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Questão de Medicina — Hematologia — FGV 2024

MedicinaHematologia
Código
fg095053
Banca
FGV
Órgão
SES-MT
Ano
2024
Nível
Superior
Cargo
Médico Hematologista e Hemoterapeuta
O tratamento das talassemia major (talassemia B) requer protocolo de hipertansfusão crônica.A respeito dessa terapia, analise as afirmativas a seguir.I. O objetivo das transfusões crônicas é manter a hemoglobina pré-transfusional do paciente entre 9,5 a 10g/dL.II. As hemácias a serem transfundidas precisam sempre ser fenotipadas, desleucocitadas e irradiadas.III. A prevenção da sobrecarga de Ferro deve ser feita com o uso de deferasirox, sempre a dosagem sérica de Ferritina for superior a 2.000µg/dL.Está correto o que se afirma em
  1. AI, apenas.
  2. BII, apenas.
  3. CIII, apenas.
  4. DI e II, apenas.
Revelar gabarito e comentário

GabaritoA — I, apenas.

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

Talassemia major: protocolo de hipertransfusão crônica

Gabarito: letra A. A afirmativa I está correta — o objetivo da hipertransfusão na talassemia major é manter a hemoglobina pré-transfusional entre 9,5 e 10 g/dL, suprimindo a eritropoiese ineficaz e prevenindo deformidades ósseas. A afirmativa II está incorreta porque, embora as hemácias devam ser fenotipadas e desleucocitadas, a irradiação não é necessária em todos os casos — ela é indicada apenas para pacientes imunossuprimidos ou em risco de doença do enxerto contra hospedeiro (DECH) associada à transfusão. A afirmativa III está incorreta porque a quelação de ferro com deferasirox não é iniciada apenas com ferritina acima de 2.000 µg/dL; o limiar para início da terapia quelante é geralmente ferritina acima de 1.000 ng/mL (ou µg/L), e a decisão considera também a carga de ferro hepática e a idade do paciente.

A talassemia major (ou beta-talassemia major) é uma doença hereditária caracterizada pela síntese reduzida ou ausente da cadeia beta da hemoglobina, levando a anemia hemolítica grave, eritropoiese ineficaz e expansão da medula óssea. O tratamento de suporte fundamental é o regime de hipertransfusão crônica, que consiste em transfusões regulares de concentrado de hemácias para manter a hemoglobina em níveis que suprimam a eritropoiese endógena e evitem as complicações da anemia crônica, como retardo de crescimento, deformidades ósseas e esplenomegalia.

O objetivo da hipertransfusão é manter a hemoglobina pré-transfusional acima de 9,5-10 g/dL. Isso é importante porque, quando a hemoglobina cai abaixo desse nível, a medula óssea é estimulada a produzir hemácias defeituosas, o que leva à expansão medular e às deformidades ósseas características. Manter a hemoglobina nesse patamar suprime a eritropoiese ineficaz e reduz a esplenomegalia e as complicações ósseas.

Quanto ao preparo das hemácias para transfusão, as recomendações incluem:

  • Fenotipagem estendida: para reduzir o risco de aloimunização, especialmente em pacientes que receberão transfusões crônicas ao longo da vida.

  • Desleucocitação (leucorredução): para diminuir a incidência de reações febris não hemolíticas, aloimunização HLA e transmissão de citomegalovírus.

  • Irradiação: indicada apenas para pacientes com risco de DECH associada à transfusão, como imunossuprimidos graves, receptores de transplante de medula óssea ou quando há doador aparentado. Não é necessária rotineiramente em todos os pacientes com talassemia.

A sobrecarga de ferro é a principal complicação da hipertransfusão crônica, pois cada unidade de hemácias contém cerca de 200-250 mg de ferro, e o organismo não tem mecanismo eficaz de excreção. A terapia quelante de ferro é essencial para prevenir danos cardíacos, hepáticos e endócrinos. O deferasirox é um quelante oral amplamente utilizado, mas o início da quelação não é baseado apenas em um valor isolado de ferritina. As diretrizes recomendam iniciar a quelação quando a ferritina sérica estiver acima de 1.000 ng/mL (ou µg/L) em pacientes com talassemia major que recebem transfusões regulares, geralmente após 10-20 transfusões ou quando a ferritina atinge esse limiar. A decisão deve ser individualizada, considerando a carga de ferro hepática (avaliada por ressonância magnética) e a idade do paciente.

A pegadinha da banca nesta questão está em dois pontos: (1) a afirmativa II generaliza a necessidade de irradiação, que não é universal; (2) a afirmativa III usa um valor de ferritina incorreto (2.000 µg/dL em vez de 1.000 ng/mL) e a palavra "sempre", que não reflete a prática clínica individualizada.

Guarde o critério decisivo: o objetivo transfusional (Hb 9,5-10 g/dL) é correto; a irradiação é seletiva; e a quelação é iniciada com ferritina > 1.000 ng/mL, não 2.000 µg/dL. É exatamente nesses detalhes que as alternativas se dividem.

Item I — ✅ Correto

A afirmativa está correta. O objetivo da hipertransfusão crônica na talassemia major é manter a hemoglobina pré-transfusional entre 9,5 e 10 g/dL. Esse nível é necessário para suprimir a eritropoiese ineficaz, prevenir deformidades ósseas e reduzir a esplenomegalia. É um consenso bem estabelecido nas diretrizes de tratamento da talassemia.

Item II — ❌ Incorreto

A afirmativa está incorreta porque generaliza a necessidade de irradiação. Embora as hemácias devam ser fenotipadas (para reduzir aloimunização) e desleucocitadas (para diminuir reações febris e transmissão de CMV), a irradiação é indicada apenas em situações específicas, como pacientes imunossuprimidos ou com risco de DECH associada à transfusão. Não é necessária rotineiramente em todos os pacientes com talassemia major. O erro está na palavra "sempre".

Item III — ❌ Incorreto

A afirmativa está incorreta por dois motivos: (1) o limiar para iniciar a quelação de ferro com deferasirox é ferritina sérica acima de 1.000 ng/mL (ou µg/L), não 2.000 µg/dL; (2) a palavra "sempre" é inadequada, pois a decisão de iniciar a quelação é individualizada, considerando a carga de ferro hepática, a idade e o número de transfusões recebidas. O valor de 2.000 µg/dL é muito superior ao limiar recomendado e não corresponde à prática clínica.

Conclusão: Apenas o item I está correto. Portanto, a alternativa correta é a letra A.

Gabarito: letra A

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