Questão de Medicina — Farmacologia e Anestesiologia — FGV 2024
- Código
- fg094512
- Banca
- FGV
- Órgão
- SES-MT
- Ano
- 2024
- Nível
- Superior
- Cargo
- Médico Anestesiologista
- A2 a 4mL/kg.
- B4 a 6mL/kg.
- C6 a 8mL/kg.
- D8 a 10mL/kg.
GabaritoC — 6 a 8mL/kg.
Gabarito: letra C. Em pacientes não obesos, com pulmões sadios, submetidos a cirurgia abdominal aberta sob anestesia geral, o volume corrente recomendado como estratégia protetora é de 6 a 8 mL/kg de peso corporal predito — a alternativa que a banca pede. O enunciado já antecipa a virada conceitual: abandonou-se o uso de altos volumes (10–15 mL/kg) por reconhecer que o volume minuto menor previne dano pulmonar, e é essa faixa protetora que a questão cobra.
A atelectasia é universal na anestesia geral — o relaxamento muscular, a perda do tônus diafragmático e a redução da capacidade residual funcional levam ao colapso de alvéolos dependentes, sobretudo nas regiões posteriores do pulmão. Por muitos anos, acreditou-se que ventilar com volumes correntes altos (10–15 mL/kg) "abriria" o pulmão e minimizaria a atelectasia. O que os estudos das últimas décadas mostraram, porém, é o oposto: o grande volume corrente, ao distender excessivamente os alvéolos já abertos (sobredistensão), gera lesão pulmonar induzida pelo ventilador — o chamado volutrauma —, que se soma ao atelectrauma (lesão por abertura e fechamento cíclico dos alvéolos colapsados).
A estratégia moderna de ventilação protetora intraoperatória, portanto, combina: volume corrente baixo (6–8 mL/kg de peso predito), PEEP moderada para recrutamento alveolar e manobras de recrutamento. O peso predito (calculado pela altura e sexo) é usado justamente porque o peso real, em obesos, superestima o tamanho do pulmão — por isso a recomendação se aplica a não obesos. O trade-off clínico é real: manter a ventilação protetora estrita pode exigir sedação mais profunda, mas o benefício de evitar o dano pulmonar supera o risco, especialmente nas primeiras 48–72 horas de ventilação.
A pegadinha da questão está em distinguir as faixas de volume corrente conforme o contexto. Na UTI, para pacientes com SARA (síndrome do desconforto respiratório agudo), a recomendação clássica é de 4–6 mL/kg de peso predito — faixa mais restritiva, pois o pulmão está doente e recrutável. No peroperatório, em pulmões sadios, a faixa é um pouco mais generosa: 6–8 mL/kg. A banca explora exatamente essa confusão: quem decora "ventilação protetora = 4–6" marca a letra B, mas o contexto do enunciado (cirurgia, pulmão sadio) pede a faixa de 6–8.
A banca troca a faixa de volume corrente da ventilação protetora na UTI/SARA (4–6 mL/kg) pela faixa do peroperatório em pulmões sadios (6–8 mL/kg). O enunciado é explícito: "pacientes não obesos, com pulmões sadios, durante as cirurgias abdominais abertas" — isso aponta para 6–8 mL/kg, não para a faixa mais restritiva da SARA. Guarde a diferença pelo contexto: pulmão doente (SARA) = 4–6; pulmão sadio em cirurgia = 6–8.
2 a 4 mL/kg é uma faixa extremamente baixa, sem respaldo na literatura de ventilação mecânica — nem mesmo na SARA se utiliza volume corrente tão reduzido de forma rotineira. Essa faixa não corresponde a nenhuma recomendação clínica estabelecida; seria insuficiente até para manter a ventilação alveolar adequada, levando a hipercapnia e hipoxemia.
4 a 6 mL/kg é a faixa clássica da ventilação protetora para pacientes com SARA na UTI, não para o peroperatório de pulmões sadios. O enunciado é claro ao especificar "pacientes não obesos, com pulmões sadios, durante as cirurgias abdominais abertas" — contexto em que a recomendação é de 6 a 8 mL/kg. A banca explora exatamente a confusão entre o paciente crítico com pulmão doente e o paciente cirúrgico com pulmão normal.
6 a 8 mL/kg é a faixa recomendada de volume corrente para ventilação protetora intraoperatória em pacientes não obesos, com pulmões sadios, submetidos a cirurgias abdominais abertas. O enunciado descreve precisamente esse cenário: "o volume minuto menor previne o desenvolvimento de danos pulmonares e deve ser utilizado como estratégia protetora durante a ventilação mecânica intraoperatória em pacientes não obesos, com pulmões sadios, durante as cirurgias abdominais abertas". A faixa de 6–8 mL/kg de peso corporal predito é o consenso atual para esse contexto.
8 a 10 mL/kg ainda é um volume corrente relativamente alto para os padrões atuais de ventilação protetora. Embora seja menor que os 10–15 mL/kg historicamente usados, já se aproxima da zona de risco de volutrauma em pulmões sadios — e não é a faixa recomendada pela literatura para o peroperatório. A recomendação moderna é de 6 a 8 mL/kg, e não 8 a 10.
A regra de ouro para a prova: ventilação protetora não é uma faixa única — depende do pulmão. Pulmão doente (SARA, na UTI) pede 4–6 mL/kg; pulmão sadio em cirurgia pede 6–8 mL/kg. O enunciado sempre sinaliza o contexto — leia-o com atenção antes de marcar.
Gabarito: letra C
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