Questão de Medicina — Doenças Infecto-Parasitárias — FGV 2024
Medicina›Doenças Infecto-Parasitárias
Código
fg095071
Banca
FGV
Órgão
SES-MT
Ano
2024
Nível
Superior
Cargo
Médico Infectologista
Estudante de 15 anos refere há 4 dias febre alta de início súbito, cefaleia frontal, mialgias, artralgias e dores generalizadas pelo corpo, que a impediram de ir ao colégio. No terceiro dia do quadro procurou serviço médico e ao exame físico apresentavase febril, com hiperemia conjuntival, mucosas desidratadas, coradas e anictéricas. FR: 18 irpm; FC: 90 bpm; PA: 110/70 mmHg e TAx: 37,8º C; RCR em 2T BNF sem sopros; pulmões, abdome e membros sem anormalidades. Fez hemograma que mostrava: 13 g% de hemoglobina, 42% de hematócrito, 4100 leucócitos, 3% bastões, 44% PMN, 42% de linfócitos, 11% monócitos, 70.000 plaquetas/mm³ . Foi diagnosticada como “virose” e orientada a retornar à sua residência, “beber bastante líquido” e usar acetaminofen para a febre. Hoje, notou erupção macular pruriginosa em tronco. Boas condições de moradia. Nega viagens recentes. Vacinação atualizada.Em relação ao quadro apresentado pela adolescente é correto afirmar:
ADengue e Chikungunya são os diagnósticos prováveis pela artralgia e pelo tempo do aparecimento do exantema.
BZika e Chikungunya são os diagnósticos prováveis pela presença de conjuntivite e pelo grau de leucopenia.
CDengue e Zika são os diagnósticos prováveis pela ausência de edema articular e pela intensidade da cefaleia.
DNão é possível estabelecer o diagnóstico em bases clínicas e a paciente deve ser abordada como se fora Dengue.
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GabaritoD — Não é possível estabelecer o diagnóstico em bases clínicas e a paciente deve ser abordada como se fora Dengue.
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Arboviroses: diagnóstico diferencial em paciente com febre, artralgia e exantema
Gabarito: letra D. O quadro clínico apresentado — febre alta de início súbito, cefaleia, mialgias, artralgias, hiperemia conjuntival, leucopenia e plaquetopenia, seguido de exantema maculopapular pruriginoso — é compatível com várias arboviroses (dengue, chikungunya e zika), que compartilham manifestações clínicas e laboratoriais inespecíficas. Por isso, não é possível estabelecer o diagnóstico etiológico apenas com bases clínicas, e a conduta correta é abordar a paciente como caso suspeito de dengue, a arbovirose de maior gravidade potencial e maior prevalência no Brasil, conforme preconizado pelo Ministério da Saúde.
O diagnóstico diferencial das arboviroses é um dos grandes desafios da prática clínica, especialmente em áreas endêmicas. Dengue, chikungunya e zika são transmitidas pelo mesmo vetor (mosquito Aedes aegypti) e apresentam sobreposição significativa de sintomas. A dengue cursa com febre alta (39-40°C) de início abrupto, cefaleia, dor retro-orbitária, mialgias, artralgias e exantema maculopapular em cerca de 50% dos casos, frequentemente pruriginoso, que surge no desaparecimento da febre. A chikungunya caracteriza-se por febre alta (>38,5°C) e poliartralgia intensa e debilitante, frequentemente com edema articular, além de exantema e conjuntivite. A zika, por sua vez, apresenta febre baixa (≤38,5°C) ou ausente, exantema maculopapular pruriginoso de início precoce, conjuntivite não purulenta e artralgias menos intensas. Laboratorialmente, todas podem cursar com leucopenia e plaquetopenia discretas, o que torna o hemograma pouco específico para a distinção.
