Questão de Medicina — Farmacologia e Anestesiologia — FGV 2024
- Código
- fg095021
- Banca
- FGV
- Órgão
- SES-MT
- Ano
- 2024
- Nível
- Superior
- Cargo
- Médico Hansenólogo
- Avirchoviana.
- Bdimorfa.
- Ctuberculoide.
- Dindeterminada.
GabaritoB — dimorfa.
Gabarito: letra B. A reação hansênica tipo I, ou reação reversa, é uma reação de hipersensibilidade dos tipos III e IV da Classificação de Gell e Coombs e acomete principalmente os pacientes na forma dimorfa (borderline), que é a forma instável da doença, com resposta imune intermediária e elevado potencial para fenômenos inflamatórios e dano neural. Essa é a forma clínica que mais se associa aos estados reacionais, conforme a classificação de Madri adotada pelo Ministério da Saúde.
A hanseníase é uma doença infectocontagiosa crônica causada pelo Mycobacterium leprae, que se manifesta em um espectro contínuo de formas clínicas, dependendo da resposta imune do hospedeiro. A Classificação de Madri (1953), adotada oficialmente no Brasil, divide a doença em quatro formas: indeterminada, tuberculoide, dimorfa e virchowiana. Essa classificação considera dois polos estáveis e opostos — a forma tuberculoide (alta resistência) e a virchowiana (baixa resistência) — e uma forma interpolar e instável, a dimorfa, além da forma inicial indeterminada.
A forma dimorfa é caracterizada por uma resistência intermediária do paciente ao bacilo, podendo se aproximar do polo tuberculoide ou do polo virchowiano. Essa instabilidade imunológica é exatamente o que predispõe à ocorrência de reações hansênicas, especialmente a reação tipo I ou reação reversa. Nessa reação, há uma exacerbação da resposta imune celular contra antígenos do M. leprae, levando a um processo inflamatório agudo que pode acometer a pele e, principalmente, os nervos periféricos, causando neurite e dano neural potencialmente incapacitante. O tratamento é feito com corticosteroides, sendo a prednisona o medicamento de escolha.
Para entender por que a forma dimorfa é a mais acometida, é preciso comparar as formas clínicas. Na forma tuberculoide, o paciente tem alta resistência e a doença tende a não se disseminar, com poucas lesões e baciloscopia negativa. Na forma virchowiana, há imunidade celular incompetente, com disseminação simétrica e alta carga bacilar. A forma dimorfa, por sua vez, é instável e pode oscilar entre os dois polos, o que a torna o cenário ideal para a ocorrência de reações inflamatórias. A forma indeterminada é a manifestação inicial, com poucas manchas e baciloscopia negativa, e não costuma apresentar reações.
A pegadinha da questão está em associar a reação tipo I a uma forma específica. O candidato pode ser tentado a escolher a forma virchowiana, que é a mais grave e com maior carga bacilar, mas as reações tipo I são típicas da forma dimorfa, justamente pela instabilidade imunológica. A reação tipo II, ou eritema nodoso hansênico, por outro lado, é mais comum na forma virchowiana. Guarde essa distinção: reação tipo I (reversa) → forma dimorfa; reação tipo II (eritema nodoso) → forma virchowiana.
Forma Clínica | Resistência Imunológica | Carga Bacilar | Baciloscopia | Reação Hansênica Típica |
|---|---|---|---|---|
Dimorfa (borderline) | Intermediária e instável | Intermediária | Variável | Tipo I (reação reversa) |
Virchowiana | Baixa (incompetência) | Alta | Fortemente positiva | Tipo II (eritema nodoso) |
Tuberculoide | Alta | Baixa | Negativa | Rara |
Indeterminada | Inicial, não polarizada | Baixa | Negativa | Ausente |
A forma virchowiana é o polo com menor resistência imunológica, com alta carga bacilar e baciloscopia fortemente positiva. As reações hansênicas nessa forma são mais comumente do tipo II (eritema nodoso hansênico), e não a reação tipo I ou reação reversa. A reação tipo I é típica da forma dimorfa, que tem resposta imune intermediária e instável.
A forma dimorfa é a forma interpolar e instável da hanseníase, com resistência intermediária ao bacilo. Essa instabilidade imunológica é o que predispõe à ocorrência de reações hansênicas, especialmente a reação tipo I ou reação reversa, que é uma reação de hipersensibilidade dos tipos III e IV. O acometimento de nervos periféricos e os estados reacionais são frequentes nessa forma, conferindo elevado potencial incapacitante.
A forma tuberculoide ocorre em indivíduos com alta resistência ao bacilo, com multiplicação bacilar limitada e baciloscopia negativa. A doença tende a não se disseminar e pode evoluir para cura espontânea. As reações hansênicas são menos frequentes nessa forma, pois a resposta imune é estável e bem controlada.
A forma indeterminada é a manifestação inicial da doença, com poucas manchas hipocrômicas e baciloscopia negativa. Pode evoluir para cura espontânea ou para outra forma clínica, mas não é a forma mais acometida por reações hansênicas, pois a resposta imune ainda não está claramente polarizada.
Gabarito: letra B
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