Questão de Medicina — Cardiologia e Alterações Vasculares — FGV 2024
Medicina›Cardiologia e Alterações Vasculares
Código
fg094526
Banca
FGV
Órgão
SES-MT
Ano
2024
Nível
Superior
Cargo
Médico Cardiologista
Abaixo temos um traçado com duas derivações de eletrocardiograma em um paciente portador de marcapasso cardíaco.BRAUNWALD. Tratado de Doenças Cardiovasculares. 9ª Ed.Figura 39-26; página 773.A falha do dispositivo ocorrida na marcação com dois asteriscos (**) do eletrocardiograma é conhecida como
Afalha na estimulação.
Bfalha de captura.
Coversensing.
Dundersensing.
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GabaritoB — falha de captura.
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Marcapasso cardíaco: disfunções de estimulação e sensibilidade
Gabarito: letra B. A falha evidenciada no traçado é a falha de captura, que ocorre quando o marcapasso emite o estímulo (spike), mas o miocárdio não é despolarizado — ou seja, não há complexo QRS após o artefato de estimulação. Essa é a disfunção mais comum em pacientes com marcapasso e é identificada no ECG pela presença do spike sem a consequente onda P ou QRS.
O marcapasso cardíaco artificial é um dispositivo que assume a função de marca-passo natural do coração, emitindo estímulos elétricos para despolarizar o miocárdio quando o sistema de condução nativo falha. Para entender as disfunções, é preciso distinguir dois processos: a estimulação (geração e entrega do estímulo ao coração) e a sensibilidade (capacidade do dispositivo de detectar a atividade elétrica intrínseca do coração). Cada um desses processos pode falhar de maneiras distintas, e o ECG é a ferramenta que permite identificar qual deles está comprometido.
A falha de captura é o problema mais frequente e ocorre quando o estímulo é gerado e entregue ao miocárdio, mas este não responde — não há despolarização. No ECG, isso se manifesta como um spike (artefato vertical) sem o complexo QRS subsequente. As causas mais comuns incluem: deslocamento do eletrodo, aumento do limiar de estimulação (por exemplo, por uso de antiarrítmicos ou distúrbios eletrolíticos), fibrose no local do implante, ou falha do gerador. É importante notar que a falha de captura pode ser intermitente ou completa, e o tratamento depende da causa subjacente.
A falha na estimulação, por outro lado, é a ausência do spike quando o marcapasso deveria disparar. Isso ocorre quando o dispositivo não gera o estímulo, seja por esgotamento da bateria, fratura do eletrodo, ou problema no circuito. No ECG, observa-se a ausência do artefato de estimulação no momento esperado, seguida de um ritmo de escape (geralmente bradicárdico).
Já os problemas de sensibilidade envolvem a detecção da atividade cardíaca intrínseca. O undersensing ocorre quando o marcapasso não detecta a despolarização espontânea e, portanto, emite estímulos desnecessários — no ECG, vemos spikes que caem sobre ondas T ou QRS, sem que haja necessidade de estimulação. O oversensing é o oposto: o dispositivo detecta sinais que não são atividade cardíaca (como miopotenciais ou interferência eletromagnética) e, por isso, inibe inapropriadamente a estimulação, resultando em pausas no traçado.
Para fixar a distinção, é útil comparar as quatro disfunções principais:
Disfunção
Spike presente?
QRS após spike?
Causa típica
Falha de captura
Sim
Não
Deslocamento do eletrodo, aumento do limiar
Falha de estimulação
Não
Não (ritmo de escape)
Bateria esgotada, fratura do eletrodo
Undersensing
Sim (desnecessário)
Sim (se capturar)
Baixa amplitude do sinal intrínseco
Oversensing
Não (inibe)
Não (pausa)
Interferência eletromagnética, miopotenciais
A pegadinha desta questão está em distinguir a falha de captura da falha de estimulação. A banca descreve o traçado com spikes que não são seguidos de QRS — isso é captura falha, não ausência de estímulo. O candidato que confunde os dois conceitos tende a marcar a alternativa A, mas a ausência do spike é o que caracteriza a falha de estimulação.
Guarde o critério decisivo: spike sem QRS = falha de captura; ausência de spike = falha de estimulação. É exatamente nessa fronteira que as alternativas se dividem.
Disfunções do marcapasso
1Estimulação
Falha de estimulação (sem spike)
Falha de captura (spike sem QRS)
2Sensibilidade
Undersensing (não detecta)
Oversensing (detecta demais)
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Alternativa A — ❌ Incorreta
A falha na estimulação é a ausência do spike quando o marcapasso deveria disparar. No traçado da questão, os spikes estão presentes (marcados com asteriscos), mas não são seguidos de despolarização ventricular. Portanto, o problema não é a geração do estímulo, mas a resposta do miocárdio a ele.
Alternativa B — ✅ Correta ⟵ GABARITO
A falha de captura é exatamente o que o traçado mostra: o marcapasso emite o estímulo (spike), mas o miocárdio não é despolarizado, resultando na ausência do complexo QRS após o artefato. Essa é a disfunção mais comum em pacientes com marcapasso e pode ser causada por deslocamento do eletrodo, aumento do limiar de estimulação ou fibrose no local do implante.
Alternativa C — ❌ Incorreta
O oversensing é um problema de sensibilidade, não de captura. Ocorre quando o marcapasso detecta sinais não cardíacos (miopotenciais, interferência eletromagnética) e inibe inapropriadamente a estimulação, resultando em pausas no traçado. No ECG, não há spikes desnecessários — há ausência de spikes quando deveriam ocorrer.
Alternativa D — ❌ Incorreta
O undersensing é o oposto do oversensing: o marcapasso não detecta a atividade cardíaca intrínseca e, portanto, emite estímulos desnecessários. No ECG, vemos spikes que caem sobre ondas T ou QRS, sem que haja necessidade de estimulação. No traçado da questão, os spikes estão presentes e são seguidos de ausência de QRS — o que caracteriza falha de captura, não de sensibilidade.
Gabarito: letra B — a falha evidenciada no traçado é a falha de captura, em que o estímulo do marcapasso não resulta em despolarização miocárdica.