Questão de Medicina — Farmacologia e Anestesiologia — FGV 2024
- Código
- fg094491
- Banca
- FGV
- Órgão
- SES-MT
- Ano
- 2024
- Nível
- Superior
- Cargo
- Médico Anestesiologista
- APCR.
- BVHS.
- CTNF-α.
- Dlactato.
GabaritoD — lactato.
Gabarito: letra D. O lactato é o marcador de perfusão tecidual mais utilizado à beira do leito, pela facilidade de dosagem, sendo empregado como marcador de disfunção orgânica, prognóstico e guia terapêutico na fase aguda dos estados de choque. PCR, VHS e TNF-α são marcadores inflamatórios, não de perfusão tecidual.
O lactato é o produto final da glicólise anaeróbica. Em condições de hipóxia tecidual, o metabolismo celular passa a depender da via anaeróbica, gerando lactato em excesso. Por isso, sua elevação sérica reflete, de forma indireta, a inadequação entre oferta e consumo de oxigênio nos tecidos — exatamente o que define a síndrome do choque. A dosagem é feita por gasometria ou por aparelhos point-of-care, o que a torna rápida e acessível à beira do leito, diferentemente de outros marcadores que exigem processamento laboratorial mais demorado.
Na prática clínica, o lactato é usado de três formas principais: (1) como marcador de gravidade — valores elevados (> 2 mmol/L) indicam hipoperfusão e pior prognóstico; (2) como guia terapêutico — a queda do lactato (clearance) ao longo das horas indica resposta à ressuscitação; (3) como critério de inclusão em protocolos de tratamento precoce do choque séptico, como no estudo EGDT, que utilizou lactato > 4 mmol/L como marcador de gravidade. A Surviving Sepsis Campaign recomenda medir o lactato em todo paciente com sepse e, se elevado, repetir a dosagem em até 4 horas após a ressuscitação volêmica.
É importante destacar que a hiperlactatemia pode ocorrer sem hipóxia tecidual, como na insuficiência hepática (redução do clearance), na disfunção mitocondrial, no uso de drogas vasopressoras (ex.: epinefrina) e em algumas medicações (ex.: antirretrovirais). Apesar disso, o lactato permanece como o marcador de perfusão mais utilizado e validado na prática clínica, sendo superior a outros parâmetros como a saturação venosa central de oxigênio (SvcO2), que já não é recomendada para uso rotineiro no departamento de emergência.
A banca explora a confusão entre marcadores inflamatórios e marcadores de perfusão. PCR, VHS e TNF-α são biomarcadores de inflamação, utilizados em contextos como infecção, doenças autoimunes e resposta inflamatória sistêmica — não refletem diretamente a perfusão tecidual nem são usados como guia terapêutico na fase aguda do choque. O lactato, por sua vez, é o marcador que cumpre todos os critérios citados no enunciado: facilidade de dosagem, uso como marcador de disfunção orgânica, prognóstico e guia terapêutico.
A PCR (proteína C reativa) é um marcador de fase aguda da inflamação, produzido pelo fígado em resposta a estímulos inflamatórios. Embora possa estar elevada em infecções e em estados inflamatórios, não é um marcador de perfusão tecidual e não é utilizada como guia terapêutico na fase aguda do choque. Sua dosagem é útil para monitorar resposta inflamatória, mas não reflete a adequação da oferta de oxigênio aos tecidos.
A VHS (velocidade de hemossedimentação) é um teste inespecífico de inflamação, que mede a taxa de sedimentação das hemácias em uma amostra de sangue. É utilizada para monitorar doenças inflamatórias e autoimunes, mas não tem relação com a perfusão tecidual nem com o manejo do choque. Não é um marcador de disfunção orgânica nem guia terapêutico na fase aguda dos estados de choque.
O TNF-α (fator de necrose tumoral alfa) é uma citocina pró-inflamatória, envolvida na resposta imune e na sepse. Embora esteja elevado em processos inflamatórios e na sepse, não é um marcador de perfusão tecidual e não é utilizado rotineiramente à beira do leito como guia terapêutico. Sua dosagem é mais complexa e não faz parte da avaliação inicial do choque.
O lactato é o marcador de perfusão tecidual mais utilizado à beira do leito, pela facilidade de dosagem (gasometria ou point-of-care). É usado como marcador de disfunção orgânica, prognóstico e guia terapêutico na fase aguda dos estados de choque. A elevação do lactato indica hipoperfusão tecidual e pior prognóstico, e a queda serial (clearance) é utilizada para avaliar a resposta à ressuscitação. É o marcador central na abordagem do choque, especialmente no séptico.
Para diferenciar marcadores de perfusão de marcadores inflamatórios, lembre-se: perfusão = lactato, SvcO2, ΔCO2, tempo de enchimento capilar; inflamação = PCR, VHS, TNF-α, procalcitonina. Na prova, quando o enunciado falar em "perfusão tecidual", "choque" ou "guia terapêutico", a resposta quase sempre será lactato.
Gabarito: letra D
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