Questão de Medicina — Doenças Infecto-Parasitárias — FGV 2024
Medicina›Doenças Infecto-Parasitárias
Código
fg095083
Banca
FGV
Órgão
SES-MT
Ano
2024
Nível
Superior
Cargo
Médico Infectologista
Mulher de 62 anos está em investigação de febre há 8 semanas, já tendo sido submetida à investigação preliminar inconclusiva com hemogramas, bioquímicas, dosagens de proteína C reativa, VHS, culturas de urina e sangue, sorologias diversas, provas de atividade reumática, radiografias de tórax, ultrassonografia de abdome e pelve, tomografia de tórax e abdome e ecocardiografias transtorácica e transesofágica. É, então, internada por 5 dias, para documentação e avaliação do padrão da febre, que se mostra intermitente, usualmente noturna e variando de 38,0 à 38,5°C. Por causa de alterações das enzimas hepáticas, durante a internação, é submetida à biópsia hepática, cujo histopatológico demonstra a presença de granulomas, nos quais não são documentados microrganismos. Neste momento do curso da doença, a relação médico-paciente está desgastada, e a paciente está em mal estado geral, emagrecida e com sintomas depressivos.Nessa situação, a conduta preconizada é:
Acontinuar a investigação com tomografia computadorizada por emissão de pósitrons.
Bindicar prova terapêutica empírica com drogas tuberculostáticas.
Cadministrar glicocorticoides e anti-inflamatórios não hormonais.
Dprescrever drogas antagonistas de receptores de interleucinas, IL-1α e IL-1β.
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GabaritoB — indicar prova terapêutica empírica com drogas tuberculostáticas.
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Febre de origem indeterminada (FOI) e prova terapêutica
Gabarito: letra B. Diante de uma paciente com febre há 8 semanas (febre de origem indeterminada clássica), investigação extensa inconclusiva, granulomas hepáticos sem microrganismos identificados e deterioração clínica progressiva, a conduta preconizada é a prova terapêutica empírica com drogas tuberculostáticas — a tuberculose é uma das causas mais comuns de FOI e de hepatite granulomatosa, e a resposta ao tratamento é um critério diagnóstico aceito nesse cenário. As demais alternativas (PET-CT, glicocorticoides/AINEs, antagonistas de IL-1) não são a conduta de primeira linha nesse contexto.
A febre de origem indeterminada (FOI) é definida como febre documentada > 38,3°C em várias ocasiões, por mais de 3 semanas, sem diagnóstico após investigação inicial adequada. A paciente do caso preenche esses critérios: febre intermitente noturna de 38,0–38,5°C há 8 semanas, com investigação ambulatorial e hospitalar extensa (hemogramas, bioquímicas, PCR, VHS, culturas, sorologias, provas reumáticas, radiografias, ultrassonografias, tomografias e ecocardiografias) sem etiologia definida.
As causas de FOI clássica se dividem em três grandes grupos: infecções (25–50% dos casos), neoplasias malignas e doenças inflamatórias não infecciosas (autoimunes, vasculites, granulomatosas). Entre as infecções, destacam-se abscessos, endocardite, tuberculose, infecções do trato urinário complicadas e doenças das vias biliares. A tuberculose, em particular, é uma causa clássica de FOI e de hepatite granulomatosa — e é exatamente o que a biópsia hepática sugere neste caso: granulomas sem microrganismos identificados.
A presença de granulomas hepáticos é um achado histopatológico inespecífico, mas com um espectro diagnóstico bem definido. As causas mais comuns de hepatite granulomatosa incluem: tuberculose (a mais frequente em países em desenvolvimento), sarcoidose, infecções fúngicas (histoplasmose, coccidioidomicose), brucelose, doença de Crohn, reação a fármacos e linfoma. Quando os granulomas são encontrados em um paciente com FOI e não se identifica microrganismo na biópsia, a tuberculose miliar ou extrapulmonar (hepática) é uma hipótese muito forte — mesmo com radiografia de tórax normal, pois a tuberculose miliar pode não produzir alterações radiológicas evidentes em fases iniciais.
A prova terapêutica (ou teste terapêutico) é um procedimento diagnóstico legítimo em situações específicas: quando há forte suspeita clínica de uma doença tratável, a investigação diagnóstica foi exaustiva e inconclusiva, e o paciente está deteriorando. No caso da tuberculose, a prova terapêutica com drogas tuberculostáticas (esquema RIPE — rifampicina, isoniazida, pirazinamida, etambutol) é aceita quando: (1) há evidência clínica e/ou histopatológica compatível (granulomas), (2) não foi possível confirmar o diagnóstico microbiológico, e (3) o paciente está grave ou piorando. A resposta clínica ao tratamento (desaparecimento da febre em 2–3 semanas) confirma retrospectivamente o diagnóstico. Essa conduta é especialmente indicada em países com alta prevalência de tuberculose, como o Brasil.
A alternativa A (PET-CT) é uma ferramenta diagnóstica útil na FOI, mas não é a conduta imediata quando já há um achado histopatológico (granulomas) que aponta fortemente para uma doença tratável — e a paciente está em mal estado geral, emagrecida e com sintomas depressivos, o que torna a espera por mais exames menos adequada. A alternativa C (glicocorticoides e AINEs) seria apropriada se houvesse suspeita de doença inflamatória não infecciosa (sarcoidose, vasculite), mas é contraindicada antes de afastar tuberculose, pois pode causar disseminação da infecção. A alternativa D (antagonistas de IL-1) é uma terapia alvo para doenças autoinflamatórias específicas (como doença de Still do adulto), mas não é a conduta de primeira linha para FOI com granulomas hepáticos sem diagnóstico definido.
