vai de animais assintomáticos a quadros graves e debilitantes.
O quadro clínico clássico do calazar canino inclui:
Alterações cutâneas: hipotricose (perda de pelos), descamação, úlceras e feridas, especialmente em áreas de pouca pelagem como orelhas, ao redor dos olhos (periocular) e do nariz (perinasal).
Alterações oculares: blefarite, ceratoconjuntivite, uveíte e opacidade de cristalino (catarata).
Alterações ungueais: onicogrifose (crescimento excessivo e anormal das unhas).
Alterações viscerais: hepatoesplenomegalia (aumento do fígado e do baço), linfadenomegalia.
A hepatoesplenomegalia é um achado central e quase sempre presente na leishmaniose visceral, refletindo a proliferação do parasita no sistema fagocítico mononuclear. É esse sinal, em conjunto com as lesões cutâneas típicas, que torna a suspeita de calazar a mais imediata.
O diagnóstico é clínico-epidemiológico e laboratorial, confirmado por métodos parasitológicos (exame direto de aspirado de linfonodo, medula óssea ou baço), sorológicos (ELISA, RIFI) e moleculares (PCR). O tratamento é complexo e, no Brasil, a eutanásia é recomendada pelo Ministério da Saúde em casos positivos, devido ao papel do cão como reservatório.
As alternativas B, C, D e E apresentam doenças de pele que podem causar lesões cutâneas, mas não explicam o quadro sistêmico completo, especialmente a hepatoesplenomegalia. A dermatofitose (B e D) e a demodicose (C) são afecções cutâneas primárias, sem o comprometimento visceral característico. A alternativa E (dermatofitose associada à desnutrição) também não justifica a hepatoesplenomegalia, que é o sinal-chave para a suspeita de leishmaniose.
Guarde a associação lesões cutâneas perioculares/perinasais + hepatoesplenomegalia + onicogrifose = calazar canino. É essa combinação de sinais que separa a alternativa correta das demais, que apresentam apenas alterações de pele.
A alternativa A está correta porque descreve exatamente o quadro clínico clássico da leishmaniose visceral canina (calazar). A Leishmania chagasi é a espécie causadora da doença no Brasil, e o cão é o principal reservatório doméstico. Os sinais apresentados — caquexia, apatia, hipotricose, feridas na cabeça e orelhas, ao redor dos olhos e nariz, opacidade de cristalino, blefarite, onicogrifose e hepatoesplenomegalia — são todos descritos na literatura como manifestações típicas da doença. A hepatoesplenomegalia é o sinal visceral mais importante e, junto com as lesões cutâneas características, fecha a suspeita clínica imediata.
Alternativa B — ❌ Incorreta
A alternativa B está incorreta porque a dermatofitose por Microsporum canis é uma infecção fúngica superficial da pele, pelos e unhas, que causa lesões circulares, alopécicas e descamativas, mas não provoca hepatoesplenomegalia nem os sinais sistêmicos graves descritos (caquexia, apatia). A dermatofitose é uma doença cutânea primária, sem o comprometimento visceral que caracteriza o calazar. O erro da alternativa é atribuir a um fungo um quadro clínico que inclui manifestações sistêmicas e viscerais.
Alternativa C — ❌ Incorreta
A alternativa C está incorreta porque a demodicose por Demodex canis é uma doença parasitária de pele causada por ácaros que vivem nos folículos pilosos. Ela causa alopecia, eritema, descamação e, em casos graves, piodermite secundária, mas não causa hepatoesplenomegalia nem os sinais sistêmicos como caquexia e apatia. A demodicose é uma afecção cutânea localizada, sem o comprometimento visceral que é a chave do diagnóstico de calazar. A banca explora a confusão entre uma doença de pele comum e uma doença sistêmica com manifestações cutâneas.
Alternativa D — ❌ Incorreta
A alternativa D está incorreta pela mesma razão da alternativa B: a dermatofitose por Trichophyton mentagrophytes é uma infecção fúngica superficial da pele, que causa lesões alopécicas e descamativas, mas não provoca hepatoesplenomegalia nem os sinais sistêmicos descritos. Além disso, o T. mentagrophytes é menos comum que o M. canis em cães, mas o ponto central é que nenhuma dermatofitose explica o quadro visceral completo. A alternativa tenta confundir ao apresentar outra espécie de fungo, mas o erro conceitual é o mesmo: ausência de comprometimento sistêmico.
Alternativa E — ❌ Incorreta
A alternativa E está incorreta porque, embora a desnutrição crônica possa causar caquexia e predispor a infecções de pele, ela não explica a hepatoesplenomegalia, que é o sinal visceral central do quadro. A associação de dermatofitose com desnutrição pode ocorrer, mas não justifica o conjunto de sinais apresentados, especialmente a opacidade de cristalino, a blefarite e a onicogrifose, que são manifestações típicas da leishmaniose visceral canina. A alternativa tenta desviar a atenção para um quadro de pele associado a um estado geral debilitado, mas ignora o sinal mais importante: a hepatoesplenomegalia.
NÃO CAIA NESSA!
A banca explora a confusão entre doenças de pele (dermatofitose, demodicose) e uma doença sistêmica com manifestações cutâneas (leishmaniose visceral). O candidato que foca apenas nas lesões de pele pode ser induzido a escolher uma alternativa incorreta. A chave é perceber que a hepatoesplenomegalia é o sinal que aponta para uma doença visceral, e não para uma afecção cutânea primária. Com treino, você aprende a identificar esse padrão: lesões de pele + comprometimento sistêmico = pensar em leishmaniose.