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Questão de Medicina — Doenças Infecto-Parasitárias — FGV 2024

MedicinaDoenças Infecto-Parasitárias
Código
fg095086
Banca
FGV
Órgão
SES-MT
Ano
2024
Nível
Superior
Cargo
Médico Infectologista
Homem de 34 anos, auxiliar de serviços gerais, relata há 5 dias, febre de início súbito (“ao chegar do trabalho”), calafrios, mal estar e cefaleia. A doença progrediu com mialgias generalizadas, principalmente nas pernas, que dificultaram sua deambulação. Na véspera da internação, notou os olhos amarelados. No momento da admissão, quando indagado, refere ter urinado pela última vez havia 10 horas, urina escura “cor de mate”. Refere vacinação na infância, mas não recorda de ter tomado nenhuma vacina na vida adulta. Nega icterícia prévia. Mora em casa de tijolo, que dispõe de água encanada, mas possui drenagem de água e de esgoto para um “valão” localizado nos fundos do terreno. Trabalha em uma distribuidora de bebidas e às vezes complementa a renda prestando serviços ao dono da empresa, que tem um sítio em área silvestre. Refere que há muitos ratos onde mora e no local de trabalho. E muitos animais no sítio do patrão. Duas semanas antes do início do quadro, houve uma chuva torrencial no depósito de bebidas e teve que remover engradados de área alagada. Ao exame físico está em mau estado geral, orientado, muito desidratado, icterícia intensa de coloração alaranjada; congestão conjuntival bilateral e sufusão hemorrágica na conjuntiva direita; FC: 108 bpm, com ritmo irregular, possivelmente extrassístoles, bulhas hipofonéticas, PA: 90 X 70 mmHg; FR: 28 irpm, alguns estertores crepitantes e subcrepitantes esparsos pelos pulmões; TA: 38,9o C; dor à compressão das principais massas musculares, principalmente coxas e panturrilhas. Fígado palpável a 3 cm da RCD, consistência aumentada, possivelmente doloroso, pois toda a parede abdominal está dolorosa. Baço impalpável.Realiza, na admissão, exames complementares inespecíficos: Hematócrito = 40%, Leucometria e diferencial: 18.300/mm³ (8% bastões, 64% segmentados, 20% linfócitos e 8% monócitos); 80.000 plaquetas/mm3 ; Aminotransferases: AST=122 U/L (VR=38 U/L), ALT=140 U/L (VR=41U/L), Glicose=90 mg% (VR= 70 – 110 mg%), Ureia=85 mg/dL (VR=10-45 mg/dL), Creatinina=3,0 mg/dL (VR=0,5 – 1,2 mg/dL); Potássio=3,0 mEq/L (VR 3,5 a 5,5 mEq/L); Creatinoquinase=540 ng/ml (VR < 220 ng/ml); Fibrilação atrial no ECG.Considerando os dados clínicos e epidemiológicos relatados e os exames laboratoriais preliminares, a hipótese diagnóstica mais provável é:
  1. AFebre amarela.
  2. BLeptospirose.
  3. CFebre maculosa.
  4. DMalária.
Revelar gabarito e comentário

GabaritoB — Leptospirose.

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

Leptospirose: diagnóstico sindrômico

Gabarito: letra B. O quadro clínico-epidemiológico — febre de início súbito, mialgia intensa com dificuldade de deambulação, icterícia alaranjada, congestão conjuntival, insuficiência renal aguda, plaquetopenia e exposição a água de enchente contaminada por urina de ratos — é altamente sugestivo de leptospirose, especialmente na forma grave (síndrome de Weil). A tríade clássica (icterícia, insuficiência renal e hemorragia) associada ao antecedente de contato com água contaminada por roedores fecha o diagnóstico sindrômico.

A leptospirose é uma zoonose causada por bactérias helicoidais do gênero Leptospira, sendo a L. interrogans a mais importante. O reservatório são animais domésticos e selvagens, principalmente roedores, que eliminam a bactéria na urina, contaminando água e solo. A infecção humana ocorre pelo contato direto ou indireto com essa água ou solo contaminados, através de pele com lesões, mucosas ou mesmo pele íntegra após exposição prolongada. O período de incubação costuma ser de 1 a 2 semanas, o que casa com o relato do paciente: a chuva torrencial e o contato com a área alagada ocorreram duas semanas antes do início dos sintomas.

