Questão de Medicina — Medicina Intensiva — FGV 2024
Medicina›Medicina Intensiva
Código
fg095142
Banca
FGV
Órgão
SES-MT
Ano
2024
Nível
Superior
Cargo
Médico Intensivista
Assinale a opção que indica uma característica marcante da diálise contínua em UTI, quando comparada com a diálise intermitente.
ACursa com mais instabilidade hemodinâmica.
BCursa com clearance mais veloz de ureia.
CCursa com mais hipotermia.
DDispensa a anticoagulação do circuito.
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GabaritoC — Cursa com mais hipotermia.
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Terapia Renal Substitutiva Contínua (TRSC) versus Intermitente na UTI
Gabarito: letra C. A característica marcante da diálise contínua em UTI, quando comparada à intermitente, é que ela cursa com mais hipotermia. Isso ocorre porque o sangue do paciente permanece por longos períodos em um circuito extracorpóreo, sem aquecimento eficaz, levando à perda de calor. As terapias contínuas são preferidas em pacientes instáveis justamente por causarem menos instabilidade hemodinâmica (e não mais), por terem clearance mais lento de solutos (e não mais veloz) e por não dispensarem a anticoagulação do circuito — apenas mudam a estratégia (citrato regional em vez de heparina).
A terapia renal substitutiva (TRS) é um pilar no manejo da lesão renal aguda (LRA) grave, especialmente em pacientes críticos. Existem duas grandes famílias de modalidades: as intermitentes (como a hemodiálise convencional, realizada em sessões de 3 a 4 horas) e as contínuas (como a hemofiltração venovenosa contínua, a hemodiálise contínua e a hemodiafiltração contínua), que se estendem por 24 horas ou mais. A escolha entre elas depende do perfil hemodinâmico do paciente e dos objetivos terapêuticos.
A principal vantagem das modalidades contínuas é a estabilidade hemodinâmica. Como a remoção de volume e solutos é lenta e gradual, o paciente tolera melhor a terapia, evitando os picos de hipotensão comuns na hemodiálise intermitente. Isso é particularmente importante no paciente séptico ou com choque, que já apresenta vasoplegia e baixa reserva cardiovascular. O texto de apoio confirma: "os pacientes em estado crítico que apresentam instabilidade hemodinâmica beneficiam-se mais das terapias contínuas" e que a TRSC "possibilita um controle mais preciso do volume, da uremia, dos distúrbios ácido-básicos e dos distúrbios eletrolíticos, com menos instabilidade hemodinâmica".
Por outro lado, a eficiência por unidade de tempo é menor na terapia contínua. O clearance de ureia é mais lento, mas o tempo prolongado de tratamento resulta em uma dose semanal de diálise equivalente ou até superior. Essa lentidão também reduz o desbalanço osmótico, outro fator que contribui para a melhor tolerância hemodinâmica. A hipotermia, por sua vez, é um efeito adverso clássico e esperado: o sangue circula por horas em um circuito extracorpóreo à temperatura ambiente, e o sistema de aquecimento muitas vezes não é suficiente para manter a normotermia, especialmente em pacientes com disfunção da termorregulação.
A anticoagulação é um desafio em qualquer modalidade de TRS, pois o contato do sangue com o circuito extracorpóreo ativa a cascata de coagulação. Na hemodiálise intermitente, usa-se comumente heparina em bolus. Na terapia contínua, o método preferido é a anticoagulação regional com citrato, que é mais eficaz e segura, reduzindo o risco de sangramento. Portanto, a diálise contínua não dispensa a anticoagulação; ela apenas utiliza uma estratégia diferente. Em pacientes com contraindicação absoluta a anticoagulantes, pode-se fazer lavagem periódica do circuito com solução fisiológica, mas isso compromete a qualidade da terapia.
A pegadinha desta questão está em inverter as características: a banca tenta fazer o candidato acreditar que a diálise contínua é mais instável, mais rápida e que dispensa anticoagulação, quando na verdade é o oposto. A hipotermia, embora seja um efeito adverso, é uma característica marcante e bem estabelecida da terapia contínua, e é exatamente o que a alternativa C afirma.
Critério
Diálise Contínua (TRSC)
Diálise Intermitente
Estabilidade hemodinâmica
Maior estabilidade (preferida em instáveis)
Menor estabilidade (mais hipotensão)
Clearance de ureia
Mais lento por unidade de tempo
Mais veloz por unidade de tempo
Temperatura corporal
Mais hipotermia (perda de calor prolongada)
Menos hipotermia (sessão curta)
Anticoagulação
Necessária (citrato regional)
Necessária (heparina em bolus)
TRSC (contínua)
Intermitente
Estabilidade hemodinâmica
Lento, porém dose semanal equivalente
Rápido por sessão
Clearance de ureia
Alta (preferida em instáveis)
Baixa (picos de hipotensão)
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Alternativa A — ❌ Incorreta
Afirma que a diálise contínua cursa com mais instabilidade hemodinâmica. É exatamente o contrário: a TRSC é a modalidade de escolha para pacientes instáveis, pois a remoção lenta de volume e solutos proporciona maior estabilidade hemodinâmica em comparação com a hemodiálise intermitente. O erro está em inverter a principal vantagem da terapia contínua.
Alternativa B — ❌ Incorreta
Afirma que a diálise contínua cursa com clearance mais veloz de ureia. Na verdade, o clearance de ureia é mais lento na terapia contínua, pois o fluxo de sangue e de dialisato é menor. No entanto, como o tratamento se estende por 24 horas, a dose semanal de diálise é equivalente ou até superior à da hemodiálise intermitente. O erro está em confundir eficiência por unidade de tempo com eficiência total.
Alternativa C — ✅ Correta ⟵ GABARITO
A hipotermia é uma complicação clássica e esperada da diálise contínua. O sangue do paciente permanece por horas em um circuito extracorpóreo, e a perda de calor para o ambiente supera a capacidade de aquecimento do sistema, resultando em queda da temperatura corporal. Esse efeito é mais pronunciado na terapia contínua do que na intermitente, justamente pela longa duração do tratamento. É uma característica marcante e bem documentada na prática clínica.
Alternativa D — ❌ Incorreta
Afirma que a diálise contínua dispensa a anticoagulação do circuito. Isso é falso: toda TRS com circuito extracorpóreo requer anticoagulação para manter a patência do filtro e do circuito. A diferença é que, na terapia contínua, o método preferido é a anticoagulação regional com citrato, que é mais segura e eficaz que a heparina sistêmica, reduzindo o risco de sangramento. Em casos de contraindicação absoluta, pode-se usar lavagem periódica com solução fisiológica, mas isso não é a prática padrão e compromete a qualidade da terapia.
Gabarito: letra C — a diálise contínua em UTI cursa com mais hipotermia, sendo essa uma característica marcante quando comparada à diálise intermitente.