A paciente em questão tem 15 anos, febre alta há 4 dias, cefaleia frontal, mialgias, artralgias, hiperemia conjuntival, e hoje apresenta exantema macular pruriginoso em tronco. O hemograma mostra leucopenia (4.100 leucócitos) e plaquetopenia (70.000 plaquetas/mm³). Esses achados são compatíveis com as três arboviroses, mas nenhum deles é patognomônico. A artralgia, por exemplo, está presente nas três, embora seja mais intensa e debilitante na chikungunya. A conjuntivite é mais característica da zika, mas também pode ocorrer na chikungunya. A leucopenia e a plaquetopenia são mais acentuadas na dengue, mas também ocorrem nas outras. O exantema pruriginoso é comum na zika e na dengue, e pode ocorrer na chikungunya. Portanto, não há elementos clínicos ou laboratoriais suficientes para firmar o diagnóstico etiológico com segurança.
A conduta correta, nesse cenário, é tratar a paciente como caso suspeito de dengue, a arbovirose de maior relevância epidemiológica e com potencial de evolução para formas graves. Isso implica em orientar hidratação adequada, uso de analgésicos e antitérmicos (evitando AINEs e aspirina pelo risco de sangramento), e vigilância para sinais de alarme (dor abdominal intensa e contínua, vômitos persistentes, sangramento de mucosas, letargia, aumento progressivo do hematócrito, entre outros). A confirmação etiológica, se necessária, seria feita por exames laboratoriais específicos (RT-PCR ou sorologia), mas a abordagem inicial não deve aguardar esses resultados.
A pegadinha desta questão está em tentar estabelecer um diagnóstico etiológico definitivo com base apenas em dados clínicos e laboratoriais inespecíficos. As alternativas A, B e C cometem esse erro ao afirmar que determinadas arboviroses são "diagnósticos prováveis" com base em características que não são exclusivas de nenhuma delas. A alternativa D, por sua vez, reconhece a limitação do diagnóstico clínico e orienta a abordagem correta, que é tratar como dengue até que se prove o contrário.
NÃO CAIA NESSA!
A banca explora a tentação de "fechar" o diagnóstico etiológico com base em sinais clínicos que, na verdade, são compartilhados por várias arboviroses. A artralgia, a conjuntivite, a leucopenia e o exantema não são exclusivos de nenhuma delas. A resposta correta é justamente a que reconhece essa limitação e orienta a conduta prática: abordar como dengue, a doença de maior gravidade potencial. Não caia na armadilha de tentar "adivinhar" o vírus com base em dados inespecíficos.
Alternativa A — ❌ Incorreta
Afirma que dengue e chikungunya são os diagnósticos prováveis pela artralgia e pelo tempo do aparecimento do exantema. A artralgia está presente nas três arboviroses (dengue, chikungunya e zika), embora seja mais intensa na chikungunya. O exantema também ocorre nas três, e o tempo de aparecimento (no 4º dia) não é específico de nenhuma delas. Portanto, esses achados não permitem restringir o diagnóstico a dengue e chikungunya, excluindo a zika.
Alternativa B — ❌ Incorreta
Afirma que zika e chikungunya são os diagnósticos prováveis pela presença de conjuntivite e pelo grau de leucopenia. A conjuntivite é mais característica da zika, mas também pode ocorrer na chikungunya e, menos frequentemente, na dengue. A leucopenia (4.100 leucócitos) é compatível com as três arboviroses, embora seja mais acentuada na dengue. Portanto, esses achados não permitem excluir a dengue, que é justamente a doença de maior gravidade potencial e que deve ser sempre considerada.
Alternativa C — ❌ Incorreta
Afirma que dengue e zika são os diagnósticos prováveis pela ausência de edema articular e pela intensidade da cefaleia. A ausência de edema articular não exclui a chikungunya, pois o edema pode estar ausente em alguns casos, especialmente no início do quadro. A cefaleia intensa é comum na dengue, mas também pode ocorrer na chikungunya e na zika. Portanto, esses achados não permitem excluir a chikungunya, que é uma das principais causas de artralgia intensa em áreas endêmicas.
Alternativa D — ✅ Correta ⟵ GABARITO
Reconhece que não é possível estabelecer o diagnóstico etiológico apenas com bases clínicas e que a paciente deve ser abordada como caso suspeito de dengue. Essa é a conduta correta, pois as arboviroses apresentam grande sobreposição de sintomas e o diagnóstico definitivo depende de exames laboratoriais específicos. A dengue deve ser sempre a primeira hipótese a ser considerada e manejada, devido ao seu potencial de evolução para formas graves, com extravasamento plasmático, choque e sangramento.