A doença tem duas fases. A fase precoce (leptospirêmica) é caracterizada por febre, calafrios, cefaleia, mialgia (principalmente panturrilhas), náuseas e vômitos — sintomas inespecíficos que podem confundir com dengue, influenza ou outras arboviroses. A fase tardia (imune) é a forma grave, que pode cursar com a síndrome de Weil: icterícia, insuficiência renal aguda e hemorragias (principalmente pulmonares). É exatamente o que o paciente apresenta: icterícia intensa alaranjada, creatinina de 3,0 mg/dL (VR até 1,2), ureia elevada, oligúria (última micção há 10 horas), plaquetopenia (80.000/mm³), congestão conjuntival e sufusão hemorrágica, além de comprometimento pulmonar (estertores) e cardíaco (fibrilação atrial, hipotensão). A mialgia intensa com dor à compressão das massas musculares, principalmente panturrilhas, é um achado clássico e ajuda a diferenciar de outras causas de icterícia febril.

Os exames laboratoriais inespecíficos reforçam a suspeita: leucocitose com desvio à esquerda (18.300/mm³ com 8% de bastões), plaquetopenia, elevação de transaminases (AST e ALT em torno de 3x o valor de referência), aumento de creatinoquinase (CK), insuficiência renal (creatinina 3,0 mg/dL) e hipocalemia. A icterícia com transaminases apenas moderadamente elevadas e a CK aumentada são típicos da leptospirose, diferenciando-a de hepatites virais agudas, onde as transaminases costumam estar muito mais elevadas. O diagnóstico definitivo é feito por sorologia (ELISA IgM, microaglutinação - MAT) ou isolamento do agente, mas o tratamento com antibioticoterapia (penicilina ou ceftriaxona) deve ser iniciado imediatamente diante da suspeita clínica, sem aguardar confirmação laboratorial.

A principal dificuldade diagnóstica está em diferenciar a leptospirose de outras doenças febris ictéricas, como febre amarela, malária e dengue grave. A febre amarela cursa com icterícia e insuficiência renal, mas a mialgia intensa com comprometimento de panturrilhas, a congestão conjuntival e o antecedente de exposição a água de enchente são muito mais característicos de leptospirose. A malária, por sua vez, tem como antecedente epidemiológico a permanência em área endêmica (Amazônia) e costuma cursar com anemia e esplenomegalia, ausentes neste caso. A febre maculosa é transmitida por carrapato e cursa com exantema máculo-papular, que não está presente. A chave para a resposta está na combinação de epidemiologia (exposição a água contaminada por urina de ratos) + síndrome de Weil (icterícia, IRA, hemorragia).

NÃO CAIA NESSA!

A banca explora a confusão entre leptospirose e febre amarela, ambas com icterícia e insuficiência renal. O diferencial está na congestão conjuntival e na mialgia intensa de panturrilhas — achados clássicos da leptospirose e ausentes na febre amarela. Além disso, o antecedente de contato com água de enchente (e não picada de mosquito) aponta diretamente para a leptospirose. Fique atento: a febre amarela tem transmissão por mosquito (Haemagogus/Sabethes no ciclo silvestre, Aedes no urbano) e o paciente não relatou picada, mas sim contato com área alagada.

Critério

Leptospirose (gabarito)

Febre Amarela

Febre Maculosa

Malária

Transmissão

Contato com água/solo contaminados por urina de ratos

Picada de mosquito (Haemagogus, Sabethes, Aedes)

Picada de carrapato (Amblyomma)

Picada de mosquito (Anopheles)

Epidemiologia típica

Exposição a enchentes, áreas com roedores

Área de mata/silvestre ou urbana com vetor

Contato com carrapatos (mata, animais)

Permanência em área endêmica (Amazônia)

Icterícia

Intensa, alaranjada (síndrome de Weil)

Presente, com bradicardia relativa (sinal de Faget)

Rara/ausente

Presente na forma grave (P. falciparum)

Congestão conjuntival

Clássica (com sufusão hemorrágica)

Ausente

Ausente

Ausente

Mialgia

Intensa, com dor à compressão de panturrilhas

Moderada

Presente

Presente, com paroxismos febris

Exantema

Ausente

Ausente

Máculo-papular (palmas e plantas)

