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Questão de Medicina — Gastroenterologia — FGV 2024

MedicinaGastroenterologia
Código
fg094574
Banca
FGV
Órgão
SES-MT
Ano
2024
Nível
Superior
Cargo
Médico Cirurgião Geral
Paciente feminina, 27 anos, puérpera de 4 meses, relata que vem apresentando intolerância para alimentos gordurosos, plenitude pós prandial e por vezes, náusea matinal. Relata que há 12 horas apresenta náuseas, vômitos e dor abdominal em hipocôndrio direito e epigástrio com irradiação dorsal. Nega febre ou calafrios. Foi submetida a exame de ultrassom abdominal que evidenciou vesícula túrgida, de paredes espessadas, chegando a 4 mm e cálculo de 1,7 cm localizado no infundíbulo da vesícula, imóvel.No hemograma encontramos: hematócrito: 45% hemoglobina: 11,2 g/dL leucócitos: 9.270 sem formas jovens. Enzimas hepáticas e pancreáticas em níveis dentro da normalidade. Foi medicada com escopolamina + dipirona + cetoprofeno. Após uma hora sem apresentar melhora, foi medicada com tramadol com melhora parcial.Assinale a afirmativa que indica o diagnóstico mais provável:
  1. Ahepatite viral aguda.
  2. Bcólica biliar refratária.
  3. Ccolecistite aguda litiásica.
  4. Dlitíase da via biliar principal.
Revelar gabarito e comentário

GabaritoB — cólica biliar refratária.

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

Cólica biliar refratária: diagnóstico diferencial em puérpera

Gabarito: letra B. O quadro é de cólica biliar refrátaria: puérpera com dor em hipocôndrio direito e epigástrio com irradiação dorsal, ultrassom mostrando vesícula túrgida com parede espessada (4 mm) e cálculo de 1,7 cm impactado no infundíbulo, sem sinais de inflamação sistêmica (afebril, leucócitos normais, enzimas hepáticas e pancreáticas normais) e sem resposta aos AINEs — o que caracteriza a refratariedade. A ausência de febre, de leucocitose e de alteração de enzimas hepáticas/pancreáticas afasta colecistite aguda, coledocolitíase e hepatite viral aguda.

A cólica biliar é a manifestação clássica da litíase vesicular: dor em cólica, geralmente no quadrante superior direito, podendo irradiar para o dorso, associada a náuseas e vômitos. A dor ocorre quando um cálculo obstrui transitoriamente o ducto cístico ou o infundíbulo da vesícula, gerando aumento da pressão intraluminal e distensão do órgão. O que diferencia a cólica biliar da colecistite aguda é a ausência de inflamação: na cólica, a obstrução é transitória e não há processo inflamatório instalado, por isso não há febre, leucocitose nem sinais de irritação peritoneal. Na colecistite aguda, a obstrução persistente leva à inflamação da parede vesicular, com dor contínua, febre, sinal de Murphy e espessamento parietal mais acentuado.

No caso apresentado, a paciente tem dor há 12 horas, sem febre, com leucócitos normais (9.270) e enzimas hepáticas e pancreáticas normais. O ultrassom mostra vesícula túrgida com parede espessada (4 mm) e cálculo impactado no infundíbulo, imóvel — achados que indicam obstrução do ducto cístico, mas sem critérios para colecistite aguda. A parede de 4 mm é um achado limítrofe (o normal é até 3 mm), mas isoladamente não fecha o diagnóstico de colecistite, que exige critérios clínicos e laboratoriais. A refratariedade à analgesia convencional (escopolamina + dipirona + cetoprofeno) e a melhora apenas parcial com tramadol reforçam o diagnóstico de cólica biliar refratária, que é uma apresentação mais grave da cólica biliar, com dor persistente apesar do tratamento analgésico.

A distinção crucial é entre cólica biliar e colecistite aguda. A colecistite aguda é definida pela presença de inflamação da vesícula biliar, geralmente por obstrução persistente do ducto cístico. Os critérios diagnósticos incluem dor em hipocôndrio direito, febre, leucocitose e sinal de Murphy, além de achados ultrassonográficos como espessamento parietal > 4 mm, vesícula distendida e presença de cálculo impactado. No caso, a paciente não tem febre, não tem leucocitose e não há descrição de sinal de Murphy — portanto, não preenche critérios para colecistite aguda. A coledocolitíase (litíase da via biliar principal) cursaria com icterícia, colúria, acolia fecal e alteração de enzimas hepáticas (FA, GGT, bilirrubinas) — tudo normal na paciente. A hepatite viral aguda cursaria com sintomas prodrômicos, icterícia, hepatomegalia e alteração importante de transaminases — também ausentes.

A refratariedade à analgesia é o ponto-chave: a paciente não melhorou com a associação de escopolamina + dipirona + cetoprofeno (AINE) e teve apenas melhora parcial com tramadol (opioide). Isso indica que a dor é intensa e persistente, o que é compatível com cólica biliar refratária — uma condição que frequentemente requer intervenção, como colecistectomia de urgência ou drenagem biliar, mesmo na ausência de colecistite aguda. A refratariedade pode ser definida como a persistência da dor após analgesia adequada, e é um critério para considerar a cirurgia precoce.

