Questão de Medicina — Doenças Infecto-Parasitárias — FGV 2024
Medicina›Doenças Infecto-Parasitárias
Código
fg095095
Banca
FGV
Órgão
SES-MT
Ano
2024
Nível
Superior
Cargo
Médico Infectologista
Estudo de prevalência de parasitoses intestinais em comunidade rural foi realizado usando como técnicas parasitológicas os métodos de Lutz (sedimentação espontânea) e Willis (flutuação em solução saturada de cloreto de sódio). Cerca de 800 amostras de fezes (no mínimo 3 amostras por participante da pesquisa) foram analisadas, com 88,8% positivas para pelo menos uma espécie de parasito intestinal.O quadro abaixo revela os percentuais de positividade encontrados na pesquisa, para os principais enteroparasitos.A partir das informações apresentadas, os autores do estudo concluíram que
Aa baixa prevalência de estrongiloidíase torna improvável a ocorrência de transmissão por penetração de larvas pela pele na comunidade estudada.
Bas altas prevalências de protozoários e de helmintos de transmissão hídrica sugerem condições sanitárias precárias na população estudada.
Cas baixas prevalências de teníases e de enterobíase pressupõe baixa ocorrência de cisticercose e prurido anal na comunidade estudada.
Da inexistência de esquistossomose na população estudada se deve à escolha inadequada dos métodos parasitológicos para detectá-la.
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GabaritoD — a inexistência de esquistossomose na população estudada se deve à escolha inadequada dos métodos parasitológicos para detectá-la.
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Métodos parasitológicos e diagnóstico de esquistossomose
Gabarito: letra D. A conclusão de que a inexistência de esquistossomose se deve à escolha inadequada dos métodos é incorreta, pois tanto o método de Lutz (sedimentação espontânea) quanto o de Willis (flutuação em solução saturada de NaCl) são capazes de detectar ovos de Schistosoma mansoni — o método de Lutz, inclusive, é o método de escolha para o diagnóstico da esquistossomose mansônica. A ausência de casos na comunidade estudada, portanto, não pode ser atribuída a um falso negativo por técnica inadequada, mas sim a fatores epidemiológicos reais, como a ausência do hospedeiro intermediário (caramujos do gênero Biomphalaria) ou a falta de contato da população com águas contaminadas por cercárias.
O exame parasitológico de fezes (EPF) é a ferramenta mais útil para o diagnóstico das parasitoses intestinais, por ser exequível, simples e de baixo custo. A sensibilidade do método aumenta com o número de amostras avaliadas — por isso o ideal é que pelo menos 3 amostras sejam coletadas, como foi feito no estudo (no mínimo 3 amostras por participante). Os métodos de Lutz e Willis são técnicas de concentração que aumentam a probabilidade de encontrar ovos e cistos nas fezes, mas cada um tem suas particularidades e indicações.
O método de Lutz (sedimentação espontânea) baseia-se na sedimentação dos ovos por gravidade: as fezes são homogeneizadas em água, filtradas e deixadas em repouso para que os elementos parasitários mais pesados se depositem no fundo. É o método mais utilizado no Brasil e é o método de referência para o diagnóstico da esquistossomose mansônica, pois os ovos do Schistosoma mansoni são pesados e sedimentam facilmente. Também é eficaz para detectar ovos de Ascaris lumbricoides, Trichuris trichiura, ancilostomídeos e cistos de protozoários como Giardia lamblia e Entamoeba histolytica.
O método de Willis (flutuação em solução saturada de cloreto de sódio) baseia-se na flutuação dos ovos leves em uma solução de alta densidade: os ovos sobem à superfície e são coletados com uma lamínula. É particularmente útil para ovos leves, como os de ancilostomídeos e Strongyloides stercoralis, e também para ovos de Enterobius vermicularis e Hymenolepis nana. No entanto, não é o método ideal para ovos pesados, como os de Schistosoma mansoni, que não flutuam bem em solução saturada de NaCl.
A escolha dos métodos deve considerar o perfil de parasitos que se deseja investigar. No estudo, a combinação de Lutz e Willis é adequada para a detecção da maioria dos enteroparasitos, incluindo a esquistossomose — o método de Lutz é justamente o método de escolha para essa parasitose. Portanto, a ausência de esquistossomose na população estudada não pode ser atribuída à escolha inadequada dos métodos, mas sim à ausência real de transmissão naquela comunidade.