Ausente

Anemia/Esplenomegalia

Ausentes

Ausentes

Ausentes

Frequentes

Diagnóstico diferencial-chave

Síndrome de Weil (icterícia + IRA + hemorragia)

Icterícia + IRA + hemorragia, sem congestão conjuntival

Exantema + febre + mialgia

Febre cíclica + anemia + esplenomegalia

1Epidemiologia
Contato com água de enchente
Urina de ratos
2Tríade clássica
Icterícia alaranjada
Insuficiência renal aguda
Hemorragias
3Sinais diferenciais
Congestão conjuntival
Mialgia intensa (panturrilhas)
Plaquetopenia + CK elevada
4Diagnóstico
Sorologia (ELISA IgM, MAT)
Tratamento imediato (penicilina/ceftriaxona)
Leptospirose (síndrome de Weil)
LEVELsoulevel.com.br
Leptospirose (síndrome de Weil): Epidemiologia (Contato com água de enchente, Urina de ratos); Tríade clássica (Icterícia alaranjada, Insuficiência renal aguda, Hemorragias); Sinais diferenciais (Congestão conjuntival, Mialgia intensa (panturrilhas), Plaquetopenia + CK elevada); Diagnóstico (Sorologia (ELISA IgM, MAT), Tratamento imediato (penicilina/ceftriaxona))

Alternativa A — ❌ Incorreta

A febre amarela é uma arbovirose transmitida por mosquitos dos gêneros Haemagogus, Sabethes (ciclo silvestre) e Aedes (ciclo urbano). Embora curse com icterícia, insuficiência renal e hemorragias, o paciente não tem o antecedente epidemiológico de picada de mosquito em área de transmissão, e sim de contato com água de enchente. Além disso, a congestão conjuntival e a mialgia intensa com dor à compressão de panturrilhas são muito mais características da leptospirose. A febre amarela costuma cursar com bradicardia relativa (sinal de Faget) e albuminúria, achados não descritos no caso.

Alternativa B — ✅ Correta ⟵ GABARITO

Todos os elementos do caso convergem para leptospirose: exposição ocupacional e domiciliar a ratos, contato com água de enchente há duas semanas (período de incubação típico), febre de início súbito, mialgia intensa com dificuldade de deambulação, icterícia alaranjada, congestão conjuntival com sufusão hemorrágica, insuficiência renal aguda (creatinina 3,0 mg/dL, oligúria), plaquetopenia, leucocitose com desvio à esquerda e elevação de CK. A síndrome de Weil (icterícia + IRA + hemorragia) é a forma grave da leptospirose e está plenamente configurada no caso. O tratamento deve ser iniciado imediatamente com antibioticoterapia (penicilina cristalina ou ceftriaxona), sem aguardar confirmação sorológica.

Alternativa C — ❌ Incorreta

A febre maculosa é uma riquetsiose transmitida pela picada de carrapato do gênero Amblyomma. O quadro clínico inclui febre, cefaleia, mialgia e, classicamente, exantema máculo-papular que surge após o 3º dia de febre, com envolvimento de palmas e plantas. O paciente não apresenta exantema, e o antecedente epidemiológico é contato com água de enchente, não picada de carrapato. Além disso, a icterícia intensa e a congestão conjuntival são atípicas na febre maculosa, que cursa mais com petéquias e hemorragias por vasculite.

Alternativa D — ❌ Incorreta

A malária é causada por protozoários do gênero Plasmodium e transmitida pela picada de fêmeas de mosquitos Anopheles. O antecedente epidemiológico fundamental é a permanência em área endêmica (região amazônica), o que não ocorre no caso. O quadro clínico típico inclui paroxismos febris (febre, calafrio e sudorese) com periodicidade, anemia hemolítica e esplenomegalia — ausentes no paciente. Embora a malária grave por P. falciparum possa cursar com icterícia e insuficiência renal, a ausência de anemia, a presença de congestão conjuntival e o antecedente de exposição a água de enchente apontam fortemente para leptospirose.

Gabarito: letra B — o caso é um exemplo clássico de leptospirose grave (síndrome de Weil), e o reconhecimento dos sinais de alarme (icterícia, IRA, plaquetopenia, congestão conjuntival) associados à epidemiologia é essencial para o diagnóstico e tratamento precoces.

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