Questão de Medicina — Cardiologia e Alterações Vasculares — FGV 2024
Medicina›Cardiologia e Alterações Vasculares
Código
fg094556
Banca
FGV
Órgão
SES-MT
Ano
2024
Nível
Superior
Cargo
Médico Cardiologista
No setor de emergência é admitido um homem de 33 anos, com quadro de dor torácica retroesternal, súbita, que piora ao inspirar profundamente, com melhora em posição genupeitoral.Eletrocardiograma demonstra supradesnivelamento difuso do segmento ST, côncavo, além de taquicardia sinusal.Ao exame físico, ausculta-se ruído intenso, rangente, em borda esternal esquerda, durante todo ciclo cardíaco.Baseado no caso clínico descrito e na hipótese diagnóstica mais provável, o melhor tratamento proposto seria
AAAS 200mg e cineangiocoronariografia.
BAAS 200mg e clopidogrel 300mg.
Canticoagulação parenteral plena.
Dibuprofeno e colchicina.
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GabaritoD — ibuprofeno e colchicina.
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Pericardite aguda: diagnóstico e tratamento
Gabarito: letra D. O quadro clínico é clássico de pericardite aguda: dor torácica retroesternal, súbita, que piora com a inspiração profunda e melhora na posição genupeitoral (sentado, inclinado para frente), associada a supradesnivelamento difuso e côncavo do segmento ST no ECG e atrito pericárdico à ausculta. O tratamento de primeira linha consiste em anti-inflamatórios não esteroidais (AINEs), como o ibuprofeno, associados à colchicina para reduzir a recorrência.
A pericardite é uma inflamação do pericárdio, a membrana que envolve o coração. A dor típica é pleurítica (piora com a inspiração), de início súbito, retroesternal ou precordial, que pode irradiar para o pescoço, ombro ou braço esquerdo. O que a distingue da dor isquêmica é justamente o alívio ao sentar e inclinar o tronco para frente (posição genupeitoral) e a piora ao deitar. No exame físico, o achado mais específico é o atrito pericárdico, um ruído intenso, rangente, mais audível na borda esternal esquerda, que pode ser auscultado durante todo o ciclo cardíaco (sistólico e diastólico). No ECG, o padrão típico é o supradesnivelamento difuso do segmento ST, côncavo, em múltiplas derivações, diferente do supradesnivelamento localizado e convexo do infarto agudo do miocárdio.
O tratamento da pericardite aguda não complicada é clínico, com o objetivo de aliviar a dor e reduzir a inflamação. A base são os AINEs (ibuprofeno, aspirina em altas doses) e a colchicina, que demonstrou reduzir a taxa de recorrência. O repouso é recomendado até a resolução dos sintomas. A anticoagulação plena é contraindicada na pericardite aguda, pois aumenta o risco de hemorragia pericárdica e tamponamento cardíaco. O tratamento antiplaquetário e a cineangiocoronariografia são indicados para síndromes coronarianas agudas, que não é o caso.
A principal dificuldade da questão é diferenciar a pericardite aguda de uma síndrome coronariana aguda (SCA), especialmente o infarto com supradesnivelamento do ST (IAMCST). A tabela abaixo resume as diferenças-chave:
Característica
Pericardite Aguda
IAMCST
Dor
Pleurítica, piora com inspiração e decúbito; melhora ao sentar/inclinar
Opressiva, em aperto, sem relação com posição ou respiração
ECG
Supra de ST difuso, côncavo, sem imagem em espelho
Supra de ST localizado, convexo, com infradesnivelamento recíproco
Ausculta
Atrito pericárdico
Pode ser normal ou ter sopro de regurgitação mitral
Tratamento
AINE + colchicina
Antiagregação + reperfusão (angioplastia ou fibrinolítico)
A banca explora exatamente essa confusão: o paciente tem dor torácica e supradesnivelamento do ST, o que remete ao IAMCST. No entanto, a concavidade do ST, a melhora com a posição genupeitoral e o atrito pericárdico são achados que fecham o diagnóstico de pericardite. O tratamento, portanto, não é a reperfusão coronariana, mas sim o controle da inflamação pericárdica.
Pericardite aguda: Diagnóstico (Dor pleurítica (melhora genupeitoral), Atrito pericárdico, Supra ST difuso e côncavo); Tratamento (AINE (ibuprofeno), Colchicina, Anticoagulação (risco de tamponamento)); Diagnóstico diferencial (IAMCST (supra localizado e convexo))
Alternativa A — ❌ Incorreta
AAS 200 mg e cineangiocoronariografia é o tratamento para IAMCST, não para pericardite. A cineangiocoronariografia é indicada para avaliar obstruções coronarianas e realizar angioplastia, o que não se aplica a este caso. Além disso, a dose de AAS para antiagregação no IAM é de 300 mg, não 200 mg.
Alternativa B — ❌ Incorreta
AAS 200 mg e clopidogrel 300 mg é a dupla antiagregação plaquetária, indicada no tratamento do IAMCST, especialmente quando se opta pela reperfusão química (fibrinólise). Na pericardite, não há formação de trombo coronariano, portanto a antiagregação não é o tratamento.
Alternativa C — ❌ Incorreta
A anticoagulação parenteral plena é contraindicada na pericardite aguda. O uso de anticoagulantes aumenta o risco de hemorragia pericárdica, podendo levar ao tamponamento cardíaco, uma complicação grave e potencialmente fatal. A anticoagulação plena é indicada, por exemplo, no tromboembolismo pulmonar ou na fibrilação atrial, não na pericardite.
Alternativa D — ✅ Correta ⟵ GABARITO
O ibuprofeno é um AINE, a base do tratamento da pericardite aguda, e a colchicina é adicionada para reduzir a inflamação e a taxa de recorrência. Esta é a conduta recomendada pelas diretrizes de cardiologia para pericardite aguda não complicada.
NÃO CAIA NESSA!
A banca tenta confundir o candidato ao apresentar um quadro que lembra IAMCST (dor torácica + supra de ST), mas com características típicas de pericardite (dor pleurítica, melhora com posição genupeitoral, atrito pericárdico, supra côncavo e difuso). O erro clássico é optar pela reperfusão coronariana (A ou B) ou pela anticoagulação (C), quando o correto é o tratamento anti-inflamatório (D).