A alternativa D comete um erro lógico e técnico: atribui a um falso negativo a ausência de esquistossomose, quando os métodos utilizados são adequados para detectá-la. As demais alternativas apresentam conclusões plausíveis com base nos dados epidemiológicos e nas características das parasitoses.
Métodos parasitológicos
1Lutz (sedimentação espontânea)
Ovos pesados
Schistosoma mansoni (padrão-ouro)
Ascaris, Trichuris, ancilostomídeos
Cistos de protozoários
2Willis (flutuação em NaCl)
Ovos leves
Ancilostomídeos, Strongyloides
Enterobius, Hymenolepis nana
3Combinação Lutz + Willis
Detecta maioria dos enteroparasitos
Inclui esquistossomose
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Alternativa A — ❌ Incorreta
A baixa prevalência de estrongiloidíase não torna improvável a ocorrência de transmissão por penetração de larvas pela pele. A estrongiloidíase é causada pelo Strongyloides stercoralis, cujas larvas penetram ativamente pela pele, mas a baixa prevalência pode refletir baixa exposição ou baixa sensibilidade do método de Lutz para detectar larvas (que é mais eficaz com o método de Baermann-Moraes ou de Rugai). Além disso, outros helmintos transmitidos por penetração cutânea, como os ancilostomídeos (Ancylostoma duodenale e Necator americanus), também podem estar presentes. A conclusão é precipitada e não se sustenta apenas com os dados apresentados.
Alternativa B — ❌ Incorreta
As altas prevalências de protozoários e helmintos de transmissão hídrica sugerem condições sanitárias precárias, mas essa é uma conclusão correta e não a incorreta pedida. A alternativa B está correta porque a transmissão hídrica de protozoários como Giardia lamblia e Entamoeba histolytica e de helmintos como Ascaris lumbricoides está diretamente associada à contaminação fecal da água e dos alimentos, o que reflete más condições de saneamento básico. No entanto, como a banca pede a conclusão que os autores não poderiam tirar, a alternativa B não é o gabarito.
Alternativa C — ❌ Incorreta
As baixas prevalências de teníases e de enterobíase não pressupõem baixa ocorrência de cisticercose e prurido anal. A teníase é causada pela Taenia solium ou Taenia saginata, e a cisticercose é causada pela ingestão de ovos de Taenia solium — a baixa prevalência de teníase não exclui a possibilidade de cisticercose, pois a transmissão da cisticercose ocorre pela ingestão de ovos eliminados por um portador de teníase, e a prevalência de cisticercose pode ser maior que a de teníase. Da mesma forma, a enterobíase (Enterobius vermicularis) causa prurido anal, mas a baixa prevalência de enterobíase não pressupõe baixa ocorrência de prurido anal, que pode ter outras causas. A alternativa C é incorreta porque faz uma inferência indevida.
Alternativa D — ✅ Correta ⟵ GABARITO
A alternativa D é a incorreta e, portanto, o gabarito, pois a banca pede a conclusão que os autores não poderiam tirar. A inexistência de esquistossomose na população estudada não se deve à escolha inadequada dos métodos parasitológicos, pois o método de Lutz é o método de escolha para o diagnóstico da esquistossomose mansônica. A ausência de casos indica que não há transmissão ativa na comunidade, seja pela ausência do hospedeiro intermediário (caramujos do gênero Biomphalaria), seja pela falta de contato com águas contaminadas por cercárias. Atribuir a ausência de casos a um falso negativo por técnica inadequada é um erro técnico e lógico.
NÃO CAIA NESSA!
A banca explora a confusão entre a sensibilidade do método e a prevalência real da doença. O candidato pode pensar que a ausência de esquistossomose se deve à técnica, mas o método de Lutz é justamente o mais indicado para detectar ovos de Schistosoma mansoni. A ausência de casos reflete a realidade epidemiológica da comunidade, não uma limitação do método.
PEGA ESSA DICA!
Para questões sobre métodos parasitológicos, lembre-se: o método de Lutz (sedimentação) é o padrão-ouro para ovos pesados, como os de Schistosoma mansoni; o método de Willis (flutuação) é melhor para ovos leves, como os de ancilostomídeos e Strongyloides. A combinação de métodos aumenta a sensibilidade e reduz falsos-negativos.
Gabarito: letra D — a alternativa incorreta, pois a ausência de esquistossomose não se deve à escolha inadequada dos métodos, mas sim à ausência real de transmissão na comunidade.