Guarde a fronteira entre cólica biliar (obstrução transitória, sem inflamação) e colecistite aguda (obstrução persistente com inflamação): é exatamente nela que as alternativas se dividem. A presença de febre, leucocitose e sinal de Murphy aponta para colecistite; a ausência desses achados, com dor refratária, aponta para cólica biliar refratária.

Critério

Cólica biliar refratária (B)

Colecistite aguda litiásica (C)

Coledocolitíase (D)

Febre

Ausente

Presente (frequentemente)

Pode haver (colangite)

Leucocitose

Ausente (9.270)

Presente (>10.000)

Variável

Sinal de Murphy

Ausente

Presente

Ausente

Enzimas hepáticas/pancreáticas

Normais

Normais ou levemente alteradas

Alteradas (FA, GGT, bilirrubinas)

Icterícia/colúria/acolia

Ausentes

Ausentes

Presentes

Ultrassom

Cálculo impactado, parede limítrofe (4 mm)

Espessamento >4 mm, líquido pericolecístico

Cálculo em via biliar, dilatação de vias biliares

Resposta à analgesia

Refratária (AINE + opioide parcial)

Melhora parcial

Variável

Cólica biliar refratária
  • 1Obstrução transitória do cístico
    • Sem inflamação
    • Dor refratária à analgesia
  • 2Diagnóstico diferencial
    • Colecistite aguda
      • Febre, leucocitose, Murphy
    • Coledocolitíase
      • Icterícia, colestase
    • Hepatite viral
      • Transaminases elevadas
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Alternativa A — ❌ Incorreta

A hepatite viral aguda cursaria com icterícia, colúria, acolia fecal, hepatomegalia e elevação importante de transaminases (AST/ALT), frequentemente com pródromos como febre, mal-estar e anorexia. A paciente tem enzimas hepáticas normais, não tem icterícia e a dor é localizada em hipocôndrio direito com irradiação dorsal, típica de via biliar — não de hepatopatia. Além disso, o ultrassom mostra cálculo vesicular, que é a causa da dor.

Alternativa B — ✅ Correta ⟵ GABARITO

A cólica biliar refratária é o diagnóstico mais provável. A paciente tem litíase vesicular (cálculo de 1,7 cm no infundíbulo), dor típica em hipocôndrio direito com irradiação dorsal, náuseas e vômitos, sem sinais de inflamação (afebril, leucócitos normais) e sem alteração de enzimas hepáticas/pancreáticas. A refratariedade à analgesia convencional (AINE + opioide) é o que define o quadro como refratário, indicando necessidade de intervenção mais agressiva.

Alternativa C — ❌ Incorreta

A colecistite aguda litiásica exigiria sinais de inflamação sistêmica: febre, leucocitose (> 10.000 ou > 18.000 nos critérios de Tóquio), sinal de Murphy positivo e, no ultrassom, espessamento parietal > 4 mm com sinais de inflamação perivesicular (líquido pericolecístico, hiperemia na parede). A paciente é afebril, tem leucócitos normais (9.270) e não há descrição de sinal de Murphy. A parede de 4 mm é limítrofe, mas isoladamente não fecha o diagnóstico. A ausência de critérios clínicos e laboratoriais de inflamação afasta a colecistite aguda.

Alternativa D — ❌ Incorreta

A litíase da via biliar principal (coledocolitíase) cursaria com icterícia, colúria, acolia fecal e elevação de enzimas canaliculares (FA, GGT) e bilirrubinas, além de risco de colangite (tríade de Charcot: febre, icterícia e dor). A paciente tem enzimas hepáticas normais, não tem icterícia e o ultrassom mostra cálculo apenas na vesícula (infundíbulo), sem dilatação de vias biliares. A ausência de colestase bioquímica e de dilatação de vias biliares afasta o diagnóstico.

NÃO CAIA NESSA!

A banca explora a confusão entre cólica biliar e colecistite aguda. O candidato vê "vesícula túrgida, parede espessada e cálculo impactado" e pensa em colecistite — mas esquece que a colecistite exige inflamação (febre, leucocitose, Murphy positivo). Aqui, a paciente é afebril, tem leucócitos normais e não há descrição de Murphy. A parede de 4 mm é um achado limítrofe que pode ocorrer na cólica biliar com obstrução prolongada. O termo "refratária" no enunciado é a chave: a dor não cedeu com analgesia convencional, o que define o quadro como refratário e indica a necessidade de intervenção.

PEGA ESSA DICA!

Na hora da prova, monte um checklist rápido para diferenciar as condições biliares: (1) febre? (2) leucocitose? (3) sinal de Murphy? (4) icterícia? (5) enzimas hepáticas/pancreáticas alteradas? Se a resposta for "não" para os três primeiros e "sim" para dor típica com cálculo no ultrassom, o diagnóstico é cólica biliar — e se não melhorar com analgesia, é refratária. Se houver febre + leucocitose + Murphy, é colecistite. Se houver icterícia + colestase, é coledocolitíase. Esse fluxo resolve a maioria das questões de dor biliar.

Gabarito: letra B

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