Questão de Medicina — Farmacologia e Anestesiologia — FGV 2024
Medicina›Farmacologia e Anestesiologia
Código
fg094576
Banca
FGV
Órgão
SES-MT
Ano
2024
Nível
Superior
Cargo
Médico Cirurgião Geral
Paciente masculino, 48 anos, procura a emergência com quadro de dor abdominal, de moderada a forte intensidade, no quadrante inferior do abdome, de caráter progressivo, iniciada há 5 dias. Relata que nas últimas 24h vem apresentando febre de até 38,6oC, adinamia, náuseas e anorexia. Não tem queixas urinárias e não evacuou durante todo esse período.No exame físico apresenta fácies álgica, desidratado, corado, FR 20 ipm, SatO₂ 97%, FC: 92 bpm e PA 138 x 76 mmHg. O exame abdominal demonstra distensão, dor a palpação no flanco e fossa ilíaca direita, onde se palpa massa firme e dolorosa, de limites imprecisos. De importante no laboratório, 17.750 leucócitos com 12 bastões e PCR de 14,2. Na tomografia computadorizada observamos grande massa de aspecto inflamatória na fossa ilíaca direita, de limites imprecisos, não sendo possível a dissociação do ceco e do íleo.Diante desse quadro, assinale a opção que indica a melhor conduta.
AApendicectomia por videolaparoscopia.
BAntibioticoterapia e medidas clínicas de suporte.
CIleotiflectomia por incisão mediana trans umbilical.
DAntibioticoterapia associada a punção percutânea.
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GabaritoB — Antibioticoterapia e medidas clínicas de suporte.
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Apendicite complicada: conduta clínica versus cirúrgica
Gabarito: letra B. O quadro descrito — dor progressiva em fossa ilíaca direita há 5 dias, febre, massa inflamatória de limites imprecisos na tomografia, sem dissociação entre ceco e íleo — configura uma apendicite complicada com plastrão/flegmão, e a conduta inicial de escolha é o tratamento clínico com antibioticoterapia e medidas de suporte, reservando a cirurgia para falha terapêutica ou complicações. A base dessa conduta está nos princípios de manejo do abdome agudo inflamatório: quando o processo infeccioso já está delimitado por bloqueio do omento e alças adjacentes, a abordagem cirúrgica imediata é de alto risco e o tratamento conservador é preferível.
O plastrão apendicular é uma complicação da apendicite aguda em que o processo inflamatório é contido por aderências do omento e de alças intestinais, formando uma massa palpável. No paciente descrito, a tomografia mostra "grande massa de aspecto inflamatório na fossa ilíaca direita, de limites imprecisos, não sendo possível a dissociação do ceco e do íleo" — exatamente o achado típico de plastrão. Nessa situação, a cirurgia de urgência é tecnicamente difícil e arriscada, pois a dissecção da massa pode lesar alças aderidas, e o tratamento de escolha é clínico: antibióticos de amplo espectro (cobrindo Gram-negativos e anaeróbios), hidratação, analgesia e observação. A cirurgia fica indicada se houver evolução para abscesso não drenável, peritonite difusa, obstrução intestinal ou falha do tratamento clínico.
A distinção crucial é entre apendicite não complicada e complicada. Na apendicite não complicada, o tratamento é cirúrgico (apendicectomia, preferencialmente por videolaparoscopia). Na complicada, há três cenários: (1) plastrão/flegmão — tratamento clínico inicial; (2) abscesso — drenagem percutânea guiada por imagem associada a antibióticos; (3) peritonite difusa — cirurgia de urgência. O paciente da questão tem plastrão, não abscesso formado (a massa é "de limites imprecisos", sem coleção líquida organizada descrita), e não tem peritonite difusa (a dor é localizada, sem rigidez abdominal generalizada, e os sinais vitais estão estáveis). Por isso, a conduta é clínica.
A banca explora a confusão entre os diferentes cenários da apendicite complicada. O candidato que reconhece apenas "apendicite = cirurgia" erra ao escolher a apendicectomia imediata. O que diferencia as alternativas é o estágio da complicação: plastrão (clínico), abscesso (drenagem percutânea) e peritonite (cirurgia). Guarde essa tríade — é exatamente nela que as alternativas se dividem.
A apendicectomia por videolaparoscopia é o tratamento de escolha para apendicite aguda não complicada. No plastrão apendicular, a cirurgia imediata é contraindicada pelo alto risco de lesão de alças aderidas e de conversão para ressecções maiores. O tratamento inicial é clínico, com cirurgia eletiva (apendicectomia intervalada) após resolução do processo inflamatório, se indicada.
Alternativa B — ✅ Correta ⟵ GABARITO
O plastrão apendicular é tratado inicialmente com antibioticoterapia (cobrindo Gram-negativos e anaeróbios), hidratação, analgesia e observação clínica. A cirurgia fica reservada para falha terapêutica, formação de abscesso não drenável, peritonite ou obstrução. O paciente está estável (PA 138x76, FC 92, SatO₂ 97%), sem sinais de peritonite difusa, o que reforça a conduta conservadora.
Alternativa C — ❌ Incorreta
A ileotiflectomia (ressecção do íleo terminal e ceco) é um procedimento radical, indicado em casos de complicações graves como necrose, perfuração extensa ou neoplasia. No plastrão apendicular, a conduta inicial é clínica; a ressecção cirúrgica ampla não é indicada de primeira linha e seria um overtreatment com alta morbidade.
Alternativa D — ❌ Incorreta
A punção percutânea é indicada quando há abscesso apendicular formado, ou seja, uma coleção líquida organizada e bem delimitada na tomografia. No caso descrito, a massa é "de limites imprecisos", sem evidência de abscesso maduro — trata-se de flegmão/plastrão. A punção percutânea não é o tratamento do plastrão; a conduta é clínica com antibióticos.
NÃO CAIA NESSA!
A banca troca os cenários da apendicite complicada. O candidato que vê "massa inflamatória" e pensa em abscesso escolhe a punção percutânea (letra D), mas o achado de "limites imprecisos" indica plastrão, não abscesso. E quem pensa que toda apendicite é cirúrgica cai na letra A. A chave é identificar o estágio: plastrão → clínico; abscesso → drenagem; peritonite → cirurgia. Com esse raciocínio, você acerta a questão sem decorar.