A relação médico-paciente desgastada e os sintomas depressivos são consequências do quadro arrastado, mas não mudam a conduta diagnóstica/terapêutica — reforçam a necessidade de uma decisão firme e baseada na melhor hipótese clínica. O princípio é: quando a investigação é exaustiva, há um achado histopatológico que aponta para uma doença tratável e o paciente está deteriorando, a prova terapêutica é a conduta mais racional.
NÃO CAIA NESSA!
A banca explora a confusão entre "granulomas sem microrganismos" e "doença autoimune/inflamatória". O candidato pode ser tentado a escolher glicocorticoides (alternativa C), mas isso seria um erro grave: em um paciente com FOI e granulomas hepáticos, a tuberculose é a principal hipótese, e o uso de corticoide antes de afastá-la pode causar disseminação miliar fatal. A presença de granulomas sem microrganismos não exclui tuberculose — na verdade, é o achado típico da tuberculose granulomatosa, em que o bacilo é difícil de identificar na biópsia. A prova terapêutica com tuberculostáticos é a conduta que trata a hipótese mais provável e mais perigosa.
Conduta
Indicação
Adequação ao caso
Prova terapêutica com tuberculostáticos (B)
FOI com granulomas hepáticos sem microrganismos, deterioração clínica e investigação exaustiva
✅ Correta — tuberculose é a principal hipótese; resposta ao tratamento confirma o diagnóstico
PET-CT (A)
FOI sem hipótese definida, para localizar focos ocultos
❌ Incorreta — já há achado histopatológico (granulomas) apontando para doença tratável; atrasaria o tratamento
Glicocorticoides e AINEs (C)
Doenças inflamatórias não infecciosas (sarcoidose, vasculites)
❌ Incorreta — risco de disseminação miliar se houver tuberculose ativa; contraindicação antes de afastá-la
Antagonistas de IL-1 (D)
Doenças autoinflamatórias (ex.: doença de Still)
❌ Incorreta — não é primeira linha para FOI com granulomas; risco de reativação de tuberculose
Alternativa A — ❌ Incorreta
A tomografia por emissão de pósitrons (PET-CT) é um exame útil na FOI para identificar focos inflamatórios, infecciosos ou neoplásicos ocultos. Porém, neste caso, a investigação já foi extensa (TC de tórax e abdome, ecocardiografias, biópsia hepática) e encontrou um achado histopatológico — granulomas — que aponta fortemente para uma doença tratável (tuberculose). Continuar investigando com PET-CT atrasaria a instituição de tratamento em uma paciente com mal estado geral e deterioração clínica. O PET-CT poderia ser considerado se não houvesse hipótese definida, mas aqui há uma hipótese forte que justifica prova terapêutica.
Alternativa B — ✅ Correta ⟵ GABARITO
A prova terapêutica com drogas tuberculostáticas é a conduta preconizada. A paciente tem FOI clássica (febre > 38,3°C por mais de 3 semanas, investigação extensa inconclusiva), granulomas hepáticos sem microrganismos (achado típico de tuberculose hepática/miliar), e está em deterioração clínica (mal estado geral, emagrecimento). A tuberculose é uma das causas mais comuns de FOI e de hepatite granulomatosa, e a resposta ao tratamento antituberculose (desaparecimento da febre em 2–3 semanas) é um critério diagnóstico aceito. A prova terapêutica é indicada quando: (1) há forte suspeita clínica, (2) a investigação foi exaustiva, (3) o paciente está grave ou piorando, e (4) não foi possível confirmação microbiológica.
Alternativa C — ❌ Incorreta
Administrar glicocorticoides e anti-inflamatórios não hormonais seria um erro grave neste contexto. Embora os granulomas possam ocorrer em doenças inflamatórias não infecciosas (sarcoidose, vasculites), a tuberculose é a causa mais provável e mais perigosa. O uso de corticoide em paciente com tuberculose ativa não tratada pode causar disseminação miliar e piora dramática do quadro. A regra é: antes de iniciar imunossupressão em paciente com granulomas e FOI, é obrigatório afastar tuberculose — e, na dúvida, tratar empiricamente. A prova terapêutica com tuberculostáticos precede qualquer consideração sobre terapia anti-inflamatória.
Alternativa D — ❌ Incorreta
Os antagonistas de receptores de IL-1 (como anakinra) são usados em doenças autoinflamatórias específicas, como a doença de Still do adulto, que pode cursar com febre, artrite e rash. Porém, não é a conduta de primeira linha para FOI com granulomas hepáticos. Além disso, a doença de Still raramente causa granulomas hepáticos — o achado de granulomas aponta mais para infecção (tuberculose) ou sarcoidose. Iniciar terapia biológica sem diagnóstico definido, em paciente com possível tuberculose, também é arriscado (risco de reativação). A prova terapêutica com tuberculostáticos é mais racional e segura.
Gabarito: letra B — a conduta preconizada é a prova terapêutica empírica com drogas tuberculostáticas, diante de FOI com granulomas hepáticos e deterioração clínica.