Pular para o conteúdo principal

Questão de História — Fundamentos da História : Tempo, Memória e Cultura — FGV 2024

HistóriaFundamentos da História : Tempo, Memória e Cultura
Código
fg094443
Banca
FGV
Órgão
SES-MT
Ano
2024
Nível
Superior
Cargo
Historiador
Sobre o gênero biografia na disciplina História, analise as afirmativas a seguir.I. O fato é que, a relação entre biografia e história acabou por inserir-se em um conjunto mais vasto de contraposições que opõe indivíduo a sociedade; individual a coletivo; social a particular; estrutura a contexto. Nessa rede de dualidades, oscilamos entre ver o personagem como apenas a reiteração de impasses sociais e ligados a seu grupo, ou, em buscar nele um caso único, particular e afeito a uma memória de si. É claro que não se trata de “opção” e muito menos de imaginar que os modelos são necessariamente excludentes.Adaptado de: SCHWARCZ, Lilia. Biografia como gênero e problema. História Social, n. 24, 2013.II. A importância da biografia é permitir uma descrição das normas e de seu funcionamento efetivo, sendo este considerado não mais o resultado exclusivo de um desacordo entre regras e práticas, mas também de incoerências estruturais e inevitáveis entre as próprias normas. Parece-me que assim evitamos abordar a realidade histórica a partir de um esquema único de ações e reações, mostrando, ao contrário, que a repartição desigual do poder, por maior e mais coercitiva que seja, sempre deixa alguma margem de manobra para os dominados; estes podem então impor aos dominantes mudanças nada desprezíveis.Adaptado de: LEVI, Giovanni. Usos da biografia. In: Ferreira, M. e Amado, J. Usos e abusos da história oral. Rio de Janeiro: Editora FGV. 2006, p. 180.III. Os acontecimentos biográficos se definem como colocações e deslocamentos no espaço social, isto é, mais precisamente nos diferentes estados sucessivos da estrutura da distribuição das diferentes espécies de capital que estão em jogo no campo considerado. O sentido dos movimentos que conduzem de uma posição a outra evidentemente se define na relação objetiva entre o sentido e o valor, no momento considerado, dessas posições num espaço orientado. O que equivale dizer que não podemos compreender uma trajetória sem que tenhamos previamente construído os estados sucessivos do campo no qual ela se desenrolou.Adaptado de: BOURDIEU, Pierre. A ilusão da biografia. In: Ferreira, M. e Amado, J. Usos e abusos da história oral. Rio de Janeiro: Editora FGV. 2006.p. 190Assinale a afirmativa que interpreta corretamente as afirmativas.
  1. AEm I e II, a biografia de sujeitos históricos, sejam eles políticos ou pessoas comuns, é construída através da omissão e seleção de acontecimentos menos relevantes, enquanto em III todos os eventos biográficos são considerados importantes.
  2. BEm I e III, a trajetória dos personagens históricos é entendida como um objeto que deve ser narrado de maneira inteligível por meio da organização de acontecimentos de forma coerente e cronológica, enquanto em II a biografia é considerada como permeada de incoerências.
  3. CEm II e III, a previsibilidade dos sujeitos históricos biografados é compreendida como o objetivo a ser alcançado pelos historiadores ao analisarem as fontes, enquanto para II, a especificidade individual deve ser enfatizada na narrativa histórica.
  4. DEm III, a agência dos personagens históricos biografados é determinada pela estrutura social que os envolve, enquanto em I e II, adotam uma posição conciliatória em relação às possibilidades de atuação individual dentro dessa estrutura.
Revelar gabarito e comentário

GabaritoD — Em III, a agência dos personagens históricos biografados é determinada pela estrutura social que os envolve, enquanto em I e II, adotam uma posição conciliatória em relação às possibilidades de atuação individual dentro dessa estrutura.

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

Biografia na disciplina História

Gabarito: letra D. A afirmativa III (Bourdieu) entende a trajetória biográfica como determinada pela estrutura social, enquanto I (Schwarcz) e II (Levi) reconhecem uma margem de atuação individual dentro dessa estrutura, adotando posições conciliatórias. A alternativa D é a única que capta corretamente essa diferença.

A questão exige interpretação dos três trechos sobre biografia. Vamos analisar cada alternativa.

Alternativa A — ❌ Incorreta

Afirma que em I e II a biografia é construída por omissão/seleção de acontecimentos menos relevantes, enquanto em III todos os eventos são importantes. Isso não se sustenta: I e II não tratam de omissão ou seleção; III (Bourdieu) não afirma que todos os eventos são importantes – ele foca em posições e deslocamentos no espaço social.

Alternativa B — ❌ Incorreta

Diz que em I e III a trajetória deve ser narrada de forma coerente e cronológica, e em II a biografia é incoerente. I não menciona cronologia; III fala em construir os estados do campo, mas não necessariamente de forma cronológica. II destaca incoerências entre normas, não que a biografia em si seja incoerente.

Alternativa C — ❌ Incorreta

Alega que em II e III a previsibilidade dos sujeitos é o objetivo, e que em II a especificidade individual é enfatizada. Na verdade, II (Levi) enfatiza a margem de manobra e a possibilidade de mudança, o oposto da previsibilidade. III (Bourdieu) tem viés estrutural, mas não coloca a previsibilidade como objetivo.

Alternativa D — ✅ Correta ⟵ GABARITO

Em III, Bourdieu afirma: "O sentido dos movimentos que conduzem de uma posição a outra evidentemente se define na relação objetiva entre o sentido e o valor... dessas posições num espaço orientado. O que equivale dizer que não podemos compreender uma trajetória sem que tenhamos previamente construído os estados sucessivos do campo no qual ela se desenrolou." Isso indica que a agência é determinada pela estrutura social. Já I (Schwarcz) pondera que "não se trata de 'opção' e muito menos de imaginar que os modelos são necessariamente excludentes", ou seja, admite tanto influência social quanto individual. II (Levi) conclui que "a repartição desigual do poder, por maior e mais coercitiva que seja, sempre deixa alguma margem de manobra para os dominados; estes podem então impor aos dominantes mudanças nada desprezíveis", o que reforça a possibilidade de atuação individual. Portanto, I e II são conciliatórios, enquanto III é determinista.

Gabarito: letra D.

Link permanente: /questoes/fg094443