Questão de Medicina — Cirurgia Geral — FGV 2024
- Código
- fg094587
- Banca
- FGV
- Órgão
- SES-MT
- Ano
- 2024
- Nível
- Superior
- Cargo
- Médico Cirurgião Geral
- ASeda zero.
- BNáilon zero.
- CPolipropileno zero.
- DÁcido poliglicólico zero.
GabaritoC — Polipropileno zero.
Gabarito: letra C. Em laparotomia por peritonite purulenta difusa, o fechamento da aponeurose deve ser feito com fio monofilamentar não absorvível — o polipropileno — pois a cavidade está contaminada e fios multifilamentares (trançados) ou absorvíveis podem abrigar bactérias e favorecer infecção de sítio cirúrgico e deiscência. A escolha do fio cirúrgico é um dos pilares da técnica operatória, e a banca explora exatamente a diferença entre as propriedades físicas dos materiais.
A sutura da aponeurose em um abdome contaminado exige um fio que combine resistência tênsil mantida, baixa reatividade tecidual e, sobretudo, estrutura monofilamentar, que não permite a "capilaridade" de bactérias entre as tramas. O polipropileno (Prolene®) é um fio sintético, monofilamentar e não absorvível, considerado o padrão-ouro para fechamento de fáscia em cirurgias contaminadas, pois não sofre degradação e não cria nicho para infecção. Já os fios trançados, como a seda e o ácido poliglicólico (quando multifilamentar), apresentam maior risco de infecção em ambiente contaminado, e os absorvíveis podem perder resistência antes da cicatrização completa da aponeurose, que é lenta e exige suporte por semanas.
Na prática, imagine uma apendicectomia complicada com peritonite difusa: a cavidade está repleta de bactérias gram-negativas e anaeróbias. Se fecharmos a fáscia com seda (multifilamentar natural), as bactérias podem penetrar entre as fibras e formar um abscesso de parede. Se usarmos ácido poliglicólico (absorvível sintético), a absorção pode ocorrer antes da aponeurose ganhar resistência adequada, levando à deiscência e eventração. O polipropileno, por ser monofilamentar e inerte, evita ambos os problemas — por isso é a escolha correta.
A distinção central que a questão cobra é entre monofilamentar × multifilamentar e absorvível × não absorvível. Em tecidos contaminados ou infectados, a regra é preferir fios monofilamentares não absorvíveis (ou absorvíveis de longa duração, como a poliglecaprona, em alguns casos). Fios trançados e naturais (seda, algodão) são contraindicados nesse cenário. Essa é a fronteira que separa as alternativas: a seda é multifilamentar natural, o náilon é monofilamentar sintético não absorvível, o polipropileno é monofilamentar sintético não absorvível (mas com menor reatividade e maior memória que o náilon), e o ácido poliglicólico é absorvível sintético (geralmente multifilamentar).
A pegadinha da banca está em oferecer o náilon (letra B) como distrator: ele também é monofilamentar não absorvível, mas o polipropileno é preferido para aponeurose por ser mais inerte e manter melhor a resistência tênsil ao longo do tempo. O ácido poliglicólico (letra D) é absorvível e, embora possa ser usado em alguns fechamentos, não é a melhor escolha para uma parede abdominal contaminada que precisa de suporte prolongado. A seda (letra A) é o pior cenário: multifilamentar, natural e com alta reatividade — absolutamente contraindicada em infecção.
Guarde o critério decisivo: em ambiente contaminado, a aponeurose deve ser fechada com fio monofilamentar não absorvível, e o polipropileno é o protótipo dessa classe. É exatamente esse raciocínio que separa a alternativa correta das demais.
A seda é um fio multifilamentar trançado de origem natural (proteína fibrosa do bicho-da-seda). Em cavidade contaminada, a estrutura trançada permite a penetração de bactérias entre as fibras (capilaridade), funcionando como um "ninho" para infecção. Além disso, é altamente reativa e perde resistência tênsil com o tempo. Por isso, é contraindicada para fechamento de aponeurose em peritonite — é a pior opção entre as listadas.
O náilon é um fio monofilamentar sintético não absorvível, o que o torna uma opção teoricamente aceitável. No entanto, o polipropileno é preferido para fechamento de fáscia por ser mais inerte (menor reatividade tecidual), manter melhor a resistência tênsil ao longo do tempo e ter menor memória (menos tendência a manter deformações). Em cirurgia contaminada, o polipropileno é o padrão-ouro; o náilon, embora monofilamentar, não é a melhor escolha quando o polipropileno está disponível.
O polipropileno é um fio sintético, monofilamentar e não absorvível. Suas propriedades — inércia tecidual, ausência de capilaridade bacteriana e manutenção prolongada da resistência tênsil — fazem dele o material de escolha para fechamento da aponeurose em ambiente contaminado, como na peritonite purulenta difusa. É o fio padrão para sutura de fáscia em cirurgias de emergência e infectadas.
O ácido poliglicólico é um fio absorvível sintético, geralmente multifilamentar trançado. Em cavidade contaminada, a absorção pode ocorrer antes de a aponeurose ganhar resistência adequada (que leva semanas), aumentando o risco de deiscência. Além disso, a estrutura trançada favorece a infecção. Embora seja útil em tecidos com cicatrização rápida, não é indicado para fechamento de fáscia em peritonite.
A banca coloca o náilon (letra B) como distrator porque ele também é monofilamentar não absorvível — o candidato desatento pode marcá-lo. Mas o polipropileno é superior para aponeurose por ser mais inerte e manter melhor a resistência. E o ácido poliglicólico (letra D) engana quem pensa que "absorvível" é sempre bom — em parede abdominal contaminada, a absorção precoce é um risco. A regra de ouro: monofilamentar não absorvível para fáscia em ambiente infectado.
Para fixar, monte uma tabela mental dos fios por estrutura e absorção:
Fio | Estrutura | Absorção | Uso em fáscia contaminada |
|---|---|---|---|
Seda | Multifilamentar | Não | ❌ Contraindicado |
Náilon | Monofilamentar | Não | ⚠️ Aceitável, mas inferior |
Polipropileno | Monofilamentar | Não | ✅ Padrão-ouro |
Ácido poliglicólico | Multifilamentar | Sim | ❌ Contraindicado |
Na prova, ao ver "peritonite" ou "contaminação", procure o monofilamentar não absorvível — é quase sempre a resposta.
Gabarito: letra C — polipropileno zero.
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